Entender as noções de língua e linguagem aqui propostas é essencial para que compreendamos qualquer teoria enunciativa. Estudar como se dá sua articulação é proposta essencial da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas, tornando-a, assim, extremamente interessante para sustentar reflexões acerca do ensino de língua materna.
11 Não são muitos os estudos da teoria de Culioli no Brasil, portanto, para aqueles que quiserem conhecer
um pouco mais sobre outros aspectos não explorados aqui sobre a teoria, sem ter de dominar a leitura em francês, há um livro compilado e traduzido por Sophie Fisher e Eliseo Verón, com diversos textos do Culioli em espanhol, e bons textos em português a respeito da teoria em obras das professoras Letícia Marcondes Rezende, Marília Blundi Onofre, e Márcia Cristina Romero Lopes.
47 Para nosso trabalho, desse modo, é importante percebermos que língua e linguagem, conceitualmente, não diferem tanto da antiga dicotomia langue e parole de Saussure. O linguista estruturalista, porém, coloca como trabalho do linguista o estudo da langue. Diferentemente, primeiro Benveniste, e depois Culioli, propõe formalizarmos a articulação entre uma e outra, sendo o foco do primeiro a compreensão de como o homem e determinadas sociedades se organizaram por meio das marcas linguísticas; e o de Culioli a compreensão daquilo que as marcas operam, importando para ele como o sujeito enunciou e não o porquê, sem desconsiderar, com isso, o aspecto psicossociológico do ser.
Linguagem, assim, para Culioli, é a atividade humana de construir significados, enquanto língua seria a concretização da linguagem por meio de arranjos textuais, orais ou escritos. Sendo que, apenas conseguimos apreender a linguagem e estudar seu funcionamento por meio de configurações específicas, ou seja, por meio de uma língua dada. Para o estudioso “[...] A atividade da linguagem reenvia a uma atividade de produção e reconhecimento de formas, ora, essas formas não podem ser estudadas independentemente dos textos, e os textos não podem ser independentes das línguas” (CULIOLI, 1990, p. 14)12.
Desse modo, o objeto da linguística para a Teoria das Operações Enunciativas e Predicativas é, justamente, a atividade da linguagem apreendida por meio da diversidade das línguas naturais, uma de suas manifestações. Para Culioli (1990) também claro fica que a linguagem é constituída por invariantes, comuns a todo ser humano, do contrário, não seria possível aprendermos várias línguas e passarmos de uma a outra: “[...] É preciso que haja um certo número de propriedades comuns para que possamos adquirir sistemas linguísticos equivalentes [...]”(CULIOLI, 1990, p. 14).
É entre as configurações específicas de cada língua então, que existe um subconjunto que pode
[...] ser remetido a um certo número de categorias, esquemas, relações, termos primitivos, operações, encadeamentos de operações que vão nos permitir extrair invariantes que encontramos, subjacentes
12 Essa citação, bem como todas as outras cujos textos originais estejam em língua estrangeira sem traduções
para o português, são traduções livres feitas por nós. Deixaremos os fragmentos originais sempre à disposição para consultas em nossas notas de rodapé. “[...] L’activité de langage renvoie à une activité de production et de reconnaissance de formes, or, ces formes ne peuvent pas être étudiées independamment des textes, et les textes ne peuvent être indépendants des langues”.
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à atividade de linguagem, quaisquer que sejam as línguas que considerarmos [...] (CULIOLI, 1990, p. 15)13.
O estudioso ainda enfatiza que, durante essa busca do linguista pelas invariantes, o verdadeiro problema é que não existe correspondência termo a termo entre marcadores de uma língua dada e das categorias invariantes que encontraríamos por meio das línguas. Ademais, a linguagem, em si, é indeterminada, tendo nós apenas acesso às operações que a constituem. Daí a dinamicidade existente na articulação entre língua e linguagem. Como veremos mais à frente nesse capítulo e, sobretudo com as análises no capítulo V, não há apenas um marcador na língua portuguesa para veicular a operação de varredura, por exemplo, e isso não se dá de modo estático, desarticulando-se léxico e gramática. A marca do artigo definido, dependendo das relações com o restante do enunciado, pode operar a varredura, porém, isso varia sempre de acordo com as outras marcas existentes no enunciado.
É graças a essa consciência da variação radical da língua, sustentada por invariantes dinâmicas, que é bastante profícuo aproveitar as reflexões da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas para pensarmos o ensino de Língua Materna. A passagem de uma linguística estática, classificatória, dada, para uma linguística dinâmica, valorizadora do processo construtivo de significado e valores em língua (Rezende, 2009), nos possibilita trabalhar com aquilo que o estudante constrói, buscando nesse processo do outro, as invariantes que sustentam todos os processos, estabelecendo-se assim pontes e trocas dialógicas, solidárias, propiciadoras de um ambiente de liberdade, o qual faculta a conscientização, criatividade e autonomia.
Embora formal e empírico estejam articulados, as diferenças existentes entre professor-estudante, estudante-estudante, professor-professor são sempre de natureza empírica, experiencial. Todas as diferenças entre línguas e intra-línguas são puramente experienciais.
Portanto,
A tese da indeterminação da linguagem e a defesa da linguagem como trabalho ou atividade garantem a fundamental liberdade ao sujeito e o insere no âmago do processo de atribuição de significados e valores às expressões linguísticas. As teses da indeterminação da linguagem, da linguagem como trabalho e da inserção do sujeito na base das análises linguísticas são interdependentes” (REZENDE, 2009, p. 15-6)
13“[...] peut être ramené à um certain nombre de catégories, de schémas, de relations, de termes primitifs,
d’opérations, de enchaînements d’opérations qui vont nous permettre de dégager des invariants que l’on retrouve, sous-jacents à l’activité de langage, quelles que soient les langues que l’on considère [...]”
49 Desse modo, como tudo o que foi falado até então a respeito da teoria vai de encontro com o tipo de ensino em língua materna que viemos defendendo durante o primeiro capítulo, nos próximos itens explicaremos conceitos e noções fulcrais para a compreensão da teoria de um modo geral e, mais especificamente, das análises realizadas e dos exercícios criados em nosso trabalho.