2. Metode og materiale
2.10 Analysen
O termo masoquismo é adotado por Kraftt-Ebing, em seu compêndio sobre as perversões, Psychopathia Sexualis (1886), para descrever o que o autor considerava uma anomalia de natureza congênita e degenerativa daqueles que sofriam com prazer. A designação dessa perversão se serve do nome do autor Sacher-Masoch, em cujas novelas os personagens têm inclinações eróticas que vão desde de desejar ser atado, ser vítima de castigos e de intensas dores físicas, até o estabelecimento de contratos nos quais a mulher amada deve prostituir-se. O enredo das novelas fala da escravidão de um homem a uma mulher, freqüentemente envolta em peles, e a dor ou a punição são condições indispensáveis para se obter prazer. Os personagens das novelas de Sacher-Masoch fornecem, assim, a imagem paradigmática dessa perversão ao campo médico-legal.
Para a psicanálise, o masoquismo denuncia, por sua ocorrência, um paradoxo na suposição inicial freudiana de que o princípio do prazer é o fundamento dos processos psíquicos. Tal ocorrência enuncia a questão de saber como é possível que um semelhante obtenha prazer no sofrimento, uma vez que consente em seu suplício e dele obtém satisfação. Freud, ao desvendar esse paradoxo, interrogando seus fundamentos, vai do estatuto inicial perverso do masoquismo até a estrutura propriamente dita.
No início de suas conceitualizações sobre o masoquismo, Freud, apoiado na sexologia da época, mais precisamente nas noções de Kraftt-Ebing, considera que há uma simetria entre sadismo e masoquismo. Trata-se, no caso masoquista, de alcançar a voluptuosidade através da dor, em um cenário de degradação e horror. Em seus Três ensaios sobre a Teoria da
Sexualidade (1905, p.160), Freud define o masoquismo como: “[...] a designação que abarca todas as atitudes passivas em relação à vida e aos objetos sexuais, a mais extrema das quais é o padecimento de uma dor física ou anímica, infligida pelo objeto sexual”.
No primeiro dos Três ensaios, dedicado às aberrações sexuais, o masoquismo é apresentado como o reverso do sadismo (FREUD, 1905, p. 161):
O sadismo e o masoquismo continuam a ocupar um lugar especial entre as perversões, uma vez que o contraste entre a atividade e a passividade, que neles é subjacente, situa-se entre as características universais da vida sexual.
Nesse sentido, o masoquismo se define em referência, ou até mesmo em subordinação, ao sadismo. O que é postulado por Freud nesse momento é que no sadismo encontra-se uma forma ativa de manifestação de um excesso pulsional não domesticado, a partir de um desenvolvimento exacerbado do componente agressivo da pulsão sexual. O masoquismo, seu oposto, caracteriza-se por ser uma forma passiva de expressão desse componente exacerbado. Freud considera que um sádico é sempre masoquista, e que o que determina um movimento ou outro é a característica dominante que surge na atividade sexual da pulsão, cuja expressão pode ser ativa ou passiva.
Tal simetria entre sadismo e masoquismo considera o segundo como o retorno do sadismo ao próprio sujeito. O sadismo é considerado primário, o que se harmoniza com o modelo proposto da sexualidade infantil neste momento da teoria, que se caracteriza por ser uma sexualidade perversa e polimorfa, que mantém como originário o excesso e certo desenfreamento pulsional.
Em 1915, no texto Os Instintos e suas vicissitudes, o masoquismo é descrito em relação à reversão pulsional: o sadismo, considerado primeiro no par de opostos formado com o masoquismo, consiste na agressividade exercida “contra outra pessoa tomada como objeto”;
este objeto é abandonado e “substituído pela própria pessoa”, o que transforma a meta pulsional ativa em meta passiva. Segundo Freud (1915, p.148):
O retorno de uma pulsão em direção ao próprio eu do indivíduo se torna plausível pela reflexão de que o masoquismo é, na realidade, o sadismo que retorna em direção ao próprio eu do indivíduo, e de que o exibicionismo abrange o olhar para o seu próprio corpo. A observação analítica, realmente, não nos deixa duvidar de que o masoquista partilha da fruição de (a visão de) sua exibição. A essência deste processo é, assim, a mudança de objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada. Não podemos deixar de observar, contudo, que nesses exemplos o retorno em direção ao eu do indivíduo e a transformação da atividade em passividade convergem ou coincidem.
Nesse mesmo texto Freud irá teorizar o surgimento do sujeito perverso segundo um modelo definido em três tempos:
• Primeiro tempo: sadismo.
• Segundo tempo: a transformação do fim ativo em passivo, masoquismo. • Terceiro tempo: sadomasoquismo.
Freud irá ressaltar que, nesse modelo, os dois primeiros tempos são pré-subjetivos, e apenas no terceiro tempo emerge o sujeito. Tendo como origem o sadismo, a agressividade contra o objeto pode se transformar em agressividade contra o próprio eu. Assim, o masoquismo da primeira tópica pulsional (pulsões de autoconservação, pulsões do eu/pulsões sexuais), se define estruturalmente como um sadismo revertido contra o próprio eu.
Esse modelo irá aparecer, também, em seu texto posterior Bate-se em uma Criança 12 (1919). A partir da reflexão sobre a presença recorrente de um tipo peculiar de fantasia em alguns de seus pacientes – sobre o enunciado “bate-se em uma criança” –, Freud apresenta,
12 Ao longo do trabalho optamos pela tradução “Bate-se em uma criança”, em lugar de “Uma Criança é
Espancada”. Apesar de a segunda tradução ser a que consta das edições brasileiras das Obras Completas de Sigmund Freud, e de ser a que aparece como título em nossa bibliografia, consideramos que a segunda, por ser mais fiel ao título original, evidencia melhor a complexidade do lugar do sujeito na fantasia, aspecto que iremos desenvolver ao longo de nossa argumentação.
segundo suas palavras, “uma contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais” (FREUD, 1919, p.234).
Tal fantasia descrita por seus pacientes é fonte de prazer e de cunho sexual, e é evocada com resistência por parte destes, por vir acompanhada de sentimentos de culpa e vergonha. A fantasia infantil acalenta uma satisfação auto-erótica traduzida no ato do espancamento. Dessa fantasia Freud extrai a relação do sujeito com o autor da mesma, bem como seu conteúdo e sua significação. A gênese do masoquismo se processa em uma série de transformações do enunciado fantasístico:
• O pai bate em uma criança que eu odeio. • Eu sou espancada pelo pai.
• Bate-se em uma criança.
De cada uma dessas fases se depreende uma posição subjetiva: a primeira, “meu pai bate na criança que eu odeio”, é referida a um momento incestuoso de satisfação, de ser mais amado pelo pai que os irmãos, de caráter sádico; por efeito do sentimento de culpa, que participa do ato de repressão do desejo incestuoso, o sadismo volta-se contra o eu, originando o masoquismo. Nessa posição masoquista, “eu sou espancada pelo pai”, a fantasia atinge, de forma masturbatória, um gozo sexual, uma vez que “[...] não é apenas a punição pela relação genital proibida, mas um substituto regressivo desta, em cuja fonte ele colhe as excitações libidinais. Esta é precisamente a essência do masoquismo” (FREUD, 1919 p.237).
O que se verifica nesse momento teórico é que a gênese do masoquismo a partir do sadismo se processa por efeito do sentimento de culpa, que participa do ato de repressão. Segundo Freud, é o sentimento de culpa que converte o sadismo em masoquismo. Aqui Freud delimita aquilo que opera a reversão do sadismo ao eu do próprio sujeito: o sentimento de culpa que intervém no ato de repressão.
O sentimento de culpa surge como fator ativo dessa grande reversão. Por trás desta culpa irão se encontrar “resíduos do complexo de Édipo” (FREUD, 1919), ou seja, excluída a satisfação pulsional plena, o que Lacan irá denominar de gozo, a fantasia vem em auxílio de sua recuperação:
O que resta do Complexo de Édipo, a inclinação para o posterior desenvolvimento de neuroses no adulto. Dessa forma, a fantasia do espancamento e outras fixações perversas análogas também seriam apenas resíduos do Complexo de Édipo, cicatrizes, por assim dizer, deixadas pelo processo que terminou, tal como o notório sentimento de inferioridade, correspondente a uma cicatriz narcísica do mesmo tipo. (FREUD, 1919, p. 241).
Aqui há uma brecha não completamente elucidada sobre a questão do masoquismo, pois se verifica um traço masoquista decisivo na formulação da fantasia que não é desenvolvido teoricamente. É justamente nesta brecha que, como será visto, Lacan (1966/1967) outorgará o caráter paradigmático da fantasia masoquista: justamente porque ela revela o fundo masoquista da fantasia enquanto tal.
A terceira fase, “bate-se em uma criança”, aparece de forma dessubjetivada. O que se pode depreender desse terceiro movimento é, em um primeiro plano, a sua incidência enquanto suporte da montagem pulsional que, em suas inversões, vai delineando os destinos da pulsão. Novamente antecipando o que será desenvolvido a partir de Lacan (1966/1967) neste trabalho, a partícula “se”, infinitivo da voz passiva, indica um resto de gozo inacessível ao sujeito, indicando o que Freud define serem “cicatrizes, resíduos do complexo de Édipo”. Cada pulsão parcial, no circuito de sua satisfação que será mediada por objetos - oral, anal, olhar, voz – que se caracterizam por serem suportes utilizados pelo sujeito para se localizar no Outro, comporta de forma subjacente um gozo masoquista, ou seja, o “se” fazer objeto do Outro.
A pesquisa sobre o fenômeno do masoquismo vai delineando, assim, seu percurso, que vai da perversão ao enigma. Como perversão, Freud observa em seus Três Ensaios sobre a
Teoria da Sexualidade (1905, p.160) que “o masoquismo parece distanciar-se da meta sexual normal mais que sua contraparte”. Acentuando o aspecto da satisfação pulsional, sob a égide do princípio do prazer, supõe uma primazia do sadismo. Contudo, o masoquismo se mostra intrinsecamente paradoxal, uma vez que parece inverter a lógica da meta pulsional. Ou seja, há algo na atitude masoquista que subverte a lógica da satisfação pulsional, e a decifração deste enigma vai desvelando o cerne da vida pulsional. O masoquismo irá conservar sua acepção semântica de denominação de uma classe de perversão, mas tanto do ponto de vista clínico como metapsicológico o conceito será ampliado.