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4.   ANALYSE

4.2. R AMME 3

Segundo Monteiro (2006), a questão da relação tempo e espaço é um dos desafios da arquitetura, pois procura, ao fim e ao cabo, entender como se dá a relação do espaço com o seu uso (tempo). O modelo analítico adotado requer o conhecimento do uso e ocupação dos espaços, uma vez que o espaço doméstico é entendido como espaço habitado, impregnado de práticas cotidianas. Na arquitetura, os estudos sobre as mudanças de uso e ocupação procuram 105 No original: “can express many of the intentions of the designers and inhabitants by strongly isolating different sectors, differents categories of users...”. AMORIM, L. Houses of Recife – From diachrony to Synchrony, In: Anais do 3º International Space Syntax Symposium, Atlanta, 2001, pág. 3. (mimeo)

106 Amorim usou da narrativa de Saramago ao descrever a visita da morte ao violoncelista, em texto do livro Intermitências da Morte, Companhia das Letras, 2005.

107 O Distrito Federal é composto por vinte e nove (29) Regiões Administrativas (RA). A RA é o espaço geo-político- econômico com administração própria, mas subordinado ao Governo do Distrito Federal. De acordo como art. 32 da Constituição Federal, nenhuma RA pode ser politicamente autônoma, por isso elas não são municípios.

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identificar a maneira como os habitantes usam o espaço, e a partir daí construir a história da habitação. O caminho comumente percorrido é o estudo do programa de necessidades108, e

entre os trabalhos mais significativos nessa área estão os feitos por Lemos (1976, 1989, 1999). Os estudos de Lemos procuraram identificar as mudanças no programa de necessidades ao longo da história. Os estudos resgatam as origens da casa brasileira, são importantes referências como fontes de informações e como linha de abordagem na arquitetura. Lemos (1989) defende que as situações domésticas, ligadas aos hábitos e práticas de uma sociedade, devem ser favorecidas por condições propícias da edificação, elaboradas a partir do programa de necessidades.

Ao investigar a casa brasileira, desde as casas coloniais, passando pela casa do século XIX, chegando ao século XX, Lemos revelou características marcantes do habitar, a partir dos elementos condicionantes ou determinantes do partido arquitetônico: o programa de necessidades, a técnica construtiva, o clima e a intenção plástica. O estudo de Lemos é inovador ao dar ênfase nos aspectos sociológicos da moradia, mais do que nas suas qualidades arquitetônicas, decorrentes da técnica construtiva e a intenção plástica (SAMPAIO, 1990).

Aspectos da história da casa brasileira foram resgatados a partir da análise das zonas de serviço (LEMOS, 1976) e são fundamentais para entender o “caminho” percorrido por algumas dependências na estrutura da casa. Estes aspectos servirão de eixo para o entendimento do espaço doméstico do Distrito Federal. Espaços como a cozinha e o banheiro – que antes eram separados da casa por questões sanitárias e, no caso da cozinha, por questões sociais – são símbolos de riqueza e privacidade (LEMOS, 1976). Mesmo no Palacete da elite cafeeira, descendente da casa burguesa francesa, a cozinha foi uma das principais mudanças na moradia, mudança só permitida pelo abastecimento de água corrente nas residências. Segundo Homem,

Ela chegou primeiro ao andar de baixo, depois aos superiores [...]. A industrialização dos canos galvanizados e do material impermeável, a fabricação da torneira, bem como a invenção do sifão e da privada sifonada, patenteada pelos ingleses, permitiram que a água corrente passasse da pia da cozinha ao lavabo e ao w.c. e, daí, ao banheiro (1996:29).

108 Programa de necessidades é um rol das atividades cujo exercício se dará no espaço arquitetônico destinado a satisfazer às expectativas do cliente. Seria uma lista de funções programadas cuja abrangência deve incluir as condições da habitabilidade ligadas à segurança e ao conforto, ao clima, às intempéries (LEMOS, 1999:18)

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Mudanças na infra-estrutura, como a água distribuída por redes públicas, a chegada da energia elétrica, do gás que dispensou o fogão à lenha, até a popularização da televisão em meados do século XX, provocaram transformações nos hábitos e no cotidiano doméstico e, conseqüentemente, alteraram o programa de necessidades do espaço doméstico, nos últimos séculos, nas habitações brasileiras.

Homem (1996) estudou as origens do Palacete Paulistano ao considerar: a) a evolução do espaço doméstico e b) o morar tradicional paulistano até o surgimento do “morar à francesa”, em fins do século XIX e início do século XX. Aspecto interessante detectado no Palacete Paulistano, representado pela elite cafeeira, é a destinação de espaços exclusivos para a mulher e para o homem:

ao homem destinou-se o gabinete, lugar com entrada independente [...] ainda contaria com outros espaços também utilizados pelo elemento masculino: o fumoir, o bilhar e a biblioteca. À mulher reservou-se apenas um cômodo exclusivo, a sala da senhora, situada entre a zona de serviços, a sala de jantar e a sala de visitas (HOMEM, 1996:27).

Dentre os trabalhos que se aproximam da abordagem feita por Lemos, está o estudo desenvolvido por Veríssimo & Bittar (1999). Ao fazer uma retrospectiva das mudanças na utilização e status dos cômodos, ao longo dos 500 anos de história da casa brasileira, os autores procuraram, pela história do uso e da ocupação de cada cômodo, identificar o papel social na estrutura doméstica e reconstituir como se deram as mudanças nos diferentes períodos históricos.

Ainda sobre os estudos do espaço doméstico a partir do uso e ocupação, Gomes (1998) revelou características peculiares dos antigos engenhos de açúcar em Pernambuco. As origens e a importância de alguns espaços como o alpendre e a varanda, ou a sala de visitas e o quarto de hóspedes, são fundamentais para entender o status desses espaços na casa-grande e suas origens socioculturais. As rígidas regras impostas em relação ao espaço privado dos senhores de engenho, por exemplo, foram ressaltadas, e a formalidade existente no ato de receber visitantes e as limitações quanto à inserção destes no espaço de morar revelam importante traço do modo de vida no espaço doméstico.

Os trabalhos de Lemos (1976, 1979, 1989), Homem (1996), Gomes (1998) e Veríssimo & Bittar (1999) contribuem sobremaneira para o resgate das mudanças no programa de

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necessidade da casa brasileira. As mudanças sociais e culturais que interferiram no uso de alguns espaços e na criação de outros – em função das novas exigências de modo de vida – fizeram, por exemplo, que espaço como a sala de TV aparecesse, enquanto o quarto de hóspedes desapareceu do espaço doméstico. Essas informações são fundamentais para entender a importância de alguns espaços na habitação contemporânea.

O estudo das mudanças de uso, por meio da análise do programa de necessidades, não prima pelo significado do espaço interior para os usuários. Nesse aspecto, é um enfoque diferente das teorias ditas pós-modernas que analisam o espaço interno pelos sentidos, símbolos (signos) e significações. Ao contrário, aqueles estudos procuram mostrar como o espaço concreto é vivenciado em termos de uso (aspectos funcionais). Os aspectos sócio- culturais identificados não passam pelas sensações, mas são analisados como dados objetivos.

Por outro lado, esses estudos em arquitetura procuram identificar as mudanças de costume na casa, no vão, mas não se preocupam sobre como o corpo se relaciona do ponto de vista do movimento. A preocupação, por outro lado, é mais com a utilização do vão, não havendo uma perspectiva que contemple o estudo da relação entre os diferentes espaços da residência, isto é, da sua configuração. As mudanças no espaço doméstico (seus tipos e usos) não consideram as mudanças expressas na forma de organização espacial da moradia e nem como a organização espacial está relacionada às mudanças de modo de vida, aspectos que poderiam evidenciar a segregação ou não dos espaços dentro da moradia – isso também revela jeitos de habitar.

Não obstante a importância da abordagem do espaço doméstico, através das mudanças de uso, aspecto considerado também nesta investigação, uma questão que se coloca é: ao ser vinculado às mudanças socioculturais e econômicas, o espaço ainda é tido como reflexo dessas mudanças e não é analisado como algo que interfere nas ações do sujeito (usuário) ao implicar restrições e possibilidades, mas é percebido apenas como receptáculo. Por isso, para entender como o espaço doméstico foi estruturado ao longo das décadas, no Distrito Federal, outra abordagem será complementar a esta de mudança de uso, identificando uma evolução do ponto de vista geométrico e de configuração.

O estudo do espaço doméstico como “lugar antropológico” (AUGÉ, 1992) é inerente a este estudo, pois é a busca pelo modo de vida pela apropriação do lugar que define jeitos de morar nos apartamentos do Distrito Federal. Mesmo sinalizando possíveis dificuldades para uma

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análise na esfera antropológica mais acurada109, as informações sobre as práticas cotidianas

são essenciais para saber como o espaço doméstico é vivenciado.

Sendo assim, neste trabalho, os espaços dos apartamentos serão estudados morfologicamente e quanto ao uso, às atividades que são desenvolvidas e às práticas cotidianas. O objetivo é realizar um estudo dos relacionamentos interpessoais na medida em que eles são qualificados pelos aspectos morfológicos, de uso e ocupação dos cômodos.

O mapeamento das atividades busca identificar onde e o quê se faz (ler, conversar, comer, dormir); onde estão localizados alguns eletroeletrônicos que podem indicar mudanças de comportamento e de utilização dos diferentes espaços da casa. O mapeamento consiste também em identificar espaços de permanência, em função da relação entre habitantes e empregados e habitantes e visitantes.

Segundo Hanson (1998:17), “casas são sensíveis a relações sociais somente quando constroem e contêm interfaces entre diferentes tipos de habitantes e diferentes categorias de visitantes”. A identificação dos espaços mais usados para receber visitantes, por exemplo, revela muito do espaço doméstico no que diz respeito às relações entre moradores e visitantes. Para Certeau, no espaço doméstico não é todo mundo que adentra e os limites são definidos:

todo visitante é um intruso, a menos que tenha sido explícita e livremente convidado a entrar. Mesmo neste caso, o convidado deve saber ‘ficar no seu lugar’, sem atrever-se a circular por todas as dependências da casa; deve saber, principalmente, abreviar sua visita, sob pena de cair na categoria (temível) dos ‘importunos’, daqueles que deve ser ‘discretamente lembrados’ das boas maneiras, ou, pior ainda, daqueles que devem ser evitados a todo custo (2002:203).

Este processo investigativo tem um alcance limitado pelo nível de detalhamento de algumas atividades. Tramontano (1998), em seu estudo sobre o modo de vida, chamou de atividades que acabam “ficando de fora”, como os diversos níveis, formatos e natureza das relações entre os membros do grupo. No caso desta proposta, as informações são referentes aos hábitos familiares e não de cada um dos habitantes, o que corresponde às limitações mencionadas por ele. Esses níveis seriam constituídos por:

109 Em relação ao estudo doméstico, Lemos afirma que os estudiosos ficam como intruso em seara alheia, pois essa “é uma abordagem da competência da antropologia cultural” (1999:19).

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uma conversa entre pai e filho, o namoro dos adolescentes, as confissões entre irmãs, a atividade sexual de todos, das relações sexuais entre os pais aos momentos solitários dos filhos de exploração do próprio corpo, as longas conversas entre coabitantes... A tentação de inseri-las na esfera do entretenimento é grande, mas seria reduzir sua importância no próprio cotidiano das pessoas (TRAMONTANO, 1998:231).

Nesta pesquisa, a análise do modo de vida, dos jeitos de morar, será feita a partir de dois conceitos relacionados ao espaço doméstico: uso e ocupação. O uso são as práticas relacionadas às atividades no espaço e será analisado conforme as categorias analíticas que mapeiam as atividades diárias. A ocupação está relacionada com a permanência (tempo) no espaço e será analisada em função da duração da estada nele. Em conjunto, uso e ocupação expressam a presença no espaço ao longo do tempo. O objetivo não é avaliar o desempenho do ambiente construído e sim como os habitantes e visitantes se apropriam dele110. Níveis de uso e

ocupação informam o como a presença (tempo) se distribui no espaço.

Os níveis de uso e ocupação, somados aos aspectos morfológicos (geométricos e configuração), revelarão como se dá a relação entre o que foi oferecido e como, de fato, as coisas acontecem. Esses grandes eixos explicitarão como os espaços domésticos estão sendo adequados às exigências dos moradores e quais são suas características.

Vale ressaltar como os dois níveis que compõem o modelo analítico estão inter- relacionados. A configuração espacial está relacionada ao modo de vida das pessoas, por isso, a proposta de estudo não fica restrita à análise das plantas baixas dos apartamentos, ela está relacionada à maneira pela qual as pessoas vivem no espaço. Procura-se responder ao desafio de compreender as relações entre arquitetura e sociedade optando pelo estudo dos “componentes-fim”, e não dos aspectos escultóricos.

O modelo procura qualificar as relações interpessoais no espaço, em função do tempo, entendido aqui pelo uso e pela ocupação. Em resumo, o modelo é composto por dois grandes níveis: 1) uso e ocupação – práticas cotidianas (tempo); 2) características morfológicas do espaço – padrões espaciais (geométricos e topológicos). A correlação entre esses dois níveis

110 Os dados de ocupação não têm os mesmos objetivos do método conhecido como APO (Avaliação Pós- Ocupação), muito usado a partir de meados da década de 1960 nos estudos na área do ambiente-comportamento. A APO é um método de avaliação do desempenho de ambientes construídos, e um instrumental capaz de fazer face a uma avaliação rigorosa e sistemática de ambientes construídos e ocupados por um certo período de tempo, cujo objetivo é aferir, por realimentação, os erros e acertos de projeto encontrados no objeto de estudo avaliado, a partir do ponto de vista do usuário, para formar uma base sólida para a concepção de futuros ambientes construídos (REIS e LAY, 1995:01).

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nos dá as práticas socioespaciais entendidas como as experiências de tempo e espaço vivenciadas nos lugares.

Por este modelo analítico procura-se revelar se as mudanças de uso implicam novos programas de necessidades, se os novos programas exigem alterações físicas (geométricas) relacionadas ao tamanho dos espaços e o que essas mudanças físicas indicam sobre a configuração. Surgem algumas questões: i) ao longo das décadas, o espaço doméstico tornou- se mais privativo? ii) Após mudanças, o espaço doméstico ficou mais acessível aos visitantes, ou reforça a individualidade dos membros da família? iii) A multifuncionalidade dos espaços implicou maior área dos cômodos? iv) O que aconteceu com os setores ao longo das décadas e após as mudanças?