A linguagem reflete aspectos importantes da conceitualização humana e, portanto, não é independente da mente3 (GIBBS, 2005). Uma das ideias originais em Linguística Cognitiva é a de que grande parte do nosso conhecimento não é estático, mas é estruturado por padrões dinâmicos, não-proposicionais e imagéticos dos nossos movimentos no espaço, da nossa manipulação dos objetos e de interações perceptivas, os chamados esquemas imagéticos.
Padrões sistemáticos de estrutura e comportamentos linguísticos não são arbitrários ou devidos a convenções ou generalizações puramente linguísticas, mas são motivados por padrões recorrentes da experiência corporal, esquemas de imagem, os quais são, com frequência, metaforicamente estendidos (GIBBS, 2005). A linguagem está a serviço de construir e comunicar significado. Para Fauconier (1999) é necessário relacionar traços do pensamento, processos cognitivos e comunicação com suas manifestações na linguagem. Acessar o conteúdo mental por meio da linguagem é uma tarefa difícil, por isso a LC busca explicar essa relação a partir de uma perspectiva experiencialista. O termo “cognição”, por meio da Ciência Cognitiva, é constituído por elementos como memória, atenção, aspectos do pensamento e da linguagem, conscientes ou não. O termo “cognitivo” abrange qualquer operação ou estrutura mental que estiver envolvida na linguagem, sentido, percepção, sistemas conceituais e razão (LAKOFF E JONHSON, 1999).
Buscamos um estudo sobre metáforas sistemáticas no discurso de professores sobre violência escolar, amparados nos conceitos da LC, a qual tem uma perspectiva comum: a de que a linguagem é uma faceta integral da cognição, que reflete a interação de fatores sociais, culturais, psicológicos, comunicacionais e funcionais; e apenas pode
3 Gibbs, como psicolinguista cognitivo, compartilha da conceitualização de Lakoff e Johnson sobre mente
como entidade corpórea que se instaura a partir da relação do sujeito cognoscitivo com o mundo no entorno secológico, social e cultural.
ser compreendida no contexto de uma visão realista-experiencial da aquisição, desenvolvimento cognitivo e processamento mental (FELTES, 2007).
No desenvolvimento da Linguística Cognitiva, os esforços de Lakoff, de Kövecses (2005) e de posteriores estudos convergem na direção de relacionar o funcionamento da mente com as formulações linguísticas, ambos vistos como produto da interação do corpo com o mundo. A concepção aristotélica que limitava a visão da metáfora à sua função meramente impressionista há muito tempo vem sendo discutida e reelaborada por filósofos, psicólogos e linguistas. Contudo, embora percebamos um afastamento explícito da concepção de Aristóteles em Locke, Kant, Blumenberg e Weinrich, etc. somente a obra Metaphors we live by de George Lakoff e Mark Johnson (1980) consegue popularizar a ideia da metáfora como recurso de organização e produção de conhecimentos no cotidiano.
Nessa obra, os autores concebem a metáfora em termos de um mapeamento entre dois domínios conceituais, o domínio fonte e o domínio alvo. Assim, em expressões como mente vazia, sem ideias fixas ou cabeça oca, o domínio alvo MENTE é metaforizado a partir da imagem de um CONTAINER; em expressões como batalha das eleições, guerra de partidos ou embate da oposição, o conceito mais abstrato, POLÍTICA é compreendido metaforicamente a partir do conhecimento do domínio experiencial de GUERRA.
2.2.1 Esquemas imagético-cinestésicos
Os esquemas imagéticos são estruturas abstratas e genéricas advindas de experiências sensório-motoras, facultadas pelas características da espécie humana. Essas imagens esquemáticas são de natureza cinestésica, pois dizem respeito a muitos aspectos da atividade do ser humano no espaço, tais como: orientação, movimento, equilíbrio, forma, etc. Desse modo, sintetizaremos chamando-os de esquemas imagético-cinestésicos, os quais refletem as experiências de percurso, continente/conteúdo, parte/todo, ligação, centro/periferia, em cima/embaixo, frente/trás, entre outros. Em nossa análise, o papel dos esquemas imagético-cinestésicos tem relação com a emergência de expressões metafóricas que indicam deslocamento no espaço conforme exemplificamos a seguir. Lakoff (1987) lista alguns esquemas:
a. Esquema origem-percurso-meta (source-path-goal schema): Desde a infância, o
ser humano internaliza, por exemplo, a experiência de mover-se de um lugar para outro. Essa experiência física rotineira consolida-se na mente de forma esquemática, dando origem ao esquema de percurso, cujos elementos estruturais são uma origem (ou ponto de partida), um alvo (ou ponto de chegada), uma distância percorrida (ou uma sequência de locais contíguos que conectam uma origem a um alvo) e uma
direção (para um alvo).
b. Esquema Recipiente (container schema): As imagens relacionadas a locais
como dentro e fora são imagens mentais instauradas durante o processo de desenvolvimento cognitivo e partilhadas e partilhadas por membros de uma mesma cultura. A maioria dos seres humanos experimentou estar dentro de uma sala ou fora dela, dentro de um carro ou fora dele. Esquemas aprendidos diretamente a partir da experiência do corpo no mundo são mapeados em domínios abstratos não experienciados diretamente. Assim, expressões metafóricas são elaboradas, usando elementos estruturais que se referem a limites, interioridade e exterioridade. Alguém pode estar dentro de uma brincadeira ou fora, dentro da vida de alguém ou fora dela.
c. Esquema parte-pelo-todo (part-whole schema): Não raro nos deparamos
com expressões “Precisamos de algumas cabeças pensantes para nos ajudar a chegar à solução”, o termo “cabeças pensantes” refere-se a pessoas que podem nos auxiliar a resolver um problema, pessoas que chegam a soluções rapidamente, caracterizando o termo como uma metonímia, por utilizar a parte do corpo relativa à cognição, à racionalidade, para nos referirmos a alguém.
d. Esquema de ligação (link schema): A experiência elementar de ligação que
o ser corpo humano vivencia através de seu corpo é o cordão umbilical. Não raro nos deparamos com expressões relativas a relacionamentos em termos de ligação: “fortalecer os laços de amizade”, “desligar-se de um emprego”, etc.
e. Esquema centro-periferia (center-periphery schema): Nosso corpo possui
partes que são mais centrais, por exemplo, tronco, coração e outros órgãos internos; como também partes que são consideradas extensões mãos, dedos, pés, braços e pernas. Nota-se que, aquilo que é central é mais importante, por exemplo, se uma árvore perde as suas folhas, ela ainda continua sendo árvore, mas se perde o seu tronco, deixa de existir. Metáforas também são produzidas no cotidiano que usam essa imagem, como por exemplo, quando se fala em teorias: “elas têm seus pontos centrais e seus aspectos periféricos.”
f. Esquema de verticalidade (verticality schema): A disposição vertical de
nosso corpo auxilia na expressão linguística de noções abstratas. Os conceitos de PARA CIMA SER MAIOR QUANTIDADE e PARA BAIXO SER MENOR QUANTIDADE são constantemente observáveis na linguagem. No momento em que alguém afirma que “as ocorrências de violência escolar estão subindo”, ou que “as projeções gráficas de violência escolar apontando para baixo indicam a diminuição desses índices”, mostra a estreita relação entre verticalidade e quantidade. O corpo humano experimenta o seu desenvolvimento e crescimento para cima, por exemplo, durante o desenvolvimento cognitivo, a criança é exposta inúmeras vezes a cenas em que percebem que a elevação física (por exemplo, a elevação de uma pilha de livros, ou de bloquinhos de madeira) implica numa maior quantidade desses elementos, por isso há a associação esquemática mental desses conceitos de verticalidade e quantidade.
Destarte, as bases de conhecimento são operadas mediante habilidades cognitivas, dentre as quais a mais básica é a comparação, que permite “entender e experienciar um tipo de coisa em termos de outra.” (LAKOFF E JOHNSON, 1980), essa habilidade imaginativa denomina-se metáfora. Reforçamos que, para a Linguística Cognitiva, a metáfora não é meramente um dispositivo retórico ou decorativo, confinado à literatura. Ao contrário, a metáfora é um fenômeno conceitual de mapeamento interdomínios, ou seja, envolve dois domínios de experiência diferentes, projetando uma estrutura de um domínio-fonte em uma estrutura correspondente de um domínio-alvo. George Lakoff e Mark Johnson (1980) demonstram que, conceituam-se sistematicamente, muitos domínios da experiência através de metáforas conceituais, isto é, projetando neles outros domínios.
Para ilustrar a ideia de que as metáforas conceituais estruturam nossas atividades diárias e são construídas no seio de uma cultura, os autores observam que, em sociedades ocidentais, conceitua-se uma discussão através da metáfora DISCUSSÃO É GUERRA. Entre esses dois domínios estabelecem-se analogias estruturais: os participantes de uma discussão correspondem aos adversários de uma guerra; o conflito de opiniões corresponde às diferentes posições dos inimigos; levantar objeções corresponde a atacar; manter uma opinião corresponde a defender-se; desistir de uma opinião corresponde a render-se; o local da discussão corresponde ao campo de batalha etc. Em outras palavras, tanto uma guerra como uma discussão passam por momentos de ataque, defesa, contra-ataque e retirada, até que um dos oponentes vença, visto que,
mesmo que não haja uma batalha física, há uma batalha verbal (LAKOFF E JOHNSON, 1980).
Diferentes expressões linguísticas podem instanciar uma mesma metáfora conceitual, de modo que, como realizações linguísticas da metáfora conceitual DISCUSSÃO É GUERRA, estratégias são utilizadas, posições são defendidas, pontos fracos são procurados, argumentos são atacados e, no fim, um dos oponentes ganha ou perde a discussão. Desse modo, no Oriente, a metáfora DISCUSSÃO É GUERRA não é válida, pois a cultura oriental concebe a discussão como um ato cooperativo entre indivíduos. Através de mapeamentos metafóricos, a conceituação das categorias abstratas fundamenta-se, em grande parte, na nossa experiência concreta cotidiana.
Como os autores defendem um realismo corporificado, o foco da teoria está na metáfora conceitual corporificada que forma uma das bases para Modelos Cognitivos Idealizados (MCIs), gerando nossas estruturas de organização do conhecimento. De acordo com essa teoria, a metáfora é conceitual por natureza, de modo que a linguagem metafórica é vista apenas como a manifestação superficial dessa metáfora que permite o entendimento de um domínio abstrato em termos de outro mais concreto. Com isso, cada mapeamento representa um conjunto de correspondências entre entidades em um domínio fonte e um domínio alvo. Logo que tais correspondências fixadas forem ativadas, o mapeamento projeta os padrões de inferência do domínio fonte ao domínio alvo. Assim, a estrutura do esquema imagético do domínio fonte é mapeada de forma coerente no domínio alvo (LAKOFF, 1993).
Por muito tempo se tem dado ênfase ao lado cognitivo do triângulo: linguagem, cognição e cultura. O principal interesse está no indivíduo e em seu funcionamento corporal e psicolinguístico. Consequentemente, na TMC, o interesse principal dirige-se à cognição: metáforas linguísticas são vistas apenas como reflexos de uma camada mais profunda do pensamento estruturada metaforicamente, o que é denominado visão forte da metáfora (MURPHY, 1996).
3 CONTRASTE ENTRE METÁFORA CONCEITUAL E METÁFORA