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3.1 Beach morphology and profile measurements

3.1.4 Annual beach profile change

Até o momento, a tentativa foi de conhecer melhor o jovem das periferias urbanas, tomando como parâmetro as relações que ele estabelece, entre outras dimensões, com o trabalho, a escola e as manifestações culturais. Mas, e em relação à TV, objeto deste estudo? O que se pode dizer sobre a relação do jovem pobre com esse meio de comunicação?

Conforme fazem notar Melo e Tosta (2008, p. 78), dentre os grandes veículos de comunicação, a televisão é um meio que monopoliza a atenção porque aguça diferentes sentidos: “Sua vantagem reside no apelo multisensorial (combinando visão e audição e despertando o tato e o olfato pelos efeitos da imagem em movimento)”. Essa conjunção de apelos cria uma grande empatia com o público jovem, seduzido pelas narrativas e imagens, suas sonoridades, fragmentações e velocidades (MARTÍN-BARBERO, 2003).

Uma pesquisa realizada pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para Infância)28

Mas, além desse fascínio que a TV desperta na juventude, o que mais se pode apontar sobre a relação do jovem, especialmente o morador de periferia, com a TV? Como se sabe, para a grande maioria dos jovens de camadas populares, a televisão é a principal fonte de lazer e informação. Focando nas questões que norteiam esta pesquisa, como o jovem de periferia lida com o que vê na TV e como esse meio representa o jovem pobre? Para entender essa relação, pode-se tomar de empréstimo algumas reflexões de Fischer, que questiona: com adolescentes brasileiros, em 2002, indica que, na faixa de 12 a 17 anos, o tempo médio dedicado diariamente por esse público à TV é de 3h55min. Esse número sofre uma variação da camada mais favorecida para a menos. Enquanto os adolescentes da camada alta assistem a uma média de 3h04min de televisão, os mais pobres passam cerca de 4h09min diante do aparelho por dia.

Na ordem do simbólico televisivo, de que modo um grupo como os sem- terra é nomeado? E as adolescentes de periferia? E os jovens drogados? E a mulher dona de casa? E os portadores de alguma de alguma deficiência? E a professora do sertão nordestino? Em que medida todos esses diferentes são tratados como diferença a ser excluída ou normalizada; ou então, numa outra

28 A pesquisa A voz dos adolescentes foi realizada com 5.280 adolescentes entre 12 e 17 anos de todo o Brasil.

Do total de entrevistados, 51% eram do sexo masculino e 49% do sexo feminino. Foi feita uma pesquisa quantitativa, com aplicação de questionários estruturados, e uma qualitativa, por meio de grupo focal. Os dados estão disponíveis em: <http://www.unicef.org/brazil/pt/vozdosadolescentes02.pdf>.

perspectiva: em que medida esses ‘outros’ ganham visibilidade a ser reconhecida socialmente? (FISCHER, 2006, p. 42).

Segunda a autora, as imagens televisivas tenderiam a criar determinadas “verdades”, gerariam certos conceitos que se tornam universais. Ela propõe um trabalho investigativo dessas imagens no sentido de “[...] desnaturalizar aquilo que já se tornou corriqueiro, senso comum (professor ‘é assim’, ‘criança gosta disso’, adolescentes ‘precisam daquilo’ ou ‘agem sempre assim’) [...]” (FISCHER, 2006, p. 43).

Nos debates com os jovens de camadas pobres, a grande queixa em relação à TV é que muitas “verdades” veiculadas reforçariam os estigmas contra o jovem pobre. Os estudos de Erving Goffman ajudam a compreender a origem dessas depreciações, muitas vezes reforçadas pela TV. Para o autor, “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias” (GOFFMAN, 1982, p. 12). Quando se está diante de um estranho, faz-se uma previsão de sua categoria e seus atributos, o que Goffman chama de “identidade social”. O estigma surge quando esse estranho tem um atributo diferente de outros, “assim, deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída” (GOFFMAN, 1982, p. 12).

A propagação desses estigmas, como explicam alguns estudiosos, tornaria tensa a formação identitária da juventude. Conforme nota Sposito (1996), apoiando-se em Melucci (1992), a juventude é uma fase em

que se gesta um vir-a-ser, é, ao mesmo tempo, uma construção do presente, enquanto superação da infância, e em saída da infância. A busca da idade adulta remete para o jovem, quer individualmente ou em grupo, a questão do autorreconhecimento e de ser reconhecido. Assim, a identidade, individual ou coletiva, sempre pressupõe a dimensão da alteridade, ao ser uma categoria social e relacional [...] Ela se constrói a partir de experiências comuns que se defrontam e confrontam (SPOSITO, 1996, p. 98-99).

A identidade da juventude se firma, então, nessas experiências relacionais a que se refere Sposito, no contato com o outro, que pode ser alguém do seu grupo primário, familiar, ou de grupos coletivos, como as turmas de amigos, por exemplo. Para o pensador Charles Taylor, o reconhecimento ajuda a moldar a identidade, mas esse pode se tornar um processo

tenso, uma vez que depende do quadro que a sociedade apresenta ao indivíduo. Um reconhecimento equivocado por parte de uma pessoa ou de um grupo ou o não reconhecimento podem “[...] afectar negativamente, podem ser uma forma de agressão, reduzindo a pessoa a uma maneira de ser falsa, distorcida, que a restringe” (TAYLOR, 1998, p. 45). O jovem pobre, que “tende a ser visto na perspectiva da falta, da incompletude, da irresponsabilidade, da desconfiança” (DAYRELL, 2007, p. 12) vive um embate, tendo que lutar recorrentemente contra a invisibilidade ou o reconhecimento equivocado ou o estigma.29

A publicação Remoto Controle... (2004), coordenada pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) e pelo UNICEF, e organizada por Veet Vivarta, discutiu alguns programas30 de televisão voltados para o público jovem e ouviu vários especialistas sobre a juventude e a TV. Ao debater a imagem do jovem que predomina na mídia,Vivarta cita a psicóloga Márcia Mareuse, que afirma que os meios de comunicação potencializariam as imagens distorcidas da juventude de periferia, reforçando modos de vida regidos pelo consumo, bem distantes dos vivenciados pelo jovem pobre:

Não se reconhecendo dentro dos padrões, ele constrói uma percepção negativa de si. A busca por uma aproximação com os modelos presentes na mídia transforma-se em objeto de desejo, por seu valor estético ou de consumo, podendo gerar frustração e revolta e desencadear desajustes de naturezas diversas (MAREUSE apud VIVARTA, 2004, p. 45).

Além de estar à margem do modelo idealizado pela mídia, a juventude de periferia é estigmatizada por ser recorrentemente associada à criminalidade, a uma “classe perigosa”, nas palavras de Dayrell (2007, p. 12). Para o professor Paulo Carrano, da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do universo juvenil, a mídia, de uma maneira geral, pelo menos até os anos 2000, associava o jovem à violência. E a associação ficou ainda mais evidenciada com episódios como o assassinato de menores por policiais militares na Chacina da Candelária, em 1993; as rebeliões das antigas FEBEM’s, os centros de reabilitação de

29 Há que se lembrar que em muitas situações o jovem quer ser reconhecido com um jovem “comum”, cobrando

uma igualdade de direitos; em outras, quer ser identificado por aquilo que o distingue, tentando afirmar sua diferença.

30 Foram analisados dez programas que estavam em exibição em 2003: Altas Horas (TV Globo), Atitute.com

(TVE), Buzzina MTV (MTV), Fazendo Escola (TV Cultura), Interligado Games (Rede TV!), Intimação (Rede

Vida), Malhação (TV Globo), Meninas Veneno (MTV), Sexualidade, Prazer em Conhecer (Canal Futura) e Sobcontrole (Band).

menores infratores; e o assassinato do índio Galdino por jovens de camadas médias de Brasília, em 1997.

Segundo Carrano, as imagens da violência pautavam o debate sobre a juventude no Brasil. Os profissionais da mídia indagavam a ele e a outros estudiosos: “Você não estuda juventude? Se você estuda juventude, você estuda a violência” (CARRANO, 2008).31

Percebe-se que o debate sobre juventude/violência vem sendo substituído por juventude/protagonismo, mas, na prática, nem sempre o jovem é considerado por aquilo que o termo sugere: como um “agente transformador”. A expressão, utilizada por agentes públicos e ONG’s, em tese, consiste em considerar o jovem de meios populares como protagonista, o personagem central de um projeto. Nos trabalhos e ações públicas voltadas para a juventude, ele atuaria em sua comunidade de maneira ativa e autônoma. Na prática, porém, muitos projetos não conseguem esse objetivo porque possibilitam “[...] aos jovens poucas oportunidades do exercício da escolha, da tomada de decisões, elementos fundantes da autonomia” (DAYRELL; REIS, 2007, p. 12).

O professor alerta que esse foco na violência encobria outras iniciativas da juventude, como a produção cultural. Ainda segundo Carrano, a situação só começou a mudar nos anos 2000, quando a discussão se deslocou para o “protagonismo juvenil”.