• No results found

O cristianismo primitivo

A Palestina, na época, estava sob o domínio dos romanos.2 A dependência se fazia valer na política e na economia, com o governador sendo nomeado pelo próprio imperador romano. As taxas de impostos cobradas eram altas. Elas deveriam ser depositadas direta- mente nos cofres do Império. Os israelitas habitavam a Palestina e tinham como crença religiosa a fé no Deus Javé (onipresente, onisciente, mas, ao mesmo tempo, fazendo parte da luta de seu povo). Esse povo era regido por patriarcas (inspirados por Deus) que tinham a função de unir o povo e manter a crença no Deus Javé (desde Abraão, Isaac, Jacó e descendência). Por muito tempo esse povo esperava o Messias (enviado de Deus, o escolhi- do, o ungido), que teria a missão de salvar e redimir os pecados da humanidade. Esse mo- mento chegou. Boa parte do povo de Israel acreditou que um homem chamado Jesus seria o messias, o Salvador.3

Este “enviado” de Deus deixou, no curto período de sua vida pública, por um lado uma mensagem de amor e fraternidade, mas por outro fez denúncias contra os poderes reli- giosos, econômicos e políticos da época. O ativismo profético e libertador de Jesus o levou

intromissão do poder eclesiástico na comunidade civil (numa palavra: Estado). Visa absorver ao máximo o eclesiástico no secular, substituindo, por uma notável inversão do estado das coisas, o monismo ‘teocrático’ por uma monismo laico” (Chevallier, 1982, p. 240).

2 Como sabemos, a religião oficial dos romanos era o politeísmo panteísta (diversidade de deuses), herdado da cultura grega. Ver Funari

(1993, p. 15-20), cap. “Os Homens e o Sobrenatural”.

aos tribunais, sendo julgado e condenado à crucificação (pena capital romana). Ao morrer, o “Messias” deixou aos seus amigos mais próximos (apóstolos e discípulos) a missão de levar adiante seu projeto.4 Foram os apóstolos e discípulos que formaram as primeiras co- munidades cristãs. São Pedro e São Paulo (romano convertido ao cristianismo) foram os mais importantes arquitetos do cristianismo primitivo.5 O cristianismo surge, assim, como uma seita clandestina dentro do Império Romano, uma religião de escravos.6

Nos primeiros séculos da era cristã, havia uma grande interação entre fé e política ou entre fé e vida cotidiana. O próprio Livro dos Atos dos Apóstolos evidencia isso ao afirmar que os cristãos tinham uma vida em comum, partilhavam o pão, eram unidos pela oração e refletiam sobre a palavra de Deus. Esse estilo de vida e empenho social foi motivo de muitas perseguições contra os cristãos.

Essas perseguições levaram à morte milhares de cristãos. No início do século 4º, entre- tanto, o Império Romano começa a sua decadência, os dias estão contados para a sua gran- de ruína, os bárbaros (godos, visigodos e estrogodos) estão prestes a tomar a grande capital Roma.7 Num golpe político extraordinário, o imperador romano Constantino assimila os cristãos ao seu governo, em 313.8 Isso significa afirmar que os cristãos ganham a liberdade condicional para exercer seu culto livremente, algo inédito até então. Claro que o ato de Constantino foi mais de natureza política do que propriamente de bondade. Vendo que o Império Romano entrava em decadência e o número de cristãos aumentava, Constantino concedeu-lhes a liberdade.9 No fim do século 4º da nossa era, a religião cristã passa ser a

4 “Antes de voltar ao Pai, no dia da Ascensão, Jesus ordenou aos discípulos que pregassem o Evangelho a toda a criatura através do mundo

inteiro” (Nunes, 1978, p. 1). “Essa doutrina revelada por Jesus Cristo foi ensinada e difundida pelos seus Apóstolos nos quatro

Evangelhos, nos Atos, nas Epístolas e no Apocalipse” (Nunes, 1978, p. 3). É bem clara a mensagem de Cristo para os cristãos:

conquistem todas as almas do mundo. O mundo inteiro deve ouvir a palavra de Deus.

5 No Novo Testamento aparecem as cartas de São Paulo e São Pedro às comunidades cristãs recém-formadas: Coríntios, Efésios,

Tessalonicenses, Gálatas, Romanos...).

6 Prélot (1973, Livro 2, p. 238) afirma que as primeiras comunidades cristãs eram células clandestinas, que não tinham nenhuma

organização no plano jurídico.

7 O trabalho de Lot (1980) discute de maneira detalhada o fim do mundo antigo e o princípio da Idade Média.

8 O Edito de Milão, emitido pelo imperador romano Constantino, marca o fim das perseguições e inaugura a era da tolerância para com

o culto cristão, o dever de obediência às ordens do soberano (Prélot, 1973, Livro 2, p. 238-239).

9 “Pelo documento de 313 (Edito de Milão), a religião cristã torna-se legal, lícita, adquirindo finalmente o direito de existência, após

renhido e prolongado combate. O culto cristão passa a ter a mesma liberdade concedida aos demais. Restituem-se às Igrejas os lugares de culto que foram objeto de confisco e alienação, assim como outros arrestados. Cristãos e pagão são colocados em pé de igualdade” (Chevallier, 1982, p. 170).

religião oficial do Ocidente. Forma-se a Igreja Católica (universal) Apostólica (proveniente dos apóstolos) Romana. A partir de então, tem-se a unificação entre Igreja e Estado. Unifi- cam-se os poderes temporais e espirituais. Adotando as palavras de Prélot (1973, Livro 2, p. 274), “houve uma cristianização do império”.

Entra-se, assim, em um novo período da História. Chega-se ao fim do período clássico greco-romano e se inicia o período denominado de Idade Média.10 A mentalidade medieval, que perdurará por quase mil anos, será sustentada pelo teocentrismo (Deus como centro). A religião fará parte da totalidade da vida do homem europeu, incluindo o latim (língua oficial da Igreja), a música (gregoriana), até a arte (gótica). A visão do homem será marcada pelo dualismo: corpo e alma, céu e inferno, bem e mal.

Na política, o sonho foi sempre de realizar a “Cidade de Deus”. E o sacro-império, que tinha o imperador ungido pelo papa, proclamava bem alto esta intenção: realizar a idéia medieval de cristandade pela cooperação harmônica dos dois poderes supremos, o poder do império no temporal e o poder do papado no espiritual. Só mais tarde acontecerá a ruptura da unidade política e religiosa, finalizando o período medieval.