Propagadores sonoros Ecoa aos ‘quatorze’ ventos
que um belo pássaro, “en-cantador”
fizera seu ninho na história da educação pública do
Distrito Federal, tecendo-o com cores de chita, com laços de fita, tinta, cola, madeira e cinzel; latinhas vazias, potinhos floridos e dobrando papel. Afeto e intelecto num só coração, histórias contadas,
criadas, narradas, no palco27, seu chão.
No seu voar pousou por aqui e por um tempo aninhou-se... A si mesmo se viu, se despiu, recriou-se. Como a Fênix que renovando seu ser, desconstruiu-se para voltar a nascer...
Entre risos, cantos e choros, experimentou o reconhecimento de seu Ser sonoro, vivenciou e se entregou ao novo, ao saber. Voando de volta espalhou alegria,
encantos, magia e fez o que pareceria insólito e inesperado, acontecer
(RAMALHO, 2015).
Criada em 1986, a partir de um projeto no Centro de Ensino Fundamental CEF 9 de Taguatinga chamado “Projeto Pré-Escolar” as Oficinas Pedagógicas se constituíram como uma equipe formada por professores da Educação pré-escolar das CRE de Ceilândia, Taguatinga e Brazlândia para a execução do projeto (DISTRITO FEDERAL, 2014, p. 81-82). À época, as Oficinas Pedagógicas atendiam somente aos professores da pré-escola interessados em confeccionar materiais pedagógicos de apoio ao desenvolvimento dos conteúdos curriculares com as crianças. As informações que aqui serão apresentadas têm como principal fonte de pesquisa o documento “Cadernos Pedagógicos da EAPE, (DISTRITO FEDERAL, 2014)28.
Nesse período na SEDF as escolas que ofertavam o ensino profissionalizante foram equipadas com maquinário29 visando suprir as atividades de Práticas Industriais (PI) disciplina que à época compunha a Lei nº 5.692/71, no ápice da ideologia do Brasil-potência, com o regime militar instalado e que ocasionou a necessidade de realizar alterações na estrutura e funcionamento do sistema educacional, dando nova roupagem à pretensão liberal contida no texto da Lei nº4024/61 assumindo,
uma tendência tecnicista como referencial para a organização escolar brasileira. A nova orientação dada à educação representava a preocupação com o aprimoramento técnico e o incremento da eficiência e maximização
27
Ibidem item 1.3.
28 Disponível em: < issuu.com/eapegpav/docs/caderno_pedagogicos>. Acesso em 15 jul. 2015. 29 Serras circulares, serras tico-tico, lixadeiras e furadeiras.
dos resultados e tinha como decorrência a adoção de um ideário que se configurava pela ênfase no aspecto quantitativo, nos meios e técnicas educacionais, na formação profissional e na educação do ensino as demandas da produção industrial (PELEGRINI E AZEVEDO, 2006).
Professores que utilizavam esse maquinário do Centro de Ensino Fundamental CEF 9 de Taguatinga na fabricação de materiais também recebiam orientação técnica e pedagógica por parte das equipes das oficinas Pedagógicas, bem como incentivo à pesquisa e à troca de experiência tanto quanto outros recursos disponíveis.
Nos anos seguintes algumas ações foram desenhando a estrutura e o histórico das Oficinas Pedagógicas ampliando assim o seu atendimento a partir do ano de 1987, quando passaram a participar também do grupo, professores das CRE de Sobradinho, Planaltina e do Plano Piloto/Cruzeiro. Nesse período as Oficinas Pedagógicas ofereceram o seu primeiro curso que, dentro de sua proposta de trabalho chamou-se “Faça você mesmo” (DISTRITO FEDERAL, 2014, p. 82, grifo do autor). Esse curso teve a participação ampliada sob a forma de oficinas, abrangendo as CRE de Ceilândia, Brazlândia Planaltina e Plano Piloto. Nesse percurso as ações das Oficinas Pedagógicas foram se consolidando juntamente com o grupo, conforme organizamos no quadro cronológico a seguir:
Quadro 5 - Cronologia das ações desenvolvidas das Oficinas Pedagógicas.
Ano Abrangência Ações desenvolvidas
1986 CRE: Ceilândia, Taguatinga e Brazlândia.
Surgimento do “embrião” das Oficinas Pedagógicas, formado por professores da Educação Pré-Escolar das CRE de Ceilândia, Taguatinga e Brazlândia, partindo do “Projeto Pré- Escolar”, contando com a utilização da estrutura de maquinário das aulas de Práticas Industriais - PI ofertadas no CEF.
1987 CRE: Ceilândia, Brazlândia Planaltina e Plano Piloto.
Chegada de professores das CRE Sobradinho, Planaltina e do Plano Piloto/Cruzeiro e a realização do primeiro curso das Oficinas Pedagógicas, o “Faça você mesmo”, que posteriormente foi difundido em suas respectivas CRE.
1988 Ceilândia, Brazlândia Planaltina e Plano Piloto.
Participação na 1ª Mostra de Materiais de Ensino- aprendizagem – MEA, na Escola Normal de Brasília – ENB, objetivando a sensibilização dos educadores quanto à importância da utilização de material concreto em sala de aula. 1989 SEDF Oficialização, sistematização e normatização do Projeto
Oficinas Pedagógicas, por meio do documento “Orientação Pedagógica nº 08”.
1990 SEDF Criação da Coordenação das Oficinas Pedagógicas – COP, iniciando-se como Setor de Materiais de Ensino e Aprendizagem – SMEA, vinculada ao Núcleo de Teleducação – NUTEL.
1994 SEDF Revisão e atualização da Orientação Pedagógica nº 08. 2014-
2015
SEDF Instituição e funcionamento do Núcleo das Oficinas Pedagógicas – NOP.
A partir dessa atualização do documento que consolidou e normatizou as funções da equipe das Oficinas Pedagógicas em 1994, suas ações voltaram-se majoritariamente ao contexto tecnicista de fabricação de material pedagógico, dando apoio ao professor que quisesse confeccionar seu próprio material. De acordo com GDF (2014) no que está relatado em sua revista eletrônica, destacamos o que dispõe a introdução da Orientação Pedagógica nº 08 SEDF:
Os materiais de Ensino-aprendizagem – MEAS constituem recursos valiosos que o professor dispõe como apoio à operacionalização do Currículo de Educação Básica, proporcionando aos alunos uma educação voltada para o seu pleno desenvolvimento. Assim, para a implementação desses recursos pedagógicos, como apoio indispensável às diversas metodologias de ensino e, na tentativa de minimizar as atuais necessidades do sistema, implantaram- se as Oficinas Pedagógicas como alternativa que possibilitasse criar e ou reproduzir o seu próprio material de ensino-aprendizagem, de acordo com o conteúdo programático a ser desenvolvido. Caracteriza-se, portanto, a Oficina Pedagógica como espaço destinado à pesquisa, testagem e validação, bem como à confecção de materiais de ensino-aprendizagem sem o caráter de produção em larga escala. O atendimento destina-se, prioritariamente, ao professor que confecciona o seu próprio material, sob a orientação técnico- pedagógica da equipe da oficina, assegurando assim a adequada utilização de tais recursos (DISTRITO FEDERAL, 2014, p. 83).
As Oficinas Pedagógicas, a partir de então passaram a desenvolver atividades para além de sua função de confecção de materiais pedagógicos que visavam à abrangência de do binômio ensino-aprendizagem dentro dos pressupostos preconizados pelo Currículo de Educação Básica da SEDF. Destarte suas atividades propostas buscaram, além da prática e do tecnicismo uma reflexão e apoio de cunho teórico-filosófico, ou seja, suas atividades se voltaram à práxis que ocorre na ação e reflexão, se iluminando constante e mutuamente, conforme nos esclarece Freire, “na qual a prática, implicando a teoria da qual não se separa, implica também uma postura de quem busca o saber, e não de quem passivamente o recebe [...] o ser humano é maior do que os mecanicismos que o minimizam” (FREIRE, 2013, p. 110).
Freire (2014a, p. 85) ressalta também a importância do exercício da curiosidade na prática educativo-crítica, pois “nele é convocada a imaginação, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser”. A curiosidade espontânea ou ingênua relaciona-se ao senso comum e segundo o autor deve dar lugar à curiosidade epistemológica, compreendida aqui como apontam Vasconcelos e Brito (2014) ao citar Freire.
A curiosidade científica sempre presente no processo educativo libertador, que inquieta a curiosidade ingênua e que, ao criticizar-se, aproxima-se, de forma metódica e rigorosa, do objeto cognoscível. É a curiosidade científica sempre presente no processo. É a atitude crítica que leva ao conhecimento e à mudança, que vai além da percepção inicial e simples do objeto a ser conhecido (VASCONCELOS e BRITO, 2014, p. 69).
Atualmente a equipe das Oficinas Pedagógicas, compreendidas entre equipes atuantes e oriundas de cada Coordenação Regional de Ensino da SEDF se encontra vinculado à Gerência de Planejamento e Execução da Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação - GEPLAEX/EAPE. Essa gerência tem como atribuições a responsabilidade de coordenar, acompanhar a avaliar as atividades propostas e executadas pelas Oficinas Pedagógicas de cada CRE, cabendo também a proposição de garantir o aperfeiçoamento e formação continuada dos professores que atuam nas Oficinas Pedagógicas, buscando a integração e unidade de ação entre todas as Oficinas Pedagógicas, conforme (DISTRITO FEDERAL, 2014). Para a execução dessas atribuições, a equipe mantém como estratégias, coordenações pedagógicas contínuas e periódicas onde trocam experiências e apresentam resultados de pesquisas.
Outra marca nos trabalhos realizados pelas Oficinas Pedagógicas, além da já citada confecção de jogos pedagógicos é a atividade de contação de histórias, bem como as brincadeiras e representações com vistas a instrumentalizar o professor auxiliando-o no processo educativo, por meio da articulação do conhecimento estudado com o conhecimento de mundo do estudante. Possibilita também a articulação com os conteúdos do Currículo em Movimento (DISTRITO FEDERAL, 2014 p. 86).
Na dinâmica apresentada do percurso histórico das Oficinas Pedagógicas estão elencados os cursos ofertados aos professores da SEDF até os dias de hoje, além dos supracitados. São eles:
I. A Linguagem Musical na Educação Infantil e Anos Iniciais com vistas tanto ao desenvolvimento da musicalidade do professor que atua na Educação Infantil e nos Anos Iniciais quanto a contribuir para o aprimoramento de sua atuação e ampliação de significado de sua prática nessa temática estando por consequência respondendo à demanda oriunda da Lei 11.769/2008, quanto à de estudo e esclarecimentos solicitados pelos professores nas Plenárias Regionais do Currículo em Movimento.
Dentro da perspectiva da Diversidade preconizada pelo Currículo da SEDF,
[...] no curso, prioriza-se uma educação musical formadora e transformadora, que valorize os direitos humanos, com respeito à diversidade e à sua
expressão, proporcionando uma formação ao professor como ser musical: oportunizando a reflexão e a ampliação de suas vivências musicais, colaborando assim para o enriquecimento da prática docente (DISTRITO FEDERAL, 2014 p. 87).
Segundo os cadernos pedagógicos da EAPE (DISTRITO FEDERAL, 2014, p. 86-87) O curso “A Linguagem Musical na Educação Infantil e Anos Iniciais” é oferecido pelas Oficinas Pedagógicas em todas as Coordenações Regionais de Ensino - CRE em parceria com a CEINF tendo atendido desde o ano 2013, a mais de 800 professores.
II. A Correção da Distorção – Idade/Série – Rediscutindo Práticas Pedagógicas foi um curso proposto com vistas buscar metodologias que contribuam na práxis dos professores atuantes na Correção da Distorção Idade/Série - CDIS auxiliando-os nas questões da ação- reflexão-ação e da transformação. Oficinas diversas foram desenvolvidas nesse curso, que resultarão em uma mostra de trabalhos a Mostra do Festival Curtas na Escola. Como características gerais das Oficinas Pedagógicas, compreendem-se:
[...] estimular a pesquisa, a inovação, a utilização de recursos e as posturas pedagógicas mais criativas, flexíveis e humanizadas, bem como possibilitar a confecção de materiais pedagógicos, objetivando à contextualização dos conteúdos, à interdisciplinaridade e à transversalidade na operacionalização do Currículo em Movimento da Educação Básica são as características do grupo das Oficinas Pedagógicas da SEDF [...] (DISTRITO FEDERAL, 2014, p. 89).
Reuniões periódicas de coordenação pedagógica caracterizam-se pela intencionalidade da busca pela unidade entre concepções teórico-filosóficas e troca de experiências e vivências tanto para fins de estudos e organização do trabalho quanto para “afinar” a atuação nas CRE.
Esse grupo de propagadores sonoros que outrora ecoava sons de serras, furadeiras e marteladas bem ao gosto do compositor John Cage30 entoa também aos ‘quatorze’ ventos no teatro do saber, cantigas e contos de confiança, de esperança, de possibilidades aos colegas professores, colaboradores e crianças.