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As expressões “estilo jesuítico” e, por extensão, “barroco jesuítico” foram muito empregadas por diversos autores estudiosos do assunto, suscitando inúmeras controvérsias.

Ao longo da história do Brasil, as construções arquitetônicas de autoria dos inacianos sempre primaram por certo padrão, o que lhes conferia autenticidade e, num primeiro momento, autonomia estilística. Mesmo assim, vale acrescentar que, a despeito de certa regularidade no padrão existente das construções, os inacianos, diante das realidades locais reveladas e dadas as diferenças de cada ambiente, adaptavam suas edificações, de modo que elas pudessem, em alguma medida, corresponder às necessidades encontradas. Nas palavras de Gomes,

sobre o estilo jesuítico, o termo muitas vezes foi simples acomodação, por ser usado para tratar de iniciativas dos inacianos, mas já se percebeu que o que é adjetivado como tal foi praticado em construções de outras ordens religiosas, e que os próprios jesuítas variavam de estilo conforme a época e o lugar em que se estabeleceram (2011, p. 100).

Por outro lado, segundo Colombo, o fato de os jesuítas apresentarem uma preocupação constante com o elemento educacional os impulsionava na criação de ambientes específicos que pudessem dar conta do trabalho catequético- educacional por eles proposto. Por este viés, os inacianos

foram os pioneiros na introdução do que poderíamos creditar como estilo artístico; possuíam gosto pelos ambientes requintados, preocupavam-se com a função pedagógica, fundando colégios, e eram carregados de espírito missionário, procurando envolver seus fiéis não somente por meio de palavras, mas também pelo caminho das imagens (2001, p. 149).

Tendo em vista que o cenário das igrejas barrocas buscou valorizar mais elementos internos do que externos ao templo, seria natural encontrar nas igrejas da Companhia essa mesma preocupação: externamente, os templos revelavam uma linearidade singularmente austera, ao passo que internamente revelavam uma beleza impactante para o espectador.

A arquitetura jesuítica, foi herdeira de elementos do “estilo maneirista” que, em vigência na Europa desde o século XVI, contrariamente ao estilo Renascentista,

repudiava os elementos “clássicos”, buscando imprimir, por meio de seus artistas, um caráter mais austero às suas produções, o que incluiu os templos religiosos. Nas palavras de Bury,

os arquitetos do Renascimento visavam estabelecer uma correlação entre as proporções familiares e satisfatórias do corpo humano e os prédios, cujas plantas e proporções espaciais eram baseados nas figuras geométricas regulares mais

simples […]. Em contraste, os objetivos do Barroco eram emocionais e os

resultados, dramáticos, turbulentos, hipnóticos, buscando atingir a ilusão do

ilimitado […]. Os dois estilos, apesar de seu óbvio contraste, compartilham de uma

qualidade comum: não são ambíguos. A arquitetura do Maneirismo, por outro lado, é cheia de temas ambivalentes e funções duplas. O mesmo edifício é um palácio e

um monastério […]. Os arquitetos do Humanismo adotaram os templos da

Antiguidade Clássica como modelos para seus projetos de igrejas, fazendo apenas as modificações ditadas pelas necessidades litúrgicas, enquanto São Carlos Borromeu, em 1582, apenas admitiu o uso das ordens clássicas em função de sua resistência estrutural. Os maneiristas, entretanto […], estavam determinados a expurgar dessas formas o espírito legado em suas origens (2006, p. 67).

Percebe-se que os arquitetos maneiristas primavam por uma igreja cuja aparência revelasse, em alguma medida, um caráter “ortodoxo”. Nota-se, pelas palavras de Bury, que havia uma preocupação com os espaços litúrgicos, e daí a necessidade de preservá-los enquanto tal, despojando-os de quaisquer elementos pagãos, típicos do Renascimento.

Os templos da Companhia, carregados de um rigor moral, internamente configuravam-se como espaços regulamentadores de uma mensagem sacralizada, disponível a toda a comunidade local e não somente a um grupo seleto de intelectuais e filósofos, como ocorrera no Renascimento.

Esse caráter mais sacro, assumido pelos templos maneiristas, influenciou a construção das igrejas jesuíticas, cujos elementos barrocos, fortemente presentes, revelaram sua força nesse período, mostrando certa “autonomia estilística”.

Contudo, não pretendemos dizer que o Barroco encontrado nos templos inacianos tenha sido puro e, com isso, justificar a existência de um “estilo jesuítico”.

No entanto, mesmo por conta das matrizes estilísticas herdadas, esse Barroco produzido na América, como um todo, assumiu um novo caráter enquanto arte local que obteve, ao longo do tempo, maturidade de estilo e uma feição muito própria.

Como se pode notar, a expressão “estilo jesuítico” é complexa e, sob alguns aspectos, dicotômica, ainda encontrando grande dissonância de opiniões entre especialistas no assunto. Bury propõe que, na intenção de evitar confusões de interpretação acerca do uso da expressão, seria adequado que se fizesse uso da expressão “estilo da Contrarreforma”, dado o momento histórico em questão e que, na visão do autor, encontraria uma maior ressonância internacional.

As igrejas jesuíticas buscaram agregar todos esses elementos, incluindo não somente suas igrejas de maior porte, mas também as igrejas construídas nos aldeamentos, até porque os jesuítas foram legítimos representantes de Roma no tocante às missões e obedeciam fielmente às prerrogativas papais.

Representantes das “missões” de além-mar, os inacianos lançaram-se à dura jornada de catequização dos povos conquistados, primando por uma educação regular e religiosa de qualidade, que conferisse sustentação ao trabalho que lhes fora designado. Os templos religiosos por eles erguidos se revelaram como polos disseminadores da mensagem cristã, notadamente nos aldeamentos, onde nativos e colonos agregavam-se, participando ativamente das festas litúrgicas e de outras atividades igualmente importantes.

A Igreja Nossa Senhora do Rosário em Embu constituiu um destes polos irradiadores da fé católica em São Paulo. Na medida em que se deu o convívio direto entre os nativos guaranis e os padres jesuítas, esse “espaço”, por assim dizer, “testemunhou” uma intensa atividade catequética, ao mesmo tempo em que foi palco de muitas mediações culturais que se processaram por meio do entrelaçamento dessas culturas muito distintas e singularmente importantes para a formação do etos cultural brasileiro.

A força do Barroco nos aldeamentos, sob a supervisão inaciana, foi notória. Nesse processo esteve incluído o M’Boy, depois chamado de Embu, no qual se encontra a Igreja do Rosário, devoção local muito respeitada pelos colonos e jesuítas (provavelmente responsáveis pela chegada da devoção sediada nas terras

de Catarina Camacha) e sobretudo pelos guaranis, que absorveram e incorporaram a devoção a Senhora em suas práticas cotidianas. As dimensões do alcance dessa fé no aldeamento e seus desdobramentos no universo da crença guarani, bem como a origem e o histórico dessa devoção, serão analisados criteriosamente no próximo capítulo.

Conclusão

Podemos concluir que o Barroco, principalmente no tocante às produções sacras representadas no interior das igrejas atou como um elemento aglutinador de crenças, costumes e ideias que, transcendendo os limites do tempo e do espaço, ainda figuram na galeria de uma história que, na pretensão de convencer, encantou, e, no intuito de educar, convenceu, e em muitos casos, converteu, imprimindo sua marca na memória daqueles que, por caminhos diretos ou indiretos, absorveram sua essência, seu significado. A beleza do Barroco, se, em alguns momentos, não convenceu encantando, certamente encantou ensinando uma fé que, muito acima das expectativas humanas, revelou a força de Seu criador e, portanto, sua razão de existir. No ambiente da Igreja do Rosário, foi possível encontrar este misto de encanto e ensinamento que, imbricados, produziram a sustentação da mensagem da cruz, tão necessária aos habitantes do aldeamento.

C

APÍTULO

III

I

GREJA

N

OSSA

S

ENHORA DO

R

OSÁRIO

:

DEVOÇÃO E IMAGINÁRIA

Introdução

A Igreja Nossa Senhora do Rosário, localizada no Município de Embu das Artes, São Paulo, é “dona” de um dos conjuntos barrocos mais singulares do Estado de São Paulo. Os elementos que compõem seu belíssimo conjunto são portadores de uma carga simbólica significativa, própria ao período em estudo.

Este capítulo se propõe a analisar a Igreja do Rosário a partir do contexto histórico de chegada da devoção à América, e, por meio dos jesuítas, ao aldeamento de Embu, enfatizando a atuação da Companhia de Jesus no local, bem como a arte sacra barroca presente no templo como um todo (o que compreende a nave central e a sacristia). O intuito é trazer luz à relação entre a arte e a educação jesuíta, em profunda interlocução nesse templo. O mote do capítulo também será avaliar a intensidade com que os inacianos fizeram uso desse espaço e dos “elementos sacralizados” a ele relacionados, a fim de promover a catequese local.