3 Dokumentasjonskravets kvalitative side
3.2 Når dokumentasjonen er tilstrekkelig
3.2.3 Andre forhold
prender a atenção do observador/público num fotograma estático, em contraponto à imagem em movimento da televisão?
Nós não temos uma relação muito boa com a televisão, no dia-a-dia. Não me incomoda, mas acho que são trabalhos completamente diferentes. Acho que é outra linguagem e que nos querem pôr a fazer. Até temos mente aberta para fazer vídeo, mas tento fugir aos locais onde está a televisão. Onde está a televisão, a realidade é alterada. Numa manifestação, as pessoas podem estar calmas, mas como veem a televisão, começam a gritar e altera-se a realidade.
13 - Até onde está disposto a ir quando se trata de obter uma fotografia exclusiva? Não estou disposto a pisar nenhuma linha ética para ter a fotografia. A nível físico, ainda agora vim do golpe de estado da Guiné e tive dois apertos valentes. Fui detido duas vezes. A partir daí, a pessoa fica com mais cautela, começa-se a perceber o que se passa. Muda-se de atitude, mas nada me impede de não continuar a avançar. Quando sinto que a minha vida está em perigo, paro, obviamente.
14 - Considera que o trabalho do jornalista-redator condiciona o seu trabalho fotográfico ou, pelo contrário, por norma, funciona como um todo, um bom “trabalho de equipa?
Às vezes, condiciona e, por vezes, até há um conflito. Por exemplo, numa reportagem numa aldeia o jornalista tem uma visão e eu posso ter a minha visão de jornalista sobre o mesmo assunto. Existe uma tentativa do jornalista redator impor o seu ponto de vista e, geralmente, a vontade do redator prevalece. Há uma guerra que temos manter. No Expresso, acontecia muito haver a separação total. Agora, já não, mas acontecia o redator ir fazer o trabalho e o fotógrafo ir em dias diferentes. Faço eu o
meu trabalho. Depois, juntamos e é a visão de dois. A visão dele em escrita e a minha visão em imagem. Às vezes, dava resultados interessantes.
15 - A fotografia é valorizada na Lusa?
Dá muita importância à imagem. Somos uma agência, estamos ligados à agência europeia EPA (European Pressphoto Agency), que é uma agência mundial. Somos responsáveis pela parte portuguesa nessa agência e sim, dá valor. Na Lusa, vendemos as imagens, perdemos o controlo sobre elas e já nos aconteceu, por exemplo, uma imagem de crianças a brincar na escola e, passado um ano ou dois, essa mesma imagem ser utilizada para reportar um caso de pedofilia e as pessoas ligarem a dizer «o meu filho está num contexto que não era nada daquilo». Acontece muito pouco e, hoje em dia, quando se trata de assuntos tabu, já se nota muito cuidado em utilizar as nossas imagens para ilustrar situações como estas. As fotografias têm sempre a legenda acoplada e aí defendemo-nos sempre.
16 - Na sua opinião, a fotografia é mais valorizada na imprensa internacional ou o tratamento dado pelas escolhas editoriais é o mesmo que nos media portugueses? A nível dos jornais, sim e nota-se mais cuidado na seleção e na publicação da imagem. Na imprensa internacional dá-se mais espaço à imagem e a fotografia respira mais. É a ideia que tenho, apesar de agora com a crise estar tudo a mudar.
17 - Alguma vez aconteceu a legenda publicada alterar o sentido conotativo e denotativo da imagem?
A legenda é sempre da responsabilidade do fotógrafo, com supervisão do editor. Todo o cuidado com a legenda é pouco. Muitas vezes, uma legenda completa uma imagem e pode por vezes esclarecer ou alterar o sentido da imagem. Na lusa, temos o máximo cuidado com a legenda de forma a também nos protegermos contra fotos que saem do nosso controlo, fotos que podem ilustrar outros artigos que não aqueles a que foi destinada, alterando por completo a sentido da foto. Às vezes, a única proteção que temos é a legenda que acompanha a foto. Por exemplo (já aconteceu), crianças numa certa situação ilustram um artigo sobre amas ao domicílio. A mesma foto foi usada tempos mais tarde para ilustrar um artigo sobre pedofilia, provocando indignação dos pais das crianças, neste caso, a única defesa que temos é a legenda que lhe está atribuído, sendo a responsabilidade de quem a usou, neste caso um jornal que lhe alterou o sentido.
Na lusa, as legendas são o complemento do trabalho jornalístico do fotógrafo, lá tem que constar o nome de todas as pessoas que estão retratadas, a descrição da ação o “tempo”, o local, etc. Tentamos dar o máximo de rigor e responsabilidade à legenda, considerando uma parte importantíssima do trabalho jornalístico.
18 - Que alterações verificou desde o aparecimento da fotografia digital comparativamente com quando trabalhava no analógico?
Para a agência, vem-nos facilitar imenso a vida. Antes, viajava e tinha de levar o laboratório químico e chegava exausto. Agora, o digital veio democratizar a fotografia, que tem outro lado perverso. É uma coisa que digo muito aqui na Lusa, onde também sou coordenador. Hoje em dia, o jornalista fotografa porque as câmaras são automáticas, digitais e veem logo se está bom ou não e fotografam. Só que a vantagem de haver fotógrafos é que têm um olhar, uma preocupação que o jornalista não tem. Já lá vai o tempo em que tecnicamente ele não sabia se quer pôr um rolo na máquina. Como tecnicamente já avançamos, estamos em “pé de igualdade”. Quando recebo trabalho que não está bem feito, digo sempre «assim o jornalista tinha feito porque só está tecnicamente bom». Hoje em dia, o fotógrafo tem de se esforçar cada vez mais e não se esquecer que, numa conferência de imprensa, dois tipos sentados a uma mesa pode ser uma boa foto. Dois tipos sentados a uma mesa até o jornalista faz. 19 - Ao editar as imagens para as preparar para publicação, que alterações costuma fazer nas fotografias?
Sou péssimo em Photoshop. Não gosto. Faço apenas o mínimo. Para mim, a foto ideal é abrir e fechá-la e não precisar de mais nada. Claro que toco sempre nos levels, um pouquinho de contraste e um enquadramento quando é preciso. É a única coisa que fazemos aqui. Como disse, por mim, a foto ideal nem precisava de Photoshop.
20 - Até onde a edição da imagem deve ser permitida?
Não haver alteração física da imagem. Nem retirar, nem pôr objetos. Muitas vezes, consigo – eu e colegas meus - fazer imagens lindíssimas, com um céu fortíssimo sem mexer em Photoshop. O mesmo será possível fazer na imagem banal e colocar Photoshop. Isso, não concordo. Aliás, sou muito apologista de pedir os originais. Isso aconteceu na World Press Photo de há dois anos. Os concursos deveriam começar a ter cuidado com isso e perceber se, de facto, aquela luz foi o fotógrafo que a viu e dominou, que é isso que faz a fotografia, ou se é pós-produção e não vale nada.
21 - Considera que a edição de imagem está a abalar a crença que o público deposita na fotografia?
Acho que não. Tem havido casos de manipulação e somos os primeiros a denunciar e a fazer barulho. Aconteceu aquela história. Agora, com a comunidade online, é fácil detetar e denunciar. Nunca assisti, mas, na altura do ampliador, dizia-se que os jornais desportivos tinham lá várias bolas para pôr na imagem. Nunca assisti, mas como havia outra mentalidade e eram outros tempos, acredito que sim. Agora, o fotógrafo protege-se muito denunciando os outros.
22 - Como encara a concorrência dos chamados «jornalistas-cidadãos», que cada vez mais conseguem divulgar as imagens recolhidas de acontecimentos inéditos nos media online?
Jornalista-cidadão não é jornalista. É preciso ter um cuidado extremo com a definição e com os onlines. São pessoas que não têm carteira, não têm um código, nem responsabilidades a seguir. Acho que pode ser útil e há casos, inclusive, em que já se fez primeiras páginas e tudo. No entanto, acho perigoso e por culpa nossa. Acho perigoso que uma estação de televisão dizer «há uma manifestação, mande-me as duas imagens». Quando começamos a pedir ao cidadão que nos deem as suas imagens que nos divulgamos, está-se a entrar num campo perigosíssimo.
23 – Por que motivos as editorias recorrem cada vez mais a fotografias de agência e não dos profissionais da redação? Essa opção não poderá revelar uma desvalorização da própria imagem, da importância que esta deve ter no quotidiano das notícias e do próprio trabalho de autor?
Em Portugal, há um fenómeno inverso. No mundo inteiro e nós estamos sempre em contacto com a EPA, que está a crescer, o que acontece é que está a haver uma grande dispensa de fotógrafos de jornais porque temos as agências. É mau, mas está a dar um novo fôlego às agências. Pensa-se: «Dispensamos trinta e vamos buscar imagens à EPA ou à Reuters». Aqui, o que curiosamente aconteceu foram jornais fortíssimos como o DN ou o JN, o Público deixarem de ter a Lusa para manter os fotógrafos. É curioso porque é um fenómeno inverso e foi discutido. Infelizmente, acho que a tendência agora se vai inverter.
O recurso à agência descaracteriza imenso o jornal. Gostava do Público porque tinha características específicas. O DN tinha outras características da fotografia. Isso dá a
identidade a um jornal e perdem imenso. Às tantas, temos os jornais todos com a mesma foto. É bom para mim, mas no plano gera acho muito mau.
24 - Nos próximos anos, como vê a fotografia em Portugal? Irá ser valorizada ou a tendência é para haver uma deterioração da profissão e do uso da própria imagem? Como vejo o jornalismo? O jornalismo está a entrar numa fase péssima por culpa nossa e não só. Mas vejo o panorama, muito, muito negro. Como estava a dizer que, mais um ano, e vai haver aí muitos cortes e despedimentos.
25 - Os órgãos de comunicação, em geral, e os fotojornalistas, em particular, estão a saber reagir e aproveitar este período de mudança que se vive no fotojornalismo? Acho que nem em Portugal, nem no mundo inteiro. Acho que isso é que a pergunta para um milhão de euros. Como é que conseguimos fazer dinheiro no online. Fala-se muito do online, iPads, mas não se sabe de onde é que vem o dinheiro.