HUSK:
3. ANSVAR / MYNDIGHETER
Em Moçambique, os debates sobre arte contemporânea e, consequentemente, sobre estética são “acesos”. Têm como contendores os próprios artistas, divididos entre os da chamada “velha guarda”, os “puristas/tradicionalistas”, e os que se identificam como sendo os da “nova geração”. Por sua vez, esta geração pode ser subdividida entre o grupo que, se bem que heterogéneo, tem por comunalidade não ter tido oportunidade de formação (formal) específica em arte e um segundo grupo que teve acesso à formação formal (média) na Escola de Artes Visuais dentro do país ou mesmo em academias (superiores) fora do país (ex-RDA, Cuba, URSS, França e Portugal), mesmo que desse grupo façam parte outros que não correspondam aos critérios arrolados. Todavia, tipicamente, o critério, mesmo que oculto, é o primeiro, isto é, aquisição de habilidades e competências numa instituição formal de ensino.
Existe um grupo à parte constituído por diferentes artistas conglomerados em torno do chamado Movimento de Arte Contemporânea (MUVART). Este grupo possui manifesto formal escrito, no qual são especificados os objectivos e as actividades a serem levados a cabo do ponto de vista da estética e actividades afins. Voltaremos a este movimento no capítulo sobre a distopia e tentaremos traçar-lhe as suas características estruturantes, tal como faremos em relação aos outros grupos quando analisarmos as duas épocas em estudo. Contudo, ao analisarmos o conteúdo do manifesto do MUVART, confrontamo-nos com uma aporia sociologicamente interessante. A dado passo, o Manifesto especifica que a figura humana já não constitui necessariamente um elemento
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importante da exploração artística como aconteceu nos últimos séculos, embora a arte contemporânea seja essencialmente direccionada para que o Homem e os artistas se preocupem e assumam posição crítica face à sociedade.
Ora, o que as nossas evidências empíricas nos dizem é que, na segunda fase,1987-2016, a corporeidade ganha predominância modal. O corpo, particularmente o de mulher, emparceirando com a zoomorfização, é o traço marcante da iconografia das artes plásticas moçambicanas, de modo particularmente acentuado na segunda época, como veremos adiante.
No que tange as discussões sobre puristas e tradicionalistas, Costa (2005) diz-nos que"desde os anos 60 desenvolve-se uma crescente preocupação em relação ao abandono de certas tradições artísticas, à produção, à reprodução de modelos, à falta de estímulos".
O parágrafo anterior demonstra que a discussão, relativamente a tradições artísticas e modelos, é antiga. Como que a querer dar resposta a essa questão, com uma linha de orientação e objectivos expressos, foi criado o movimento artístico MUVART, cujo Manifesto assevera que “O movimento
de Arte Contemporânea ambiciona ser um meio activo de promoção da estética conhecida universalmente por “Arte Contemporânea”.
O mesmo documento acrescenta que pretende favorecer o seu (da Arte Contemporânea) desenvolvimento, realizando acções de intervenção prática e de reflexão sobre ela. O manifesto vai mais longe ao preconizar o incentivo e a promoção da participação dos artistas e dos criadores artísticos moçambicanos na arena internacional, "não como espelhos de uma África congelada dentro das suas tradições mas como testemunhos do mundo de hoje, a partir de riquezas humanas, singulares e contemporâneas”. (O sublinhado é nosso).
Como se pode depreender, os da “velha guarda” são acusados de continuarem agarrados às velhas formas, marcadamente figurativas, e a conteúdos do quotidiano tipicamente naturalistas e interventivos, no sentido de representarem esse mesmo quotidiano sem grandes abstracções, e de estarem muito arreigados aos tradicionais materiais e técnicas: esculturas em madeira (sândalo, pau-preto, jambirre); desenho a tinta-da-china ou lápis de carvão, pintura a óleo sobre tela e acrílico. Portanto, os da “velha guarda” são acusados de estarem arreigados a uma estética “purista, tradicional”. A propósito, o que seria uma estética “tradicional purista”?
Parte do grupo da nova guarda, que não teve acesso a formação formal sobre as técnicas que utiliza, constitui, mesmo assim, a ruptura com os chamados puristas- poderei considerá-los aquilo a que Kwame Appiah se refere como pertencendo ao paradigma neo-tradicional,“uma palavra
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De facto, o que Appiah nos diz, é que o neo-tradicional revela no conteúdo, entenda-se, o produto final e a ideografia que lhe está subjacente, reminescências de contacto entre o tradicional e o moderno (colonial) e que, portanto, é fruto da pós-colonialidade caracterizada pela sua cultura pós-moderna,
"Cultura em que operam todos os pós-modernismos, ora em sinergia, ora em competição, uma vez que a cultura contemporânea (...) é transnacional, global, embora isso não signifique, de maneira alguma, que seja a cultura de todas as pessoas do mundo" (idem:21).
O grupo dos que se intitulam Movimento de arte moderna (MUVART) são, no meu entender, o último anel do neo-tradicionalismo, com o condão de terem objectivos e actividades específicos, inscritos em manifesto, a saber:
1. Desenvolver actividades de carácter artístico no âmbito da estética “contemporânea” como um testemunho do mundo de hoje, fazendo de Moçambique um centro de criação artística que compete no panorama internacional.
2. Incentivar e promover a participação dos artistas e dos criadores artísticos moçambicanos na arena internacional não como espelhos de uma África congelada dentro das suas tradições, mas como testemunhos do mundo de hoje, a partir de riquezas humanas, singulares e contemporâneas.
3. Criar um movimento com capacidade crítica e de reflexão sobre os problemas sócio- culturais de Moçambique e que tenha um papel significativo na formação ideológica e cultural da sociedade.
As actividades a serem perseguidas com vista a alcançar esses objectivos são subdivididas em duas vocações de acção, a teórica e a prática:
1. A vocação teórica é a vocação responsável pela sensibilização do público e do artista por meio de uma reflexão crítica sobre diversos problemas sociais, culturais e artísticos em debates, conferências, pesquisas, publicações, etc.
2. A vocação prática deve garantir eventos artísticos, priorizando as tendências contemporâneas, tais como: instalação, land art, performance, arte pública, body art, etc. Para permitir um campo de pesquisa e de auto-avaliação,importa deixar claro que a prática das artes convencionais tais como: a pintura, o desenho, a escultura, a gravura, entre outras, embora não constituam uma prioridade de promoção e difusão na política do movimento da arte contemporânea, se encontram integradas desde que obedeçam a uma estratégia pertinente e crítica.
Concluímos que a posição do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique e o conteúdo do respectivo manifesto revelam a pretensão de uma posição contrária ao estado actual das artes em
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Moçambique no concernente aos estilos, estética, modalidades, usos de materiais e técnicas. No mínimo, o movimento está preocupado com a abordagem teórica e, consequentemente, com a acção artística. De facto, segundo o mesmo manifesto:A Arte Contemporânea é uma arte viva,
uma arte que engloba numerosas abordagens para além das tradicionais (pintura, escultura, gravura).
Deste pressuposto inferimos que,segundo o MUVART, a arte em Moçambique está pouco viva, se não moribunda, ou mesmo morta. Por outro lado, podemos deduzir do mesmo manifesto que a arte em Moçambique se tem ficado pelas tradicionais modalidades (pintura, escultura, gravura), daí a razão de ser do Movimento Arte Contemporânea de Moçambique.
De qualquer jeito, o denominador comum da discussão entre todos estes segmentos de artistas plásticos parece ser o conjunto de modelos a trilhar, os estilos, as técnicas, as tradições artísticas e os materiais usados nas obras de arte. Por conseguinte, o debate é entre os ditos puristas/tradicionalistas e os que se intitulam de inovadores. No fundo, a discussão é sobre estética e sobre a definição de arte ela própria.
Um último ponto que se nos afigura pertinente é a pretensão do MUVART chamar a si, por exclusividade, todo este debate e acção, o que nos parece ser falacioso, na medida em que a condição de neo-tradicionalidade é apanágio de todos os grupos de artistas, independentemente de possuírem ou não manifesto.
Em que ficamos?
Sendo uma actividade de representação, criação de sentido, produção da diferença, zona de contacto, história, lugar, ensino, as artes e o conceito de estética são, por isso, um campo de negociação da modernidade. No caso, modernidade africana. Podemos discutir o que isso é. Contudo, apraz-nosdizer que é uma coisa que deve ter em conta a condição histórica, isto é, um tempo e um espaço africanos negociados, mesmo que manu militari, como o foi o movimento de libertação nacional.
Do ponto de vista das artes plásticas, entendemos essa modernidade como sendo a materialização da contemporaneidade negociada através de plasticidades que emanam de contextos diferentes da quotidianidade dos povos. Relativamente aos moçambicanos, cuja história é um permanente renascimento, fruto das adversidades históricas a que foram sujeitos, essa contemporaneidade está ancorada nas consequentes mutações e no uso milenar de materiais e consequente noção de estética e de arte.
Através da acção dos artistas plásticos moçambicanos, a modernidade plástica é fruto dessa adversidade discursiva e factual que resulta nessa bricolage milenar, que não é necessariamente
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induzida, mas fruto do próprio contacto cultural. Ela existe de per si, da mesma maneira que os moçambicanos usam uma gravata ou crêem nos artifícios herbais-mágico-religiosos, a despeito do ridículo que representa, no nosso entender, o uso da gravata num clima tropical como o moçambicano.
Parece ficar patente que as discussões, embora em torno dos termos arte/ contemporânea e consequente estética, vão para além do que elas espelham quando escritas ou ditas. Na verdade, elas representam uma agenda escondida (hidden agenda). Elas significam voltar às reminiscências do empreendimento colonial e, consequentemente, ao seu carácter despersonificador e desqualificador. Olhar para as terminologias arte e estética em África significa estar atento à perspectiva dos estudos pós-coloniais que não só nos ajudarão a discutir os efeitos do contacto Norte-Sul, entendido como países ditos desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, respectivamente, como também propicia a reinterpretação da discursividade hegemónica e dominante do Norte, particularmente no campo das artes plásticas moçambicanas/africanas. Quando, por exemplo, é referida a obsolescência do corpo humano por oposição a uma atitude crítica, será que a atitude crítica não pode ser assumida por via do corpo, este santuário das nossas relações sociais?
A corporeidade encerra em si relações sociais. Tal é o preceito básico da sociologia do corpo: A corporeidade humana é um fenómeno social e cultural, motivo simbólico, objecto de representações e imaginários, tal como afirma Le Breton (2006:7). As evidências mostram-nos que o corpo é um dos objectos predilectos da iconografia moçambicana, de um modo particular de 1987 aos dias que correm.
Toda esta discussão sobre a contemporaneidade significa, de facto, darmos conta da construção do momento moçambicano. É, na verdade, a tentativa de captar as dinâmicas das artes em Moçambique. No prefácio ao livro “A (IM) possibilidade do Momento Moçambicano, Notas Estéticas", (2016), da autoria de Ngoenha, escrevi que
"Se houve um momento grego, um francês e um alemão, este último caracterizado pelos horrores das guerras e suas consequências nefastas, o momento moçambicano é construído por todos esses momentos e algumas especificidades contextuais. Assim, por analogia, podemos divisar a linha da primazia dos filósofos, advogada por Platão na Grécia, (no caso moçambicano dos filósofos do sistema político); No caso francês a liberdade,(revolução francesa) o existencialismo (Sartre), a desconstrução (Derrida), o rizoma de Deleuze, entendido como rede (alternativa às estruturas) o que permite a acção (agency) dos actores sociais. Contudo, nem por isso cada um destes momentos deixa de sofrer contaminações recíprocas".
Cremos que o mesmo se passa com o momento moçambicano. Se os horrores enquadram e definem o boom do expressionismo alemão, este, por seu turno, que enquadra e está na definição do momento alemão, então cremos que se passa algo análogo em Moçambique. Os horrores das guerras
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por que Moçambique passou, a violência física, simbólica, verbal, febre de rinoceronte, linchamentos15,que estruturam o quotidiano dos moçambicanos; a inflação, a filosofia dos mega-
projectos, cujas mais-valias não se fazem sentir na melhoria da condição de vida dos moçambicanos, determinam e definem o momento moçambicano, a contemporaneidade das artes plásticas moçambicanas. Daqui a perspectiva bonito-feio-horrorosa das artes plásticas moçambicanas. Como o foi na Alemanha. E como o retratam os nossos artistas nas diferentes modalidades. A efabulação e a zoomorfização são a moda que pode explicar esse momento em qualquer uma das modalidades artísticas. O que parece ser uma marca recorrente deste momento, o contemporâneo moçambicano.