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4 Analyse

4.4 Analyse av funn i gruppeintervju av elever

no Conselho, circulam os Ashaninka, Nukini e Naua. Como dito por Moisés Ashaninka,

índio não é todo igual (Pimenta, 2002). Essa frase demonstra a grande diversidade de

projetos políticos existentes entre os índios, bem como a complexidade das relações interétnicas entre os distintos povos indígenas no Alto Juruá, com histórias e estratégias de contato diferenciadas, seja no trato e relacionamento com a sociedade nacional, seja no trato das relações entre aldeias e vizinhos.

Situados distante geograficamente de Cruzeiro do Sul, capital do Alto Juruá, os Ashaninka da Apiwtxa administram uma porção de terras no extremo sul do Parque, no município de Marechal Thaumaturgo. Do outro lado estão os Nukini (vizinhos do extremo norte) e Naua (no seu interior, área norte); no lado oposto, também diferem muito em suas estratégias sociopolíticas e entre os Ashaninka. Essa diferença vem sendo demarcada com relação às reivindicações territoriais dos Nukini e Naua junto aos aparelhos de Estado (Ministério da Justiça – MJ e Funai) para a demarcação de terras.

Entre os atores que circulam no Conselho, por diversas ocasiões ouvi a observação de que os Ashaninka são o oposto dos Nukini. E numa questão, nesse momento, os dois grupos indígenas vivem condições bem distintas: enquanto na agenda dos Nukini está a questão da ampliação do reconhecimento pelo Estado de suas terras tradicionais, os Ashaninka não estão reivindicando ampliação de terras, mas, sim, a vigilância e a fiscalização de suas áreas, bem como a criação de áreas protegidas no entorno de suas terras, visando a proteger seus territórios.110

110 Brevemente cito que a questão das invasões de madeireiros vindos do Peru na fronteira Brasil/Peru vem sendo denunciada, com protagonismo e com uso da internet, pelos Ashanika, localizados numa longínqua aldeia nas cabeceiras do Vale do Juruá. Mas suas terras vêm sendo invadidas para a retirada ilegal de madeira. Eu mesmo participei de uma expedição de reconhecimento dessa querela envolvendo o grupo da aldeia Sawawo e Apiwtxa. Sendo o caso, dito por Txai Terri Vale de Aquino, de um mesmo grupo indígena que, mirando-se no espelho, reflete projetos políticos de relações interétnicas opostos: de um lado, os Sawawo, em busca de contratos com os madeireiros peruanos, com financiamento do Estado Del Peru para equipar sua aldeia com pista de pouso, escola, televisão, energia solar, radiotransmissor e carro; do outro, o grupo da Apiwtxa, no Brasil, voltado para a conservação da floresta sem a derrubada de madeira, mas, ao contrário, com uso de técnicas de agrofloresta associadas aos conhecimentos tradicionais de uso dos recursos naturais, recebendo apoio de ONGs, agências de desenvolvimento internacional e universidades.

Os Naua, por sua vez, ressurgem no final da década de 90, assessorados pelo CIMI, e contando com o apoio do Administrador Executivo Regional da Funai no Acre, Antônio Pereira Neto, que inclusive fez um dos trabalhos periciais de reconhecimento da identidade étnica desse grupo, a qual foi questionada em juízo pelo Ibama, em consórcio com a SOS Amazônia.

Vindo do sul, da TI Kampa do Rio Amônia, aldeia Apiwtxa, Francisco Pianko é atualmente titular da pasta da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Governo do Acre, além de ser ex-presidente da Apiwtxa, associação indígena, pessoa jurídica dos Ashaninka que vivem nessas terras brasileiras do rio Amônia. Francisco defende o Parque como forma de proteção dos recursos naturais necessários à reprodução física e cultural do seu povo e demais comunidades da região.

Esse sub-grupo Ashaninka passou a estabelecer novos projetos territoriais advindos do processo de reconhecimento de suas terras e cultura pela Funai, em meados da década de 70. Hoje, especialmente os membros da família Pianko, os filhos de Dona Piti e Seu Antônio, uma seringueira e um Ashaninka filho de curaca (líder), que geraram Francisco, Moisés, Dora, Isaac, Benki, Bebito, Alexandrina111, o qual nesse período destacou-se entre

esse grupo Ashaninka, por reverter a relação de exploração comercial e dependência com os patrões madeireiros da região, especialmente Seu Orleir Camelli112

, após a demarcação da TI Kampa do Rio Amônia.

Em conseqüência de conflitos e cisões internas, os Ashaninka do rio Amônia se dividiram em duas grandes colocações e países: de um lado a aldeia Sawawo, aberta com apoio do governo e comerciantes de madeira no Peru, e, do lado brasileiro, parte desses Ashaninka, liderados por Antonio, os quais fundaram a aldeia Apiwtxa, mais próxima do início de sua área, localizada próximo à Resex Alto Juruá e PA Rio Amônia. Na Apiwtxa, foram abolidas práticas como a criação de porcos, gado, extração de madeira. E investiu-se nos sistemas agroflorestais tradicionais e em outras tecnologias de uso da floresta, pautadas na sua conservação113

.

111 Dentre tantas outras crianças que foram cuidadas e criadas pelo casal e sob o olhar de Dona Piti.

112 Orleir chegou a ser governador do Acre, dono dos maiores comércios e empresas de navegação no Alto Juruá.

113 A CPI-Acre, sob a coordenação de Renato Gavazzi, apóia a formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas, da qual Benki fez parte, e que hoje possui a Amaiac – Associação dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre.

Hoje, os Ashaninka da Apiwtxa são seguidamente mencionadas como referência quanto à implementação de uma gestão ambiental sustentável, visando a manter a floresta em pé, com toda sua biodiversidade ambiental e cosmológica. Tomo o fato de Francisco ser o primeiro índio acreano e brasileiro a assumir um posto no nível hierárquico de secretário de Estado na gestão do governo do Acre, também autodenominado Governo da Floresta, como indicador da significação e abrangência da performance política dos Ashaninka m face dos processos de articulações interétnicas no cenário local e global.

Benki, por sua vez, ocupou o posto de Francisco na Apiwtxa. Agente Agroflorestal Indígena, vem se destacando na política local de Marechal Thaumaturgo, assim como seu irmão, e passou a ocupar a pasta de Secretário de Agricultura e Meio Ambiente. Seu posicionamento dentro do Conselho vem sendo pautado por defender a floresta, seus símbolos e seus poderes. E também por buscar aliança com os seringueiros para esse processo de uso sustentável da floresta:

Vocês do PNSD também têm uma história de massacres e escravidão no tempo dos patrões. É hora de pensar em mudar isso. Saber fazer do trabalho em agrofloresta uma alternativa de vida, pensando o uso não só no presente como também no que as crianças irão ter no futuro. E defendi que as famílias possam migrar para os PAF visando um uso da Floresta de longo prazo.

De outro lado deste cenário estão os Nukini e Naua, na região da Serra do Moa, numa das regiões identificadas pelo Plano de Manejo para exploração ecoturística, tendo cachoeiras e belezas naturais mais exploradas para o turismo nessa região. Os Nukini têm uma história de contato que os levou a ter na criação de gado uma opção de geração de poupança e renda para além da questão alimentar. Suas terras foram identificadas e demarcadas no mesmo período dos Ashaninka da TI Kampa do Rio Amônia. Desde o fim da década de 90, os Nukini vêm solicitando à Funai a ampliação de suas terras. Motivo de grandes conflitos com o Ibama e a SOS Amazônia, atores que protagonizam o

funcionamento do Parque.

Assim, nesse caso, os Ashaninka não só falam uma língua de um tronco lingüístico (Arawak) distante dos Nukini (Pano), como possuem sistemas ambientais diferentes e projetos em sentidos opostos. O que torna o jogo comunicativo bem idiossincrático,

demarcando, definitivamente, situações de profundas diferenças quanto às estratégias de relacionamento dentro do sistema de fricção interétnica e exploração dos recursos ambientais.

Aliás, uma das reivindicações dos atores da SOS Amazônia e Ibama era pela realização de um intercâmbio entre os Nukini e Ashaninka. A idéia é fazer com que experiências indígenas sirvam de referência para outros no manejo dos recursos ambientais. Mas nesse movimento são esquecidas rivalidades e inimizades históricas entre esses dois grupos étnicos. Até o momento esse evento só foi realizado parcialmente, quando, no 3o

Intercâmbio, Ribamar Nukini participou da visita à Resex do Alto Juruá e TI Kampa do Rio Amônia.

De um lado, Francisco Pianko acredita ser correto que as pessoas saiam do parque

entendendo-a como uma área de bem comum e que continuem defendendo o parque (...)

quando forem morar nos assentamentos vizinhos. De outro, Paulo Nukini reclama por terras na Serra do Moa, dizendo que (...) nós não precisamos de termo de referência. Nós temos

os nossos pactos, nossa forma de produzir o roçado e tudo mais. Seu irmão, Ribamar

Nukini, preocupa-se com a questão da superação da dependência com relação ao patrão. Dessa forma pergunta, numa das reuniões do intercâmbio na Resex do Alto Juruá:

(...) se vocês romperam com os patrões, então como fica isso após 16 anos

da criação da reserva? Vocês não conseguem ter uma boa administração das cantinas. Que liberdade do patrão é essa?

No decorrer do 3o

intercâmbio, Ribamar me contou que havia trabalhado como mateiro para a Petrobras no processo de pesquisa dos recursos em toda região do Alto Juruá. Durante o processo de intercâmbio, ele várias vezes manifestou sua preocupação com relação à falta de legitimidade das lideranças frente às suas comunidades. Outro ponto que o deixou impressionado foi a decretação de extinção da atividade de criação de bovinos entre os Ashaninka.

Participa também dessa arena Luis Nukini, presidente da Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira – Opirj, situada em Cruzeiro do Sul. Essa organização administra atualmente um DSEI, por meio de convênio com a Funasa para atendimento à saúde dos

povos indígenas do Alto Juruá. Jovem representante indígena, tímido, durante o intercâmbio na Esec Anavilhanas ficou muito atento para a situação das comunidades inseridas nos projetos dos ambientalistas:

Lá em Anavilhanas o Ibama prometeu coisas para as comunidades, mas não cumpriu com a sua palavra. Há dificuldades. E nós devemos lutar para dar mais condições dignas para as comunidades daqui.

Seu discurso também retrata os não índios, as comunidades daqui. Além disso, Luís sempre destaca a importância das parcerias. Termo muito utilizado no campo das organizações da sociedade civil e governamentais.

4.3.5 SINDICATOS DOS TRABALHADORES RURUAIS – STR, E CONSELHO