O diálogo é o mais importante modo de interacção humana. Através de uma simples conversa podemos conhecer outras pessoas, as suas experiências, sentimentos, aspirações/expectativas e o mundo em que vivem.
Na investigação qualitativa, recorre-se frequentemente às entrevistas, como forma de se estabelecer um diálogo, a partir do qual se obtém conhecimento/informações (Yin, 2005). Quando terminámos a fase de análise documental que nos permitiu caracterizar e conhecer o contexto da escola em estudo, utilizámos a entrevista semi-estruturada (Bogdan et al, 1994), com o objectivo de compreender as suas percepções sobre a escola e as características, estratégias, influências e efeitos da(s) sua(s) liderança(s).
De acordo com Erasmie & Lima (1989), uma entrevista é uma conversa cuidadosamente planeada que visa obter informações sobre crenças, opiniões, atitudes (Albarello et al, 1997; Werner & Schoepfle, 1987, cit. por Bogdan e Biklen, 1994), comportamentos e conhecimentos do entrevistado relativamente a certas questões ou matérias (p. 85). Muitas outras definições existem sobre a questão (Bardin, 1995; Bisquerra, 1989; Bogdan, 1994; Kvale, 1996; Villar Ângulo, 1988) mas todas elas giram à volta desta conceptualização; em suma poder-se-á dizer, e citando Bisquerra (1989: 103), que a entrevista é “uma conversa entre duas pessoas iniciada pelo entrevistador com o propósito específico de obter informação relevante para uma investigação”.
Em todo o caso, por vezes, a entrevista pode envolver mais pessoas. A preparação e desenvolvimento da entrevista revelam-se fundamentais para o sucesso da mesma (Albarello, 1997; Erasmie e Lima, 1989). Isto é, segundo Erasmie e Lima (1989: 89-90) esta deve passar por cinco fases: i) o estabelecimento do contacto; ii) a fase introdutória da entrevista; iii) a fase intermédia da entrevista; iv) a fase principal da entrevista e v) a conclusão da entrevista. Os mesmos autores defendem ainda que, em primeiro lugar, o entrevistado deve ter conhecimento do objectivo da entrevista; depois que o entrevistador inspire confiança e crie uma relação de credibilidade com o entrevistado e, finalmente, que seja dada, ao entrevistado, a possibilidade de responder de forma independente e espontânea.
Como em todas as ténicas, também a entrevista tem as suas vantagens e limitações. Quanto às primeiras, e de acordo com Villar Ângulo (1988: 23), “a entrevista facilita a descoberta do significado que permanece implícito no pensamento [dos professores], permitindo-nos compreender as suas concepções da realidade e o sentido e significado que atribuem às suas acções.” Outro autor, Valles (1997: 196) refere como principais vantagens das entrevistas semi-estruturadas: “i) a possibilidade de acesso a uma grande riqueza informativa (contextualizada e através das palavras dos actores e das
suas perspectivas); ii) a possibilidade do/a investigador/a esclarecer alguns aspectos no seguimento da entrevista, o que a entrevista mais estruturada ou questionário não permitem; iii) é geradora, na fase inicial de qualquer estudo, de pontos de vista, orientações e hipóteses para o aprofundamento da investigação, a definição de novas estratégias e a selecção de outros instrumentos.”
Por sua vez, Albarello (1997) refere, remetendo-se às desvantagens desta técnica de pesquisa, que ao interrogar um indivíduo como sendo representante de um grupo social, pode correr-se o risco de não ser o pensamento comum a este mesmo grupo pelo que o investigador deverá estar muito atento, aquando da análise e interpretação dos dados. Para além disso, aponta ainda a subjectividade que o contexto da entrevista pode causar, enviesando as respostas do entrevistado que, noutro contexto, poderiam não ser essas. Bardin (1995) refere que nesta relação dialógica que se estabelece entre duas ou mais pessoas, o espírito teórico do investigador deve manter-se continuamente atento, para que as suas próprias intervenções se traduzam em elementos de análise tão frutíferos quanto possível. Num estudo de natureza qualitativa, o modo como o investigador se posiciona na condução e desenvolvimento de determinada investigação tem “repercussões não só ao nível dos resultados obtidos, mas também no decurso da própria investigação, na medida em que reflectem os seus pressupostos (pessoais) epistemológicos e filosóficos” (Flores, 2003: 404).
As entrevistas qualitativas variam quanto ao grau de estruturação. No nosso caso, optámos por entrevistas semi-estruturadas (Bogdan et al, 1994) ou semi-directivas (Albarello, 1997; Quivy et al, 1992), para que, apesar do guião elaborado pelo entrevistador, os entrevistados tivessem liberdade para desenvolver as situações na direcção que considerasse adequada (Marconi et al, 1990), podendo explorar, de uma forma flexível e aprofundada, os aspectos que considerassem mais relevantes.
Quivy et al (1992: 194) salientam que a entrevista semi-directiva ou semi-dirigida “não é nem inteiramente aberta, nem encaminhada por grande número de perguntas precisas. Geralmente, o investigador dispõe de uma série de perguntas-guias, relativamente abertas, a propósito das quais é imperativo receber uma informação da parte do entrevistado. Mas não colocará necessariamente todas as perguntas na ordem em que as anotou e sob a formulação prevista.”
Na presente investigação, e procurando seguir as etapas defendidas por Erasmie e Lima (1989), os entrevistados foram contactados pessoalmente. Estes demonstraram desde logo receptividade, colaboração e disponibilidade para a participação neste estudo de caso. Aos intervenientes foram dadas todas as informações inerentes à investigação (o tema e os objectivos da investigação, o porquê da sua selecção, e o fundamento e importância das suas entrevistas para este estudo).
No decorrer das entrevistas, foi utilizada uma linguagem clara e acessível, motivando o entrevistado a responder, para que a informação recolhida fosse a mais alargada possível, uma vez que grande parte do sucesso de uma investigação depende do estabelecimento de uma relação de empatia entre o
entrevistador e entrevistado, para que ele se sinta à vontade, “descontraia e não se sinta empurrado” (Lessard-Hérbert et al, 1994: 165).
Foi nossa intenção que estas entrevistas nos permitissem cumprir com os objectivos que traçámos para a presente investigação e auscultar o ponto de vista dos diferentes actores educativos (Órgão de Gestão [Presidente; Vice-presidente e um Assessor – pedagógico], a Representante dos Encarregados de Educação e Pessoal Não Docente [a responsável]), procurando compreender o significado das suas experiências e seguir a linha do interlocutor e, ao mesmo tempo, zelar pela pertinência das afirmações relativamente ao objectivo da pesquisa, pela instauração de um clima de confiança e pelo controle do impacto das condições sociais de interacção sobre a entrevista. (Albarello, 1997:95). As entrevistas foram realizadas num ambiente calmo, a partir de Novembro de 2008 e tiveram a duração média de uma hora.