3 Lévinas and Derrida – Irreducible Relations and Open Roads
3.3 Another Conclusion – Attacking Good Conscience
A etnografia da fala foi utilizada como procedimento de coleta e análise dos dados deste estudo tendo em vista três fatores principais, quais sejam: (a) o interesse em compreender a singularidade das salas de aula de modo local e contextualmente situado; (b) a necessidade de compreender porque as professoras agiam da maneira como agiam e com percebiam suas ações; (c) o interesse em entender como as professoras re- significavam suas práticas docentes e as modificavam; (d) a natureza dos dados coletados, cuja principal matéria prima era a linguagem oral.
Assim sendo, é importante lembrar que a etnografia da fala surgiu quando Dell Hymes (1972) cunhou o termo competência comunicativa para demonstrar o uso pragmático da língua em contextos social e culturalmente definidos. Isso significava, para o autor, que os propósitos sociais, os estilos de falar, os atos de fala e os eventos discursivos são elementos de conteúdo êmico, ou seja, próprios do falante, a serem descritos pelo analista do discurso. Ao mesmo tempo, de acordo com Dell Hymes (1972), eles são, também, conteúdos éticos (etic), isto é, devem ser categorizados e analisados pelo etnógrafo, sem a colaboração do informante.
Neste trabalho, no entanto, procurei discutir as bases em que Dell Hymes erigiu a distinção metodológica entre procedimentos êmicos e éticos (etic) de pesquisa. Ocorre que, na pós-modernidade, há um rompimento com as visões dicotômicas do fazer científico (Capra 1982, Santos 1986). Desse modo, proponho que os dois paradigmas sejam vistos não como extremos opostos, mas como eixos integradores do fazer etnográfico. Assim, a distinção entre os dois modelos passa a ser, então, demarcada por linhas pontilhadas, que permitem a comunicação entre eles, dentro do desenho maior da pesquisa. Isso porque uma visão puramente êmica ou ética (etic) dos dados coletados não era desejável e nem viável nesta pesquisa. Por isso, a perspectiva das participantes foi primeiramente compreendida, descrita e, depois, re-interpretada pela pesquisadora. Nessa tarefa, diferentemente do que advogava Dell Hymes, houve a aproximação das participantes, que tiveram acesso à análise preliminar dos dados, discutindo-a com a pesquisadora nas sessões colaborativas (c.f. 3.5.4, a seguir)
O trabalho de interpretação imprimiu aos dados coletados, portanto, a subjetividade da pesquisadora. Não foi, pois, um trabalho neutro e nem tão pouco de
mão-única. Assim, a despeito da abordagem inicialmente êmica do estudo, ao categorizar e analisar dados, a pesquisadora estava, na verdade, realizando um trabalho de conteúdo ético (etic). Tendo em vista essa perspectiva integradora e, principalmente, para conferir às participantes um papel mais ativo na pesquisa, bem como considerar seus pontos de vista, ao ler a análise preliminar dos dados as professoras modificaram, por vezes, hipóteses inicialmente levantadas pela pesquisadora sobre seu significado.
Por outro lado, houve limites para a aproximação e a colaboração das professoras nessa tarefa, que só ocorreu na fase preliminar de análise, não se estendendo até a elaboração do texto final. Isso porque, entre outros fatores, além de solitária, a escrita acadêmica exige formação específica e este não era o foco central do trabalho naquele momento.
De todo modo, o conceito de evento comunicativo de Dell Hymes (1972: 29) “(...) uma perspectiva, uma metáfora, com base na qual a experiência se torna inteligével”12 guiou este estudo porque enseja a distinção entre informação e mensagem (comunicação). A informação só se transforma em mensagem (ou comunicação) na presença de um observador ou intérprete. Para isso, ele tem que ser capaz de compreender os aspectos simbólicos inerentes à cultura de uma dada comunidade de fala, ou seja, deve compreender seus modos de agir e de usar a linguagem. Por isso, neste estudo, o fato da pesquisadora ser também professora pode ter conferido mais confiabilidade à análise dos eventos comunicativos aqui observados, quais sejam, a sala
de aula das professoras participantes, a sala de aula do EDUCONLE e as sessões colaborativas.
Além disso, o foco da etnografia da fala são as comunidades organizadas como sistemas de eventos de comunicação. Assim, para investigar se há um sistema, na comunidade ou no evento em particular, é necessário observar a limitação de alternativas para combinações entre seus elementos constitutivos. Desse modo, não são possíveis muitas combinações diferentes entre participantes, canais, códigos e tópicos. É precisamente essa regularidade que constitui e delimita os eventos comunicativos das comunidades de fala em geral. Participar deles, como professora e pesquisadora, foi uma preocupação neste estudo, que objetivava reconhecer as particularidades dos eventos comunicativos aqui pesquisados e seus modos de significação.
A etnografia da fala também assinala que os usos da linguagem estão embutidos em contextos sociais e culturais específicos, daí que, num estudo de caráter etnográfico como este, a observação participante foi elemento importante, uma vez que se procurou observar a comunidade em foco e participar, o mais possível, das atividades sociais desenvolvidas. Desse modo, o parte-se do princípio de que o entendimento mútuo entre os falantes não depende somente de ambos dominarem a estrutura gramatical dos enunciados, os sentidos comuns, mas também de dominarem modos comuns de usar e interpretar a fala. Assim, os falantes podem conhecer o mesmo léxico, a mesma sintaxe, por exemplo, mas podem não conhecer as mesmas regras para interpretar um enunciado. É por isso que o uso que uma pessoa faz de um determinado modo de fala em uma dada situação oferece pistas de como ela deseja que sua fala seja interpretada. Esses preceitos foram importantes para interpretar a fala das participantes do estudo e seus modos de significar.