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4.   ANALYSE

4.3. R AMME 4

A análise das informações referentes aos aspectos configuracionais e geométricos será feita mediante o uso de técnicas estatísticas que possibilitarão uma leitura precisa dos dados. Os resultados quantitativos, assim como os relatórios e gráficos, serão gerados através do software SPSS111 (Statistical Package for Social Sciences) a partir das informações

armazenadas em banco de dados, criado em ACCESS112.

O objetivo da análise estatística é relacionar informações configuracionais, geométricas e funcionais com dados de modo de vida, jeitos de morar, procurando identificar correlações entre diferentes níveis de análise. Basicamente duas técnicas foram utilizadas nesta pesquisa: a Análise Descritiva e a Estatística Inferencial.

A Análise Descritiva foi utilizada para detalhar as variáveis quantitativas. Cada variável quantitativa foi estudada e seu comportamento foi detalhado em medidas-resumo estatísticas de localização, como a média, e de dispersão, como desvio padrão, mínimo e máximo. Estes resultados são de extrema importância, pois permitem, por meio de tabelas e gráficos, ver como a amostra se comporta e obter, assim, uma visão geral do perfil amostral.

A Estatística Inferencial é outro aparato técnico utilizado e permitiu identificar tendências relacionadas às transformações nos setores (íntimo, social e serviços), dados dos principais 111 O SPSS é um software com recursos avançados de análise estatística utilizado há mais de três décadas em pesquisas acadêmicas e na área comercial.

112 Banco de dados criado pela autora e disponibilizado em CD-ROM que acompanha esta tese. .

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cômodos e o comportamento estatístico dos dados por localidade (Asa Sul, Águas Clara, etc.). A Estatística Inferencial é o nome dado a um conjunto de técnicas analíticas usado para caracterizar e identificar as relações entre variáveis. Ela é comumente usada para resolver situações do tipo: se uma determinada afirmação é feita sobre uma população, usualmente sobre um parâmetro desta, deseja-se saber se os resultados experimentais provenientes de uma amostra contrariam ou não tal afirmação (Estática Inferencial, anotações de aula). Dentre os componentes da Estatística Inferencial usada nesta tese estão o Coeficiente de Correlação.

O Coeficiente de Correlação foi utilizado na análise para identificar a existência ou não de uma relação entre duas variáveis e quantifica o grau de relacionamento entre elas. Por meio do coeficiente de correlação de Pearson foram calculados alguns coeficientes para verificar a existência de associação entre as variáveis, essa correlação duas a duas é chamada de Análise Bivariada. O grau de relacionamento entre duas variáveis é dado pelo valor do coeficiente113: 0 –

significa nenhum relacionamento e 1 – significa perfeito relacionamento. A natureza positiva – quando uma aumenta, a outra também – ou a negativa – quando uma aumenta, a outra diminui – é dada pelo sinal positivo ou negativo do coeficiente. O coeficiente de correlação de Pearson expressa numericamente tanto a intensidade quanto a direção da correlação linear, quanto mais próximo de 1 maior será a intensidade da correlação, considera-se forte uma correlação de ordem superior a 0,7 e fortíssima de ordem superior a 0,9.

A estatística tornou-se uma ferramenta importante para análise do universo desta pesquisa, dada a diversidade das informações dos apartamentos, o primeiro grande recorte foi o tipo de apartamentos (1, 2, 3 e 4 dormitórios). Esse é o primeiro agrupamento, posteriormente eles foram reagrupados por tipo de apartamento e décadas e tipo de apartamentos por localidade. Para obter uma leitura clara desse universo o instrumental estatístico foi de muito valia.

CONCLUSÃO

O capítulo procurou situar a discussão sobre habitação coletiva em altura (característica marcante de Brasília), ao longo do processo de consolidação, difusão e aprimoramento do tipo apartamento, como forma de identificar possíveis filiações, consagradas na primeira metade do 113 A forma do cálculo do coeficiente varia conforme a escala numérica e a distribuição de probabilidade das variáveis envolvidas, mas ele corresponde matematicamente ao coeficiente angular da reta da regressão linear, dada por uma equação de 1º grau (y = ax + b)

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século XX. A partir do resgate histórico e diante das reflexões teóricas do capítulo anterior, foi apresentada a maneira como a habitação coletiva no Distrito Federal será estudada, os diferentes níveis de análise e as fundamentações da estrutura analítica.

Do resgate histórico vimos que o termo habitação coletiva já foi usado para designar lugar da população de baixa-renda, em fins do século XIX e início do século XX. No período brasileiro de verticalização, nas décadas de 1910 e 1920, havia um forte apelo para que a classe média morasse nas habitações coletivas em altura. Para isso, o termo deveria deixar de ser sinônimo de promiscuidade e insalubridade (tipicamente associados às habitações da população de baixa renda). Mudou, portanto, o público-alvo. Os palacetes e a “casa de apartamentos” (assim chamados por serem reproduções das casas burguesas em altura) foram estratégias para seduzir a classe média, uma vez que houve resistência a esta proposta habitacional. Na década seguinte, o arranha-céu tornou-se símbolo da modernidade e o morar em apartamentos começou a ser uma possibilidade.

Neste processo de convencimento, a habitação coletiva em altura para a classe média implicou mudanças no programa de necessidades: dos palacetes (reprodução das casas burguesas, em alguns casos sem espaços para os serviçais), passou-se às “casas de apartamentos” (onde as unidades não eram completas com cozinhas), até chegar-se ao edifício de apartamentos (com dependência de serviços, cozinha e banheiro). Passou-se também mudanças de estilo, pois os palacetes da burguesia foram originados do estilo Belle Époque, como o Art Nouveau, adotaram o Art Déco, até finalmente absorverem o estilo modernista. Houve também mudanças no tipo como, por exemplo, a passagem do edifício em torre para o bloco residencial, além das alterações de uso, pois a coabitação de residência e comércio deu lugar a prédios estritamente residenciais. As mudanças não foram somente pelas exigências de um novo programa de necessidade que privilegia o indivíduo, elas passaram igualmente por uma organização ou estratégia espacial que privilegiou a estruturação do espaço doméstico em setores íntimo, social e de serviços.

As décadas de 1940 e 1950 foram marcadas pela consolidação do edifício de apartamentos e da propagação do novo de jeito de morar, agora com estética modernista. O processo de difusão contou com o importante incentivo do Estado brasileiro, que adotou a proposta de habitação coletiva em altura (de influência modernista) para solucionar os problemas de habitação. A presença do Estado favoreceu a propagação do tipo apartamento em blocos residenciais e em conjuntos habitacionais. A nova proposta foi amplamente utilizada na construção de Brasília.

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Embora usada em Brasília, a proposta habitacional de Lucio Costa difere das experiências modernistas anteriores sob vários aspectos, dentre eles: i) não usa o conceito de blocos de apartamentos e de conjuntos habitacionais voltado para população de baixa renda, ela é usada para a classe média, diferente das experiências anteriores em que era usado o edifício de apartamentos isolado; ii) difere da proposta de Le Corbusier ao adotar os blocos isolados numa estrutura de superquadras e não em concentrar num único edifício moradia e serviços.

O resgate histórico possibilitou constatar que não há muitos estudos sobre os aspectos morfológicos (geométricos e configuracionais) dos apartamentos, principalmente de exemplares da década de 1920 a 1940. O estudo da configuração em diferentes décadas poderia dar suporte para afirmações quanto às mudanças internas, ao longo do processo de consolidação da proposta. Duas análises foram feitas para identificar mudanças em apartamentos das décadas de 1920 e 1940, ambos dedicados à classe média e entre outros dois apartamentos, ambos da década de 1950, sendo um destinado à população de baixa renda e o outro à classe média.

Diante do resgate histórico sobre a habitação coletiva, das diferentes abordagens sobre o espaço doméstico, e à luz dos conceitos discutidos ao longo do primeiro capítulo, construiu-se um modelo analítico que considera o estudo dos aspectos morfológicos da habitação como necessário - pois é a maneira de identificar mudanças no interior das habitações (no vão) e não só nos aspectos escultóricos (estilo, materiais, forma) (COUTINHO, 1998). Por outro lado, o estudo do espaço doméstico (espaço vivido, habitado) passa pela análise do uso e da ocupação dos lugares, ou seja, as atividades e permanências que denotam o modo de vida (CERTEAU, 2000, 2002). O trabalho, portanto, procura contribuir para o estudo do espaço doméstico ao fazer uma interface entre diferentes planos ou níveis de análise, por meio de um modelo analítico que considera: i) as características geométricas e configuracionais dos apartamentos; ii) as práticas cotidianas, considerando as atividades e permanências (uso e ocupação).

Desde final do século XIX até a construção de Brasília, ocorreu um processo de consolidação e muitas mudanças na proposta de habitação coletiva. Considerando que no Distrito Federal essa proposta habitacional é marcante no Plano Piloto, mas que em outros assentamentos também é consolidada, procurou-se identificar áreas e qualificá-las como objetos de estudo. Esse procedimento e maiores detalhes sobre as áreas estudadas encontram-se no capítulo seguinte.

CAPÍTULO

3

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O PLANO PILOTO E SEU ENTORNO:

DELIMITAÇÃO E APRESENTAÇÃO

DO OBJETO DE ESTUDO

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INTRODUÇÃO

A história da habitação coletiva no Brasil mostra que o edifício para uso misto (comércio, escritório e moradia) não era uma novidade no início do século XX, mostra também que só a partir de fins da década de 1930 surgiram grandes áreas destinadas a conjuntos de edifícios de uso estritamente residencial. Os conjuntos habitacionais, com vários blocos de apartamentos, tornaram-se comuns ao longo das décadas seguintes, principalmente como solução habitacional para as classes de média e baixa renda. Numa solução inovadora, Lucio Costa propõe para Brasília um misto de conjunto habitacional como o Parque Guinle (moradia para classe média). As superquadras e seus blocos de apartamentos tornaram-se uma das características marcantes na proposta do Plano Piloto da nova capital.

Desde a inauguração de Brasília, o Distrito Federal cresceu de maneira acelerada em função do número elevado de migrantes que vinham para a nova capital. A ocupação das demais áreas do Distrito Federal deveria ser gradual, na medida em que o Plano Piloto não mais suprisse a demanda habitacional, o que na prática não ocorreu. A obstinação dos migrantes em permanecer em Brasília confrontava o elitismo do programa urbanístico (BATISTA, 2003:08) e obrigou a Novacap a adotar uma política de urbanização em subúrbios dormitórios para as populações de menor renda.

Os novos assentamentos, fruto da expansão de pequenas vilas e de acampamentos criados quando da construção, localizados nos arredores do Plano Piloto, surgiram seguindo uma estratégia de preservação da bacia hidrográfica do Paranoá com a limitação populacional da região. Segundo Batista (2003), a estratégia de preservação teve um viés sanitarista que predominou nos planos de ordenamento territorial, surgidos na década de 1970. O Plano

Estrutural de Organização Territorial – PEOT, de 1977, recomendou a expansão urbana do

Distrito Federal afastada da bacia do Paranoá. Alguns núcleos urbanos estudados nesta pesquisa já se encontravam fora da área delimitada pelo “cordão sanitário” – uma faixa de 10 a 40 quilômetros de largura ao redor da capital –, como é o caso do Guará e de Taguatinga.

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Novos planos de ordenamento e expansão territorial surgiram, e a partir deles, novos assentamentos. O documento Brasília Revisitada, de 1987, deu continuidade ao documento

Brasília 57-85, ambos de autoria do próprio Lucio Costa. Parte do documento foi incorporada

pelo Plano de Ocupação e Uso do Solo e o texto na íntegra pelo Código de obras de 1989 (FICHER, 2003). Em Brasília Revisitada, Lucio Costa propôs a construção de quadras residenciais para população de baixa renda ao longo das vias de acesso ao Plano Piloto e a formação de seis novos bairros. A preocupação de Lucio Costa era expandir o Plano Piloto, preenchendo o vazio geográfico entre este e as cidades satélites, mantendo a proposta de habitação com blocos residenciais.

O sucesso das superquadras do Plano Piloto e a preocupação com a continuidade do tipo urbanístico e arquitetônico adotado por Costa fizeram com que assentamentos inteiros fossem definidos como assentamentos verticais, com adoção dos blocos residenciais como solução habitacional. Em alguns assentamentos, se tentou repetir as soluções das superquadras. Dentre estes novos núcleos urbanos estão o Sudoeste, Sudoeste Econômico, Octogonal, Cruzeiro Novo e as Quadras Econômicas Lucio Costa. Assentamentos como Taguatinga, Guará e Águas Claras apresentam um misto de áreas para habitação unifamiliar e coletiva.

Mesmo em Taguatinga e no Guará, onde o tipo casa é predominante, a habitação coletiva em altura recebeu especial atenção, pois grandes áreas foram destinadas para construção de prédios de apartamentos. A solução dos blocos residenciais sobre pilotis, nos moldes do Plano Piloto, também foi adotada nesses assentamentos. Diferente dos demais, o Guará I adotou o bloco residencial, não de forma isolada como nos casos anteriores, mas dividindo com as casas o espaço nas quadras residenciais, conforme acontece nas quadras 700 da Asa Norte. Em Águas Claras, a solução das superquadras foi adotada em parte do bairro, mas o tipo de edilício predominante não são os blocos, mas os edifícios residenciais isolados e em lâminas, dando maior verticalidade ao assentamento.

Em todas essas áreas urbanas vislumbramos referências ao Plano Piloto e este é o eixo que define o objeto estudado. Neste capítulo, serão explicitados os critérios de escolha das áreas e apresentado o instrumental metodológico e técnico utilizado. Mais informações sobre as áreas escolhidas estão no cerne do capítulo (segunda parte) e, por último, está o perfil da amostra analisada.

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3.1 A DELIMITAÇÃO DAS ÁREAS DE ESTUDO: ASPECTOS