5 Avbøtende tiltak
5.2 Andre mulige tiltak
Consideremos como as ancoragens teóricas ecoam no nosso estudo.
Comecemos salientando como os axiomas de Palo Alto se repercutem em algumas vertentes do nosso estudo.
A abrangência que o primeiro axioma confere à comunicação permite que, nesta ampla geografia da interação comunicativa, possamos delimitar o discurso como forma de interação verbal. Ainda assim, no universo das interacções verbais plasmadas em discurso, o nosso interesse específico recai nos discursos plasmados numa lição magistral e numa conferência retirada da plataforma TedTalk.
O segundo axioma de Palo Alto ecoa, no nosso estudo do discurso, na bi-direcionalidade em que moldámos a nossa investigação empírica: uma vertente orientada para o conteúdo e outra para a relação.
O terceiro axioma é decifrável no nosso estudo, na forma como os participantes na interação pontuam as suas intervenções, com a preocupação em manterem o equilíbrio interacional, preservando a própria “face” e as “faces” dos destinatários.
O quarto axioma também repercute visivelmente no nosso estudo. Embora a nossa investigação empírica esteja direccionada para a substância digital, não deixamos de considerar algumas formas responsivas que são expressas em formato analógico: silêncios, risos e aplausos.
O quinto axioma repercute também no nosso estudo de forma estruturante. As noções de simetria e complementaridade permitiram-nos estudar os nossos discursos na perspectiva da posição interacional ocupada pelos participantes. Por outro lado este axioma permitiu que nos tornássemos tributários de propostas recentes (Kerbrat-Orecchioni) que exploram esta faceta discursiva, com os conceitos de relacionemas, horizontal ou vertical.
Continuemos, salientando como o dialogismo bakhtiniano ecoa no nosso estudo.
O postulado de Bakhhtin de que todo o discurso está orientado para algum tipo de destinatário, de quem se espera uma compreensão responsiva activa, está subjacente ao nosso interesse em rastrear, no nosso material discursivo-textual, a orientação interna (nível da intervenção) e externa (nível da forma externa do discurso) da enunciação interlocutiva do locutor para os seus alocutários. Transportámos para o nosso estudo, as ideias de Bakhtin sobre a orientação inevitável de qualquer discurso para um destinatário e sobre a compreensão responsiva activa do destinatário. É com as ferramentas conceptuais oferecidas pelo Modelo Genebrino1 (Roulet, 1985, pp. 1-2) que exploramos estas ideias:
O conceito de completude monológica, com que se regista o esforço do locutor na formulação das suas intervenções, de forma a obter, por parte do alocutário, uma resposta activa de aceitação da sua suficiência mediacional para conduzir à compreensão.
A completude dialógica ou interacional que regista as concordâncias de locutor e alocutário sobre o processo de co-construção e negociação do sentido, desenvolvido ao longo do intercâmbio.
O recurso à diafonia como forma ventriloquista utilizada pelo locutor para inserir na sua enunciação, a voz do destinatário.
A concepção triádica de “intercâmbio”.
Vejamos agora como algumas das formulações de Goffman ecoam no nosso estudo.
A voz de Goffman, no nosso estudo, está basicamente confinada á sua posição de que a interação presencial2 (“face to face”) está submetida a dois tipos de coerções ou
constrangimentos, as “system contraints” e as “ritual constraints” (Goffman, 1981). Roulet, 1985, p. 11), faz-lhes corresponder as designações de “contraintes communicatives”, para as primeiras, e “contraintes rituelles”3 para as segundas. Roulet (ibidem) aponta duas marcas
que as coerções comunicativas deixam ao nível da estrutura do discurso. Uma, de natureza interacional, logo respeitante á vertente do discurso como promotor de relação interpessoal,
1 Roulet inclui nas fontes do seu modelo ecléctico a corrente bakhtiniana que vê o discurso como
interação verbal.
2 Na actualidade têm-se reconhecido que as formulações que Goffman produziu para as interacções
presenciais também servem para a análise das interacções não presenciais inexistentes na altura em que Goffman teorizou.
está presente nos procedimentos discursivo-textuais que o locutor utiliza para apoiar a atenção do alocutário. A outra, de natureza textual-informativa, diz respeito aos processos de formulação, tais como a reformulação parafrástica.
Embora numa perspectiva diferente da de Bakhtin, podemos assumir que Goffman também defende a orientação do discurso para o destinatário, mas a partir de uma perspectiva ritualista, que alguns associam a necessidades narcísicas ou de reconhecimento que os intervenientes sentem, ao longo das interacções verbais em que participam. Das respostas discursivo-textuais que os participantes souberem dar a estas necessidades, depende o equilíbrio interacional entre os participantes. Goffman nucleariza esta orientação nos conceitos de “face” e de “território”.
No nosso estudo, é com os conceitos oferecidos pela proposta de cortesia, aplicada à análise das interacções verbais por Kerbrat-Orrechioni, que nos imergimos nas formulações de Goffman. Estes conceitos provenientes das formulações de Goffman são: “imagem positiva”, “imagem negativa”, “FTA” (acto ameaçante para a “face” e o seu oposto anti-FTA ou FFA (acto valorizante da “face”). Esta presença de Goffman, metamorfizada com os conceitos de Kerbrat-Orechioni, constitui um elemento vertebrador da nossa análise do discurso, na vertente relacional.
Também alguns dos aspectos do quadro teórico herdado de Vygotsky, em muitos aspectos próximo das posições bakhtinianas, são igualmente objecto de uma transmutação para o nosso estudo: utilização mediacional da linguagem no desenvolvimento da relação interpsicológica, internalização, co-construção negociada do sentido pelos participantes na interlocução, zona de desenvolvimento próximo (ZDP).
Novamente os conceitos que fomos buscar ao Modelo de Genebra, podem indiciar a presença, em pano de fundo, da teoria vygotskyana. É no espaço da interlocução correspondente ao intercâmbio, em que se encadeiam intervenções iniciadoras e reactivas, que se constitui permanentemente uma ZDP dinâmica. Esta constituição dinâmica permite ao “expert” introduzir na formulação da sua proposta de intervenção inicial, as mediações discursdivo- textuais necessárias para alcançar uma completude monológica, aceitável pelo alocutário, do ponto de vista da sua compreensão.
A construção da completude monológica é regulada pelas dificuldades de compreensão que o “aprendiz” ou “aprendizes” vão sinalizando ao “expert”. Este processo implica uma coordenação interpsicológica entre o “expert” e os alocutários aprendizes. Este processo termina quando ambas as partes, locutor e alocutário(s), selam a completude interacional ou dialógica, isto é, manifestam consenso quanto à suficiência mediacional da interlocução. Do ponto de vista cognitivo do alocutário, ao selar esta completude, ele está sinalizando que estão reunidas as condições para internalizar o sentido que foi co-construido, nas negociações
plasmadas no intercâmbio simples ou expandido. O intercâmbio permite a transposição de uma dinâmica intermental para um estado intramental.
A noção de “processamento da informação” também imprimiu forma ao nosso estudo.
Em primeiro lugar consideramos a influência sobre o nosso estudo de propostas que situamos nas correntes cognitivas da psicologia da compreensão.
Começamos por sinalizar, de forma incontornável, a presença directa, no nosso estudo, da proposta de Van Dijk e Kintsch (1983). Retiramos desta proposta a noção semântico- representacionista de “proposição”, derivada das estruturas sintácticas das orações. Associamos a composição estrutural do tipo de “proposição” à “noção de complexidade” e seu impacto no processamento conducente à compreensão. Achámos relevante considerar a noção de “complexidade sintáctica” do ponto de vista do processamento sintáctico tal e como perspectivado por Blanche-Benveniste (2013).
Esta proposta de van Dijk e Kintsch (1983) inspirou-nos também, de forma significativa, no estudo do desenvolvimento temático, nomeadamente através dos conceitos de “episódio” e de “macroproposição temática”.
Enformaram também o nosso estudo, os trabalhos desenvolvidos com o recurso ao programa computacional “Coh-Metrix”, desenvolvido na Universidade de Memphis. Este programa (MacNamara & al., 2010; Graesser & al. 2004) “analisa várias características textuais, relevantes para a compreensão de textos, mediante a incorporação de técnicas enformadas pelas teorias do processamento de textos, da psicologia cognitiva, e da linguística computacional” . Estes estudos acometem a “complexidade textual” pelo viés da coesão marcada explicitamente na superfície textual, com o recurso aos marcadores discursivos. Nestes estudos os marcadores são considerados peças-chave com um valor instrucional que os alocutários utilizam, para realizarem um processamento com menos esforço cognitivo.
Finalmente a ligação do nosso estudo aos pressupostos da corrente discursiva da psicologia social pode parecer mais difusa, já que não irrompe de forma tão visível, na nossa análise empírica. O nosso estudo está em linha com a psicologia discursiva, ao colocar no foco investigativo, os processos de construção colectivos, desenvolvidos ao longo da interlocução. Concluindo, pareceu-nos importante não ancorar o nosso estudo, a discussões teóricas de pormenor sobre a oposição tecnicista texto/discurso. Entendemos que os mecanismos que caem na alçada da nossa investigação empírica são mecanismos discursivo-textuais, isto é, são mecanismos discursivos que deixam a sua marca na estrutura textual. Esta parece-nos ser uma perspectiva compatível com as nossas ancoragens teóricas. Seguindo Brown e Yule (1993, p. 24), parece-nos pois apropriado definir os nossos dois objectos de estudo empírico como
“registo verbal” de uma a interação verbal comunicativa. Os nossos registos verbais, adoptam a forma de transcrição de corpora tradutivos.