Parece com tudo, que todos estes merecimentos naõ seriaõ bastantes para tanto premio, se naõ tivesse a fortuna de ser patria do P. Belchior de Pontes, o qual com tanto espírito soube conquistar o Ceo, no mesmo tempo, em que seus patricios tanto se empenhavaõ em conquistar a terra, que com razaõ se póde afirmar que seus merecimentos naõ somente o faziaõ merecedor da gloria, para onde caminhava a
22 M’Boy era um aldeamento particular que permaneceu sob a tutela inaciana até fins do
séc. XVI. No entanto, no início do século XVII, por conta da União Ibérica, entre Portugal e Espanha, novas normas foram estabelecidas para os aldeamentos (Palacin, 1986, p. 32).
passos largos, mas tambem das honras, que com tanta liberalidade foraõ concedidas à sua patria (Fonseca, Vida do P. Belchior de Pontes Da Companhia de JESU).
Filho de Pedro Nunes de Pontes e Ignes Domingues Ribeira, Belchior de Pontes nasceu em 6 de novembro de 1644, em um sítio localizado junto às margens de um pequeno rio, de nome Pirajuçara.
Seus pais, embora de origem humilde, constituíram uma família de quinze filhos, incluindo o nosso Belchior. Em que pese o grande número de filhos, nem por isso Pedro e Ignez deixaram de se preocupar com a formação de todos. Nas palavras de Manoel da Fonseca, Ignes Domingues e Pedro Nunes “eraõ faltos de bens da fortuna, e de poucos cabedaes, mas taõ ricos de graças, que parece apostava o Ceo a enriquecê-los, fazendo-os naõ somente depositarios de huma vida exemplar, e Christãa, mas ainda progenitores de uma numerosa descendencia” (1752, p. 42). Estes filhos, segundo a ordem de seu nascimento, foram: Ignacio de Pontes, João de Pontes, Catharina de Pontes, Salvador de Pontes, Belchior de
Pontes, Manoel de Pontes, Ignes Domingues, Antonio Domingues de Pontes,
Marianna de Pontes, Anna de Pontes, Joseph Domingues de Pontes, João de Pontes Domingues, que também se tornou padre, Sebastiana de Pontes, Maria Domingues de Pontes e, por fim, Innocencio de Pontes, que morreu precocemente.
Desde cedo, Belchior e seus irmãos foram criados num clima de muita fé e devoção a Deus, com uma devoção especial a Nossa Senhora, a quem recorreram quando Ignes adoeceu. Conta-nos o mesmo Manoel da Fonseca que, ao completar seus sete anos de idade, Belchior de Pontes pediu a seu pai que o levasse à vila, com o intuito de buscar um médico para sua mãe, a fim de que ela viesse a recobrar a saúde, ao que prontamente atendeu seu pai.
A caminho da vila, Belchior novamente pediu ao pai para que ambos entrassem na aldeia criada por José de Anchieta, a aldeia dos Pinheiros, pois o menino desejava prestar reverência a Nossa Senhora de Monserrate, padroeira do local, a quem intentava pedir uma graça de cura para sua mãe, que se encontrava enferma. Assim, passaram Belchior e seu pai primeiramente pela aldeia e, logo após, seguiram para a vila, a fim de encontrar um médico.
Prossegue Manoel da Fonseca em sua narrativa, contando-nos que, ao chegarem à Pirajuçara, Belchior e seu pai, juntamente com o médico, encontraram Dona Ignes curada. Manifestava-se, assim, o primeiro milagre por intermédio daquele que viria a se tornar um sacerdote da Companhia.
Fora Belchior de Pontes o responsável pela mudança da Igreja do Rosário (ao que tudo indica, por volta de 1698), de sua antiga localidade, para o Embu atual, preocupado e envolvido que esteve com a causa indígena. Nas palavras de Arroyo, “o padre Belchior de Pontes deve ter entrado em contato com o gentio de Embu nesse período de decadência. Assim se explica a preocupação que teve em mudar a aldeia para garantir a estabilidade do grupo indígena” (1954, p. 134). Esse período de decadência ao qual o autor se refere corresponde aos anos finais do século XVII, um período difícil pelo qual passava a aldeia, não somente ligado a fatores de ordem administrativa, mas também a fatores da geografia local que estavam influenciando na produção agrícola, o que provocou grande instabilidade da comunidade indígena que habitava a região.
Em relação à entrada de Belchior de Pontes (Fonseca, 1752, p. 44) para a Companhia de Jesus, ela não se deu da noite para o dia. Tendo sua educação sido entregue aos padres, encontrou Belchior resposta ao que viria a ser o seu apostolado futuro. Segundo Fonseca, “cuidando em lhe dar mestres, que com as letras lhe ensinassem a virtude […], julgaraõ que só na direcçaõ dos Padres da Companhia de JESU, que na Villa de S. Paulo tinhaõ escólas ficavaõ inteiramente satisfeitos os seus desejos” (1752, p. 44).
Assim, estudou Belchior nos colégios dos jesuítas em São Paulo e, somente em 25 de junho de 1670, na cidade de Salvador, na Bahia, foi aceito pela Companhia. Iniciou seu trabalho percorrendo diversas aldeias, por elas disseminando o Evangelho, bem como realizando curas (pois era visto como “Médico de Almas”) e aconselhamentos diversos. De acordo com Martins,
a primeira aldeia que visitou como missionário, após sua chegada da Bahia, foi a de Carapicuíba, depois a de Guarulhos. Foi pároco das aldeias de Carapicuíba e Itapecerica, entre as quais ficava a fazenda de M’Boy, onde fixou residência. A
localização entre as aldeias permitia atender aos chamados de moradores de ambos os povoados e arredores (2007, p. 63).
Uma vez residente em M’Boy, seria natural que boa parte de seus esforços aí se concentrassem. Na aldeia, empenhou-se na catequese dos nativos e na preservação da Igreja do Rosário, em torno da qual se desenvolveram as atividades sociais e religiosas da aldeia.
Após a trasladação da Igreja, permaneceu Belchior de Pontes por mais alguns anos na aldeia, vindo a falecer em 22 de setembro de 1719, tendo vivido na Companhia por quarenta e nove anos e quase três meses.