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D ESCRIPCIÓN DEL ALGORITMO Closest Gap (CG)

2.3 Análisis de gaps

O ecletismo se manifesta no Pará na segunda metade do século XIX, por volta dos anos de 1870, quando começa o aumento da exportação da borracha da Amazônia. Belém, pela sua localização geográfica, referenda o papel de entreposto comercial da região, como o principal porto de exportação da borracha e torna-se centro do mercado mundial do látex. O processo de urbanização pelo qual a cidade passa a partir da segunda metade do século XIX está diretamente ligado aos setores de comércio e serviço.

O enriquecimento da população influente formada por seringalistas, comerciantes, financistas e profissionais liberais, começa a exigir transformações, e em nome do progresso, essa elite vai direcionar as mudanças na cidade para viver a Belle-époque10.

Colaborando com esse cenário, tinha-se também como atores Augusto Montenegro, Governador do Estado, e Antônio Lemos, Intendente da cidade, que comungavam dos mesmos ideais de modernidade. O plano de modernização urbanística adotado por Lemos priorizava a higiene e saúde pública e tem como exemplo a reforma urbana da cidade de Paris implementada por Haussmann.

O plano adotado por Lemos reformou basicamente a área central da cidade, considerado o lócus econômico e cultural, por onde circulavam o capital e os capitalistas, enquanto a periferia continuava insalubre e com escassez de habitação causada pelo aumento populacional, gerando uma visível separação entre essas áreas.

A redefinição do espaço urbano foi realizada através de instrumentos legais, como códigos de posturas, que iam desde o controle dos hábitos da população até o

10 A Belle Époque se caracteriza pela expressão do grande entusiasmo advindo do triunfo da

sociedade capitalista nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, momento em que se notabilizaram as conquistas materiais e tecnológicas, ampliaram-se as redes de comercialização e foram incorporadas à dinâmica da economia internacional vastas áreas do globo antes isoladas. Época marcada pela crença de que o progresso material possibilitaria equacionar tecnicamente todos os problemas da humanidade. Nesse contexto, as cidades assumiram redobrado valor como locus da atividade civilizatória, espaço privilegiado para usufruir o conforto material e contemplar as inovações introduzidas pela modernidade. Para isso, as cidades precisavam renovar suas feições de modo a se mostrarem modernas, progressistas e civilizadas. As cidades modernizadas constituíram então a maior expressão do progresso material e civilizatório de um período que se convencionou chamar de

código que regulamentava as construções quanto à disposição no lote até a ornamentação das fachadas (SARGES, 2000).

Como a burguesia do café, a elite do Pará, também tinha como referência a Europa e queria reproduzir aqui os tipos e modelos admirados lá. Assim, nessa época, Belém vivencia importante experiência de modernidade, como uma cidade localizada na periferia do mundo capitalista do século XIX.

O ecletismo sendo a manifestação arquitetônica própria da modernidade vinha ao encontro dos anseios dessa burguesia, que, como nos demais lugares do mundo, valorizava o conforto, amava o progresso e as novidades, e foi a responsável por alterar as tipologias das residências no que diz respeito aos avanços técnicos e distribuição interna com novos programas, assim como, na evolução das tipologias dos grandes hotéis, grandes lojas e grandes teatros, bancos e escritórios.

No espaço público, Lemos alargou, abriu e calçou ruas, praças foram construídas ou remodeladas e a cidade foi dotada de rede esgoto, de sistema de distribuição e tratamento de água potável além do estabelecimento dos serviços de limpeza, iluminação pública, de bonde, entre outros.

Nessa época, importantes prédios foram construídos como o Colégio Gentil Bitencourt e outros foram adequados aos novos padrões estéticos como o Teatro da Paz e o Palácio do Governo (Fig. 27 e 28).

Fig. 28 - Teatro da Paz depois da reforma Fonte: Cartão Postal [s.d.]

Fig. 27 - Teatro da Paz antes da reforma, com sete colunas e sem os medalhões representando as artes.

Fonte: Disponível na Biblioteca Fórum Landi (em desenvolvimento (Entre 1840 e 1900)

Em função do aumento do poder aquisitivo da população ocorreu também um aumento expressivo do número de construções privadas, com a utilização recorrente de materiais de construção importados como: grades de ferro, condutores de águas pluviais, azulejos, entre outros (DERENJI, 1987).

Exemplos emblemáticos são: a loja de tecidos Paris n‘América, cujo nome é bem significativo do espírito eclético da sociedade da época, a loja tinha um mezanino e o segundo e terceiro pavimentos eram ocupados pela residência do proprietário. O conjunto formado pelo Palacete e Vila Bolonha, um correr de casas residenciais para aluguel, em seguida ao palacete de propriedade do engenheiro Francisco Bolonha entre outros e a Livraria Universal (Fig. 29).

As alterações na arquitetura residencial na transição do século XIX para o XX ocorreu de forma gradual, conforme os hábitos e costumes advindos das transformações socioeconômicas e culturais iam sendo assimilados e incorporados a população.

Inicialmente, as modificações nas fachadas foram superficiais, conservavam a base das modenaturas do Classicismo Imperial Brasileiro e as modificações ocorriam principalmente nos elementos decorativos. Os cunhais que delimitam as fachadas agora eram arrematados por capitéis de alguma ordem clássica, ou mesmo de composição livre. Também eram comuns os dentículos na cornija e os vértices dos arcos plenos receberem ornamentos variados do vocabulário

Fig. 29 - Loja Paris N‘ América

renascentista ou barroco, como flor-de-lótus, flor-de-lis, volutas, rocaille, rosetas, mascarões entre outros (Fig. 30).

As esquadrias das janelas são normalmente em venezianas de madeira e vidro, a porta de entrada de duas folhas em réguas de madeira e a bandeira em grade de ferro substituindo o vidro das bandeiras das porta-janelas.

O desenvolvimento socioeconômico e cultural associado aos novos recursos técnicos e a importação de materiais permitia soluções plásticas cada vez mais complexas aos arquitetos e construtores. Assim, a significante arquitetura eclética residencial desempenhou importante papel não apenas como veículo de assimilação das inovações tecnológicas na mudança do padrão até então existente na arquitetura, mas também atuou como signo subjetivo que conotava a ideologia da elite da borracha.

Novas soluções arquitetônicas residências surgiram, como os chalés normalmente no centro dos terrenos, com seus telhados em grande inclinação em duas águas dispostos no sentido oposto ao da tradição luso-brasileira, estes com as empenas voltadas para as fachadas frontais e dos fundos. Também surgiram as casas com alpendres laterais, salientes, com coberturas independentes da cobertura do corpo principal do edifício, onde o conjunto dos elementos de ferro como lambrequins colunas e gradis tinha função estrutural, plástica e construtiva (REIS FILHO, 1995).

Porém, como esses modelos não são objeto de nossa pesquisa não se vai aprofundar nas suas singularidades. Vamos nos deter nas soluções de fachadas das

Fig.30 - Residência da transição do Classicismo Imperial Brasileiro Fonte: Maria Beatriz Faria (jun. 2013)

residências ecléticas, que guardam semelhanças com as residências do início e meados do século XIX, quanto a implantação no lote, construídas no alinhamento da via pública, sem afastamentos laterais em terrenos de pouca frente e volumetria compacta, mas em sintonia com os novos padrões estéticos do final do século XIX.

Normalmente as residências da segunda metade do século XIX têm as paredes externas construídas em tijolo revestido com reboco pintado, onde as paredes da frente apresentavam uma ornamentação seguindo motivos decorativos ou em outros casos, são revestidas de azulejos decorados, muito comumente de origem portuguesa. A seguir vão-se comentar algumas modenaturas ou detalhes comuns da arquitetura residencial eclética, que são extensões da linguagem clássica encontradas no centro urbano de Belém.

A fachada como a da Rua Dr. Assis têm na sua composição pilastras arrematadas por um entablamento dividindo seu paramento em módulos. Esta composição divide o paramento em três partes, com o modulo central maior que os dois laterais. No caso da foto abaixo, a platibanda é arrematada por dois frontões semicirculares situados na direção dos módulos das extremidades. Nesse paramento é essa composição que define a simetria da fachada, e não as aberturas dos vão. Os vãos são arrematados cor molduras lisa e cornijas horizontais (Fig. 31).

Outros modelos de frontispícios não se desenvolvem mais em um único plano como acontecia na arquitetura do Classicismo Imperial Brasileiro, mas apresentam uma variação sutil de plano com um pequeno ressalto em torno de 5 centímetros sobre o plano básico da parede da fachada, dando destaque ao enquadramento da janela. As platibandas recebem frontões decorados de formas variadas (Fig. 32).

Fig. 31 - Fachada com modenatura dividida por pilastras

Fonte: Maria Beatriz Faria (2013) Fig. 32 - Fachada desenvolvida em dois planos Fonte: Maria Beatriz Faria (2013)

Nas fachadas ecléticas existe uma grande variedade na forma dos vãos e seus enquadramentos. Por exemplo, existem envasaduras com vergas retas, outras são em semicírculos ou ogivais.

Arrematando a verga reta, é comum se ter frontão triangular ou cimbrado encimados ao paramento frontal da residência. Outro tipo de acabamento em envasaduras de verga reta é o enquadramento ser constituído por ombreiras com ornamentos usando os elementos das ordens clássicas como pilastras com capitéis sugerindo suportar um entablamento ou uma cornija, porém não necessariamente filiado a uma determinada ordem, mas em versões pessoais. Esses são elementos comuns do vocabulário clássico na gramática renascentista, presente em nossa arquitetura menor (Fig. 33 e Fig. 34).

A derivação da solução modelar do Renascimento de Bramante - balaustrada da janela acompanhando o pódio que apoia as colunas - encontra-se também em janelas de residências ecléticas com projetos sem autoria definida (Fig. 35).

A esquadria do período eclético foi um elemento de fachada que teve um significativo avanço do padrão de acabamento. Com o aparecimento das serrarias

Fig. 34 - Janela com verga reta com frontão triangular e ombreiras ornamentadas

Fonte: Maria Beatriz Faria Fig. 33 - Fachada com verga reta

com frontão cimbrado Fonte: Maria Beatriz Faria

mecânicas, foi possível se ter as peças de madeira aparelhadas, fato este, que aliado a importação de vidros planos e ferragens mais elaboradas que aquelas usadas no período colonial permitiu que os construtores passassem a utilizar detalhamentos mais minuciosos e tecnicamente mais elaborados nas esquadrias. As portas de entrada antes normalmente em réguas de madeira, no ecletismo, são via de regra, com três almofadas. Num modelo mais elaborado a almofada do meio é substituída por um postigo de grade e vidro. Também começam a aparecer os vidros planos decorados com motivos florais e os guarda-corpos com balaustres (REIS FILHO,1995). Na nossa arquitetura é nítida essa evolução da marcenaria, o que iremos detalhar no capítulo seguinte (Fig. 36).

Por fim, podemos dizer que a união de dois fatores contribuiu para que as fachadas ecléticas colaborassem para a transformação da paisagem urbana de Belém na transição do século XIX para o XX. O primeiro deve-se ao fato do ecletismo gozar de uma maior liberdade na composição dos elementos decorativos que compõem os frontispícios das edificações, por não estar limitado a um único estilo do passado e permitir uma variedade de modelos. O segundo fator foi o desenvolvimento técnico que colaborou para que essas fachadas alcançassem uma maior qualidade no padrão de acabamento.

Fig. 35 - Guarda-corpo com Balaustra seguindo desenho de Bramante. e esquadria com marcenaria elaborada

Fonte: Mariana Sampaio

Fig. 36 - Porta de madeira com trabalho de marcenaria elaborado

Todas essas modificações na arquitetura, criada sob o espírito da Belle Epoque, colaborou para na construção do cenário faustoso da cidade, agora, com: ruas largas calçadas e arborizadas; praças ajardinadas e equipadas com coretos e quiosques; novos prédios públicos e privados construídos em uma arquitetura impregnada de signos que conotam os anseios de modernidade e sofisticação da elite local e estrangeira; e de modernos serviços públicos. O que se apreende é o artefato cultural sendo ao mesmo tempo símbolo funcional e cultural. E essa Belém de sonhos, ficou impregnada na memória dos paraenses, e foi batizada de ―Belém da Era da Borracha‖.

Todo o lugar de fala ―Era da Borracha‖ é uma saudade do desconhecido. A figuração do ciclo do látex, portanto, conformava-se como um território do moderno o qual representa-se por meio de feixes de signos aos quais chamamos de semiotical blues. O termo não deixa de ter certa ironia. Refere-se a uma sensação alegórica de sentir a modernidade, própria às periferias do capitalismo no final do século XIX. Está presente a idéia de um passado faustoso, de passado modernamente civilizado, de uma urbanidade cosmopolita. Também está presente a idéia de uma destruição ágil e impiedosa dos signos anteriores (CASTRO, 2010, p. 29-31).

Completando esse capítulo, no próximo item vamos analisar a policromia e seu significado na arquitetura eclética porque no Ecletismo a cor é um item importante na composição das fachadas.