A partir de 2008, o NPEA passou a desenvolver um Programa de Arqueologia Preventiva5 nas rodovias BR-230: Transamazônica e BR-163: Cuiabá-Santarém, no sudoeste paraense. Essa pesquisa surgiu como uma oportunidade de estudar áreas ainda pouco conhecidas arqueologicamente no estado. Investigar áreas ao longo de empreendimentos lineares, como rodovias, oportuniza encontrar sítios arqueológicos em terra firme, a distâncias variáveis dos rios e, em geral, representativos de várias épocas diferentes de ocupação. De especial interesse para o grupo de pesquisa foi a área ao longo da Transamazônica, entre Itaituba e Rurópolis, onde foi possível registrar uma grande variabilidade de sítios arqueológicos, como sítios lito-cerâmicos de terra preta a céu aberto, um abrigo sob rocha com gravura, além de polidores e afiadores em afloramentos rochosos. A área é drenada por um grande número de pequenos igarapés e rios, todos afluentes do rio Tapajós.
De 2008 a 2010 foram escavados seis sítios situados ao longo da rodovia Transamazônica (os sítios Água Azul, Alvorada, Fazenda Cacau, Km 30, Pedro das Tintas e Serraria Trombetas). Em 2009 e 2010, coordenei as pesquisas de campo em quatro desses sítios arqueológicos (os sítios Serraria Trombetas, Fazenda Cacau, Pedro das Tintas e Água Azul), o que me permitiu me familiarizar com a arqueologia local. Em 2010, enquanto discente do curso de Especialização em Arqueologia na UFPA, realizei um estudo da coleção cerâmica do sítio Alvorada. Essa pesquisa resultou na descrição detalhada da indústria cerâmica local e permitiu verificar semelhanças estilísticas em algumas peças cerâmicas da Tradição Inciso-Ponteada, que caracteriza os sítios nos municípios de Santarém e Belterra (baixo Tapajós), Juruti e Faro (rio Amazonas) e Oriximiná (baixo rio Trombetas).
5 Programa de Identificação e Salvamento do Patrimônio Arqueológico na BR-163 (Guarantã do
Norte/Entroncamento BR-230) e BR-230 (Miritituba/Rurópolis) (Schaan 2009), financiado pelo DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.
Para a pesquisa do Mestrado, resolvi então escolher outro sítio do grupo com potencial para pensar a ocupação dessa área, localizada a cerca de 250km ao sul da cidade de Santarém, em um contexto mais amplo, que envolvesse não apenas os sítios locais, mas também o conjunto de sítios que compartilham a Tradição Inciso-Ponteada. Portanto, a pesquisa tem como foco o sítio Serraria Trombetas, cujos dados em escala local serão confrontados com outros sítios arqueológicos do mesmo contexto regional investigados por outros pesquisadores (Duarte Filho 2010; Gomes 2008; Martins 2010; Schaan 2009, 2012; Stenborg 2009, et. al. 2012).
Nesse sentido, a pesquisa ocorreu em dois níveis: um nível local, de estudo detalhado do espaço intra-sítio (Household Archaeology) como um microcosmo de uma história regional (Jongsma e Greenfield 2003); e um nível regional, de comparação dos resultados locais com a cronologia e as características regionais de determinado sistema social. Considerando que um sítio arqueológico é uma unidade que está inserida em um contexto mais amplo que o significa socialmente, a perspectiva regional é necessária para o entendimento da articulação cultural de diversos grupos indígenas. Isso se deu através da comparação dos resultados obtidos (escala local) com o contexto arqueológico da região.
A Household Archaeology pressupõe que um espaço habitacional é formado por áreas com usos e funções diferenciadas, e que podem ser identificadas em um sítio arqueológico. A cultura material é remanescente de várias atividades básicas sendo que seu mapeamento no espaço intra-sítio pode esclarecer sobre a organização social dos espaços habitacionais (Jongsma e Greenfield 2003). Jongsma e Greenfield (2003) apontam a dificuldade dos arqueólogos em se chegar à definição do ambiente doméstico ou agrupamento familiar, isso em virtude das diferenças culturalmente vistas, que demonstram formas diferentes de padrões residenciais, estruturas de parentesco e funções domésticas. Tecendo uma breve crítica ao uso de modelos etnográficos, os autores afirmam que os etnógrafos são importantes fornecedores de dados para a arqueologia; entretanto, a forma de abordagem e organização do que é visto em campo, não faz jus a real importância das unidades residenciais dentro do espaço doméstico de uma comunidade, e sobre o próprio entendimento que os grupos observados têm do seu espaço familiar.
Os autores indicam que o ambiente familiar pode ser identificado através das coisas que constituem esse espaço, geralmente através da casa e de tudo que direta ou indiretamente esteja associado a ela, como os poços de armazenagem, enterramentos, etc. Este tipo de
abordagem permite conectar vários espaços dentro de um mesmo contexto, e compreender o uso destes espaços e suas relações. Essa abordagem assume que o círculo doméstico é uma representação menor de um todo, e que as relações sociais externas continuam dentro do ambiente familiar, como uma micro-sociedade, conectada com os outros espaços de circulação. Desta forma, áreas destinadas para moradia, ou circulação, ou preparo de alimentos, ou enterramentos, apresentarão diferenciados processos formativos do registro arqueológico bem como materiais culturais associados a essas atividades, que por sua vez são o registro material das práticas sociais (Jongsma e Greenfield 2003).
Isto não afirma que um objeto tenha seu uso restringido por uma função específica, podendo circular no espaço habitacional e assumindo várias etapas de utilização, que em conjunto marcam sua biografia cultural (Kopytoff 2008). No entanto, a análise deve ser contextualizada, devendo-se observar o objeto inserido em um conjunto de materialidades que marcam escolhas sociais e o comportamento do grupo que o coloca em movimento no espaço intra-sítio.
Os métodos acessados para a interpretação do espaço habitacional somam informações etno-históricas, remanescentes botânicos e faunísticos, estudo do processo de formação do registro arqueológico, e o estudo da cultura material, em que as análises devem ser orientadas para esclarecer questões sobre marcas de uso nos artefatos, função, morfologia e contexto de deposição desses materiais.
Com base nos pressupostos da Household Archaeology, identificamos no sítio áreas com práticas de enterramentos, de combustão, e de descarte de um recipiente cerâmico que remete a uma ocupação mais antiga. Neste sítio foram identificados dois enterramentos secundários em urnas funerárias, associados a uma quantidade significativa de artefatos cerâmicos com motivos iconográficos variados, além de adornos líticos, tortuais de fuso, vasilhames inteiros e semi-inteiros, artefatos polidos e lascados, óxido de ferro (provavelmente utilizado como corante para a pintura vermelha das cerâmicas), e restos de alimentação (material ósseo friável). Dessa maneira, a caracterização estilística dos artefatos encontrados no contexto do sítio poderia ser confrontada com as práticas funerárias (ainda desconhecidas arqueologicamente para essa área de estudo), assim como com artefatos de estilo semelhante à cerâmica das fases Santarém, Konduri e Pocó.
O estudo da cultura material envolveu a análise dos artefatos cerâmicos (quanto ao seu estilo, tecnologia de produção, tipologia e morfologia de vasilhas) e líticos. Foram analisadas amostras de solo das escavações de 2009, e selecionaram-se ainda alguns fragmentos cerâmicos para análises geoquímicas, das escavações realizadas em 2011, cujos resultados serão contextualizados com a análise quantitativa e qualitativa da cultura material, e as feições culturais para a identificação de áreas de atividades.