O porte da empresa é outro fator relevante discutido nos estudos teóricos e empíricos sobre risco de crédito, determinantes de inadimplência e fatores condicionantes de recuperação de crédito.
57 Bonfim (2009) reconhece que pode existir um viés nos dados utilizados, como a inserção de informações no
banco de dados do Banco Central português por empresas de maior porte, em geral, mais antigas (uma vez que parte dos dados não possui obrigatoriedade de preenchimento pelas empresas). Além disso, as regressões probit realizadas pela autora não mostraram significância estatística a esta relação direta entre tempo de atividade e inadimplência.
De acordo com Jovanovic (1982), há estreita relação entre tempo de atividade da empresa e seu tamanho. Afinal, a saída de empresas menos eficientes do mercado resulta na transferência da demanda às empresas que mantêm as atividades econômicas, fazendo com que seu faturamento e lucros tendam a aumentar com o passar do tempo, gerando aumento no tamanho da empresa (JOVANOVIC, 1982).
Empresas de maior porte estão associadas a maior nível de gestão estratégica e financeira, possuindo maior número de alternativas de financiamento por meio de capital próprio ou de capital de terceiros. Titman e Wessels (1988) reconhecem que, relativamente, empresas pequenas têm custo muito maior que grandes corporações caso desejem subscrever ações ou, até mesmo, emitir debêntures, o que sugere maior nível de endividamento bancário e comercial das pequenas empresas. Assim, segundo os autores, as empresas de menor porte tendem a preferir obter créditos de curto prazo, em geral, decorrente de empréstimos bancário, uma vez que esta alternativa exige menor custo fixo associado, como a desnecessidade de oferecimento de garantia à operação.
A própria característica da forma de financiamento adotada pelas empresas pode impactar seu nível de risco de crédito. A utilização de empréstimos de curto prazo por empresas de pequeno porte pode fazer com que elas sejam especialmente sensíveis a períodos de retração econômica, diferentemente de grandes empresas, que são menos alavancadas e possuem mais empréstimos de longo prazo, estando as pequenas empresas mais suscetíveis à inadimplência (TITMAN e WESSELS, 1988).
Portanto, dada a fragilidade das empresas de menor porte, pode-se esperar maior taxa de inadimplência quando se considera a quantidade de clientes ou de contratos associada a este perfil de empresa. As empresas maiores, com maiores custos de saída e maior capital imobilizado, tendem a ter menores índices de inadimplência. Bonfim (2009) identifica que a distribuição de inadimplência de grandes empresas caracteriza-se por ter maior densidade na cauda esquerda, sugerindo eventos de mora nos pagamentos de duração relativamente menores e de caráter transitório.
Da mesma forma, Jiménez e Saurina (2004) reconhecem empiricamente que o porte da empresa e, consequentemente, o montante solicitado podem impactar a probabilidade de inadimplência em razão da maior ou menor análise do pedido empregada pela instituição
financeira. A correlação negativa entre tamanho (porte) da empresa e inadimplência é verificada por Titman e Wessels (1988) em pesquisa com base em dados de 469 empresas norte-americanas no período de 1974 a 1982.
Estudo apresentado pela Moody´s (2004)58apud Bonfim (2009) indica que, apesar de as maiores empresas terem menores índices de default, quando consideradas as variáveis contábeis-financeiras (cuja disponibilidade é característica de empresas de maior porte), o impacto do fator tamanho tende a se reduzir. Ou seja, dado que uma empresa é classificada como de grande porte, pequena influência terá o fator tamanho em relação às demais empresas de grande porte para determinar a inadimplência empresarial.
De outro lado, Bonfim (2009), em pesquisa realizada com base em dados de mais de 33 mil empresas portuguesas no período de 1996 a 2002, identificou que empresas de maior porte possuem, ao contrário dos resultados majoritários verificados na literatura, maior probabilidade de inadimplência.59
Quanto à recuperação de crédito, o impacto do porte da empresa na probabilidade de retorno do crédito inadimplido é ambíguo na literatura acadêmica. Bonfim (2009, p. 287) afirma que “empresas maiores tendem a possuir menores dificuldades em superar os problemas de crédito em parte porque bancos podem ter maior propensão a renegociar créditos inadimplidos com intuito de evitar maiores perdas”. Além disso, deve-se reconhecer que grandes empresas tendem a ter menores problemas de assimetria informacional com os credores, o que provavelmente resultaria em um processo de recuperação mais célere do que empresas menores, tendo como consequência maior taxa de recuperação (KHIEU, MULLINEAUX e YI, 2012).
58MOODY´S. The Moody´s KMV EDF Riskcalc v3.1 Model. Moody´s KMV Company, 2004.
59 Entretanto, o gráfico de distribuição da inadimplência, utilizando um Centro de Densidade Gaussiano
(Gaussian kernel density), indica que, ao contrário das pequenas empresas (caracterizadas por uma distribuição de dois picos), médias e grandes empresas possuem distribuição de um pico centrada à esquerda. Este resultado sugere que, apesar da maior taxa de inadimplência para empresas de maior porte, em geral, estes eventos de
default são menores (quanto a razão de valores inadimplentes em relação a valores financiados) e refletem
eventos transitórios. Além disso, a diferença da probabilidade de inadimplência pelo tamanho da empresa, verificada nas estatísticas descritivas, não se mostrou significativa em modelos probits de análise multivariada (BONFIM, 2009).
De outro lado, pode-se interpretar que os credores possuem maiores dificuldades para controlar e influenciar processos de liquidação ou reestruturação de grandes empresas, tanto pela maior complexidade destas organizações como pela tendência de existir maior número de credores, que podem ter interesses conflitantes. Assim, empresas de maior porte teriam menor taxa de recuperação de crédito quando analisada pela proporção do valor de fato recuperado em relação ao valor financiado (GRUNERT e WEBER, 2009).
Em estudo empírico realizado com base em dados de 120 clientes inadimplentes de um banco alemão no período de 1992 a 2003, Grunert e Weber (2009) encontraram resultados estatisticamente significativos que corroboram com esta interpretação de correlação negativa entre porte da empresa e taxa de recuperação de crédito.
Uma análise do trade off entre a complexidade da recuperação da empresa e o nível de assimetria informacional entre os participantes torna-se necessária para possibilitar a sustentação teórica de uma das perspectivas. Espera-se que no caso de uma diferença muito grande entre o tamanho das empresas as vantagens advindas da redução da assimetria informacional dificilmente superariam as dificuldades geradas por uma recuperação mais complexa e com um maior número de participantes.
Bonfim, Dias e Richmond (2012, p. 2016) observaram que empresas de maior porte tendem a ter acesso a novos créditos de maneira mais fácil do que pequenas empresas. Tal observação se justifica pelo fato de grandes empresas serem vistas como menos arriscadas e mais estáveis, o que facilitaria a retomada de pagamentos no caso de inadimplência anterior.
As proxies de tamanho da empresa podem ser, entre outros: faturamento anual60, número de empregados61, ativo total (para o caso de disponibilidade de demonstrações financeiras). No caso de instituições financeiras, muitas vezes, elas possuem seus próprios critérios de classificação do porte das empresas, que se diferem dos utilizados por órgãos oficiais. Além
60 Classificação Simples Nacional – Lei Complementar 123/06: (i) microempresa – faturamento anual igual ou
inferior a R$ 360.000,00; (ii) empresa de pequeno porte – faturamento superior a R$ 360.000,00 e igual ou inferior a R$ 3.600.000,00.
61 Classificação de porte das empresas por número de empregados (IBGE). Para o setor de Indústria: (i)
microempresa – até 19 empregados; (ii) pequena empresa – de 20 a 99 empregados; média empresa – 100 a 499 empregados; grande empresa – mais de 500 empregados. Para os setores de Comércio e de Serviços: (i) microempresa – até 9 empregados; pequena empresa – de 10 a 49 empregados; média empresa – de 50 a 99 empregados; grande empresa – mais de 100 empregados.
disso, o porte da empresa é utilizado em muitos estudos como fator base para o agrupamento dos objetos de estudo (Cluster Analysis).