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4 Analyse

4.2 Analyse av forståelsen av likhetstegnet og aritmetikk

12 de novembro de 2002 - saí de Cruzeiro do Sul, acompanhado por Chiquinho/SOS Amazônia, e Nonato, piloto da canoa, contratado com a assessoria do Chico. O objetivo dessa viagem foi conhecer os conselheiros do PNSD da Área Sul para que eu tivesse o primeiro contato com os conselheiros e tivéssemos uma prosa para explicar sobre o que era intercâmbios, sua agenda e condições para participação. Nessa viagem conheci Seu Sebastião Pepes, Altemar, Sebastião Aragão e o vereador José Gadelha. Antes dela eu já havia conhecido, em decorrência de outro projeto do Padis/IEB, Benki e Francisco Pianko, os principais atores Ashaninka Conselho. Em dezembro viagem com esses conselheiros, excetuando os índios, e Seu Altemar, para Novo Airão e Silves, no Amazonas, quando realizamos o 1o

intercâmbio. (Barnes - Diários de Campo, 2002).

103 Povos que perderam o acervo lingüístico ancestral ou tradicional.

104 Utilizo esse termo para classificar atores sociais que estão localizados numa das categorias produzidas pelo Plano de Manejo do PNSD. É usual os servidores do Ibama e outros assessores e ambientalistas fazerem uso dessa classificação espacial para identificar os grupos sociais e instituições pertencentes ao Conselho e PNSD. Aproveitei essa concepção êmica (pelo menos no linguajar ambientalista) para referir-me, também, às demais instituições, como prefeituras e organizações indígenas ou não.

Ao contrário das tradicionais performances efetivadas nas RO, os conselheiros representantes das comunidades do PNSD nos intercâmbios se apresentaram mais publicamente. E foi assim que também fui inserido ou repelido dentro dos grupos, facções e redes políticas do Conselho.

Antes de partir para o primeiro intercâmbio, primeiro fiz uma viagem de visita aos conselheiros das colocações da área Sul do Parque, onde vivem Seu Amarísio (Rio das Minas), Seu Altemar (Ouro Preto), Seu Sebastião Aragão (Juruá – Flora), Seu Sebastião Pepes (Juruá-Mirim). É oportuno lembrar que, no caso do Seu Altemar, conhecido como Tema, apesar de eu e Chiquinho termos feito diretamente o convite, em sua casa, tomando café à beira do rio Juruá-Mirim, esse conselheiro nunca participou dos intercâmbios, ou mesmo das reuniões ordinárias. Os analistas ambientais e demais funcionários do Ibama sempre manifestaram seu descontentamento com esse conselheiro. Ouvi, em campo, de várias pessoas do Ibama e SOS Amazônia, que Tema realizava atividades degradantes dos recursos naturais, especificamente quanto ao estoque mineral de pedra pomes existente na área sul na região do Juruá-Mirim. Com isso, seu caso foi utilizado em RO como atenção aos conselheiros quanto à necessidade da edição de um Código de Ética do Conselheiro.

Dentre todos os conselheiros de comunidades, Seu Amarísio é um dos que mais se apresenta e fala de suas idéias de ser um líder defensor do meio ambiente e do direito de suas famílias permanecerem no Parque como aliados e prestadores de serviço de conservação/fiscalização. Seu Amarísio, aliás, é reconhecido como grande conhecedor da biodiversidade da região e presidente da Associação dos Povos do Rio das Minas. Apresenta de maneira firme sua vontade de mobilizar os membros de sua comunidade, bem como de colocações vizinhas, para a proteção dos recursos do Parque, e de buscar formas de uso dos recursos naturais calcadas no extrativismo e conhecimento da floresta. Entre os conselheiros de comunidades e colocações de famílias de seringueiros ou pequenos agroextrativistas, é o que mais expressa suas idéias por meio da oratória. Esse filho de seringueiros não fala muito, seguindo o ethos das comunidades seringueiras em situações de diálogo com autoridades. Mas sua voz tem a característica de refletir o desejo de permanecer vivendo e se reproduzindo no espaço onde nasceu, herança de seus pais, que para ali se dirigiram, vindos do Nordeste, para ocupar os seringais do Alto Juruá.

Durante uma reunião do processo de intercâmbio e formação de conselheiros, quando estava na presença dos representantes Ashaninka da aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Rio Amônia/TIKRA, em 24/05/04, Amarisio assim definiu seu papel em duas reuniões:

[O contexto de sua fala dizia respeito às manifestações dos Ashaninka sobre sua luta contra os madeireiros invasores financiados por comerciantes do Peru nas terras dos Ashaninka da TIKRA e no PNSD] Para nós, os peruanos também estão

desmatando nas regiões do Paratari, Rio das Minas. Mas também existem moradores e outros de fora que estão caçando dentro do Parque. Chega a ter 14 canoas de caçadores que vendem o produto no mercado de Porto Walter. Eu falei para esse pessoal: – vocês estão bem, mas nós estamos mal de vida. Destruir não é

bom. Bom é preservar. Existem oito marreteiros comprando carne de caça de

membros da comunidade. Nós somos 500 pessoas divididas em 36 famílias. E no Rio das Minas nós prendemos mesmo os caçadores. No entanto o pessoal do Ouro Preto ajuda os caçadores. E lá no Ouro Preto não têm conselheiro. [Já na 5ª

Reunião Ordinária, diz]: Eu, como representante do conselho, teria que representar

essa associação. Mas não tenho condições, pois não tenho recursos do Conselho para deslocar-me pela área. Eu quero trabalhar com essa nação de Porto Walter e do Vale do Juruá, mas não tenho condições, pois eu não ganho nada para sair da minha comunidade, da minha origem, para ir até a comunidade, Ouro Preto. Se chegasse ao meu alcance trabalhar com esse povo do Ouro Preto talvez eu organizasse, com todo respeito, toda delicadeza, sentado com eles, conversando, tomando um café, explicando assim ... Porque o meio ambiente é assim. Eu estou capacitado, pois minha cabeça está bom para trabalhar. Mas eu não tenho recursos financeiros para isso. Mas eu tenho prazer de ajudar o meio ambiente,

que é, no meu pensar, o futuro da nação e de todo povo do Vale do Juruá. Não é

só o município de Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Mâncio Lima.

Seu Amarísio, assim, apresenta sua proposta e idéia de ser um conselheiro aliado dos projetos de preservação do Parque. Isto é, requerendo o direito de viver nas áreas a que o Parque se sobrepõe. Sua fala dá ênfase ao seu papel de defensor do ambiente por meio do diálogo e da pedagogia das conversas ao sabor de um cafezinho. Sua bandeira, mesmo que

não tão declarada, é uma manifestação da região do Conselho. Essa categoria, povos, extrapolou a esfera dos grupos indígenas, enquanto conjunto identificado como alteridade, derivação étnica, racial ou cultural. Nesse contexto também vem sendo apropriado pelos representantes políticos e institucionais do Governo do Acre, com a expressão “Governo da floresta, da florestania”, cuja característica de gestão é o reconhecimento de que a cidadania deve ser alcançada aos povos da floresta (índios e seringueiros).

Essa narrativa também possui componentes de temas messiânicos, especialmente no tocante à questão da figura ou pessoa daquele que é capaz e predestinado a liderar e guiar um povo, ou povos, para uma nova condição de ser em outros territórios a serem conquistados ou buscados. Seu Amarísio, cantador e violeiro do Alto Juruá, é uma liderança que irá busca conscientizar seu povo da importância da conservação da floresta em que vive, em comum com seus antepassados há mais de um século. Nesse caso, a grande viagem messiânica do povo do Rio das Minas é rumo ao seu mesmo lugar. Ou seja: as colocações em que vivem, cujas áreas foram abarcadas pelo Parque, mas onde querem continuar a viver e a se reproduzir.

Seu vizinho, Sebastião Aragão, representa aquele grupo de conselheiros de comunidade que pouco fala nas reuniões ou mesmo nos demais eventos do processo de formação do Conselho105

. É morador da comunidade Flora, localizada próxima à Fazenda Flora, situada na margem direita do rio Juruá, nas terras do município de Marechal Thaumaturgo. Nas praias do rio Juruá próximas à casa de Seu Sebastião Aragão é realizado o Projeto de Monitoramento de Quelônios, executado pela SOS Amazônia e Ibama. Esse conselheiro é monitor do projeto, recebendo uma bolsa para acompanhar o processo de reprodução dos “bichos de casco” (tartarugas e tracajás) que estão em extinção nesses trechos do Alto rio Juruá. Nesse quadro ele sempre tem mais interesse em falar sobre projetos alternativos de reprodução de espécies animais e vegetais e meios de reprodução dentro do Parque ou outras áreas protegidas.

Seu vizinho e xará, Sebastião Pepes, morador de uma colocação situada na margem esquerda do rio Juruá, durante uma reunião de avaliação de intercâmbio, destacou fatos corriqueiros da viagem:

105 Esse fato sempre foi motivo de atenção da coordenação do Padis e que os intercâmbios deveriam ter capacidade de transformar.

(...) Foi boa a viagem para ter mais experiência. Aqui, no Alto Juruá, é

igualmente lá fora [referindo-se à Resex do Alto Juruá]. Aqui [Resex] existe financiamento para os agricultores. Lá no Parque não tem nada. Se nós não trabalhar, nós não vamos comer. Nós não temos ajuda do Governo.

De Porto Walter apresento Seu Gadelha. Vereador, atual vice-prefeito e morador106

do município de Porto Walter, é dono de uma marcenaria. Mesmo sendo morador da sede urbana desse município, tem estreita ligação com as famílias e colocações seringueiras do Alto Juruá107

. Filiado ao Partido Comunista do Brasil, esse pequeno empresário espelha em suas falas as necessidades dos moradores do Parque:

Esse pessoal que mora dentro do parque carrega uma carga muito pesada. Mesmo trabalhando sem ter o problema do parque, eles não têm uma vida digna. O que mais me preocupa nesse parque é que ele já vai para 15 anos de sua aprovação e os senadores que votaram nesse parque não estão mais na legislatura. O que me preocupa muito é porque uma pessoa, um trabalhador do campo, da beira dos rios, tem a mesma preocupação na vida que já os outros têm. E esses trabalhadores do campo têm graves problemas em suas vidas. E se você analisa a preocupação de eles não terem no mínimo seus projetos e

plantações efetivadas. A maioria dessas pessoas está parada, como no caso do rio que vai comendo o barranco e logo, logo a casa vai desbarrancar, aí não se coloca mais um pau nessa casa, pois ela vai cair. Os moradores do Parque estão nessa situação. Hoje, nosso

país é democrático, e gira em torno da política. É a política que bota presidente do Ibama, chefe do Parque. As coisas vão se estendendo e os sonhos dos trabalhadores vão por água abaixo.

Seu discurso refere-se ao pessoal, trabalhadores do campo, moradores da beira dos rios. E, usando tom de representante político, enfatiza a questão da condição de vida daqueles que vivem nas colocações, seja pela condição de servos dos patrões ou de moradores do Parque em situação de paralisia diante do desmoronamento de seu território. Destaca a relação existente entre o sistema de aliança política estabelecida entre o Governo, seus aliados e a posse dos chefes do Ibama no Acre e no Parque.

106 Faço esse destaque quanto ao fato desse representante morar em Porto Walter, uma vez que há casos de vereadores e prefeitos nas regiões amazônicas que não residem em suas zonas eleitorais. Muitas vezes esses atores institucionais da representatividade política estão situados em Cruzeiro do Sul ou mesmo Rio Branco. 107 Irmão de um contador de história famoso na região, chamado Caçador, também domina bem a oratória e arrisca suas histórias rimadas.