Foram observadas até aqui as funções do trabalho docente, suas bases legais, as particularidades históricas e sociais do pedagogo e as características do trabalho das Oficinas Pedagógicas, ambos como atores nesse espetáculo investigado. Seguimos questionando acerca de como se daria a reflexão com vistas à conscientização do pedagogo como um dos atores desse espetáculo pesquisado e seu papel na educação musical no contexto da educação infantil passando agora a um ponto desse percurso que está relacionado ao roteiro a ser desenvolvido no palco, por esses atores.
Como em uma obra artística teatral que contém os roteiros, falas, posturas, gestos e ações próprias da atuação e para o bom desempenho dos atores, há uma crença na necessidade de exaustivos ensaios, de repetições do conteúdo a ser falado, interpretado e assim se procede. No contexto desses ensaios encontraremos as propostas de cursos para cumprimento do roteiro legal, a mercantilização da educação e da educação musical como propostas milagrosas para o ator dar conta do roteiro, enfim uma série de elementos que permearam as
ações da SEDF no intento de responder às necessidades de seus pedagogos, demandadas a partir da Lei nº 11.769/2008 e seus desdobramentos.
Acerca da formação do professor, Ramalho et al (2014, p. 2) apoiada no pensamento de Tunes (2011) diz que “o modelo de educação presente no contexto educativo atual, principalmente no espaço escolar apresenta características que podem ser denominadas de escolarização” que, segundo Tunes “seria o controle dos modos de aprender do outro [...] e que o surgimento e a evolução da instituição escolar carrega o ideal do controle social da aprendizagem” ao que complementa Tunes, dizendo que “ter controle sobre alguma coisa é ter poder, domínio ou autoridade sobre ela, o que implica, portanto, o poder de definir por onde se caminha e aonde se chega” (TUNES, 2011, p. 9 e 10).
A escolarização segundo Ramalho (2014, p. 3) “não está presente apenas no modelo educativo de jovens, adultos e crianças, mas também, diz respeito a tudo o que envolve a formação dos profissionais de educação”, submetendo-os também a esse mesmo controle do aprendizado estando desse modo, a escolarização presente em tudo o que envolve e diz respeito à escola. Quanto a isso, Tunes (2011) afirma que “O ideal de controle social de aprendizagem requer a uniformização de caminhos e metas para o processo de aprender, submetendo-o ao processo de ensinar. É exatamente isso que se faz na escola, padroniza-se o ensino”. (TUNES, 2011, p, 9 e 10).
Refletindo acerca do que foi exposto nesse trabalho até o presente momento, observamos que esse formato de tentativa de controle do aprendizado do outro tem sua gênese nas esferas máximas de controle social, haja vista esses roteiros terem sido esboçados e elaborados desde os bastidores, como aludido nos capítulos anteriores. E trazendo essa sistematização ao campo da educação musical, sobretudo com os pedagogos vemos que a escolarização se faz presente partindo do pressuposto de que “a música é para poucos, para os que possuem talento e, que é necessário passar por uma escola especializada para o desenvolvimento da musicalidade”, conforme Ramalho et al (2014, p.3) ao referir-se ao que diz Pederiva que ainda esclarece mais, dizendo que:
O desenvolvimento histórico da atividade musical, inicia-se a institucionalização escolarizada da musicalidade, processo este ancorado em valores ideológicos e mercantilistas que limitam a expressão musical, domesticando e solapando as possibilidades musicais expressivas e criativas do homem (PEDERIVA, 2009, p. 4).
Isso nos remete às falas do pedagogo que não se sente capaz de desenvolver atividades musicais com seus estudantes, como já descrito à época da reformulação do currículo de
educação básica do Distrito Federal, bem como nos apontou Martinez (2012). No entanto observa-se que o ser humano é um ser musical, como afirma Pederiva (2011) e também é um ser que busca aprender. Assim, o ser humano sendo musical e que busca aprender, também como docentes e discentes, o serão.
Entretanto, afirma Ramalho (2014, p. 3) “ambos precisam ser criadores dos caminhos percorridos em suas próprias práticas educativas demandando um exercício constante de autonomia, liberdade e emancipação”, haja vista o que nos diz Paulo Freire ao afirmar que “aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada” (FREIRE, 2014a, p. 68, itálico do autor). Prestes (2012) nos traz uma reflexão acerca do conceito de aprendizagem com o qual nos familiarizamos no contexto da educação que compreende ao esquema binominal de estímulo e resposta, envolvendo uma resposta do sujeito passivo a uma influência externa.
Para além desse conceito, a autora elucida que em diversas obras de Vigotski, encontra-se o termo obutchenie traduzido como ensino ou aprendizagem, como também os dois termos são encontrados juntos, porém na realidade o autor se refere ao processo simultâneo de “instrução”, “estudo” e “aprender por si mesmo” (PRESTES, 2012, p. 219). A autora afirma que para Vigotski obutchenie é uma atividade que gera desenvolvimento, ou seja, uma atividade guia, estando à frente e não o contrário vindo depois como consequência da aprendizagem como definem as teorias de aprendizagem que a tem enquanto processo psicológico próprio do sujeito.
Outro aspecto observado nesse espetáculo desde a promulgação da lei da obrigatoriedade da música nas escolas foi o surgimento de programas com o objetivo de formar o professor para ensinar música na escola de educação básica, de variados formatos e tecnologias abrangendo desde livros e apostilas até softwares ou oficinas e cursos de repasse de conteúdo. Alguns foram oferecidos à SEDF como supridores das demandas da lei da música na escola. A partir de então a mercantilização da educação musical se fez presente visivelmente após a Lei 11.769/2008, tanto na oferta de cursos das modalidades virtual ou presencial, quanto de kits de instrumentos musicais e/ou cartilhas constando o passo-a-passo de sua utilização, havendo assim um aquecimento na relação de consumo desses materiais.
Embora esse recorte não seja pretendido de ser aprofundado por esse trabalho, como parte concreta da visão de educação musical que tem sido propagada, não poderíamos nos furtar de sinalizar essa relação com o mercado, até mesmo porque na perspectiva metodológica materialista a visão ampliada de um fenômeno implica em observar não somente sua aparência, mas também sua essência aplicadas às relações sociais. Já foi citado,
Illich (1985, p. 54) fala da mercantilização da educação como fator de interesses econômicos e que muitas vezes se esconde nas ofertas de cursos com vistas a suprir o mercado de trabalho. Em uma realidade abrangente como a da SEDF, isso implicaria diretamente no orçamento dedicado à educação pública e, sendo assim que medidas tomar para tornar o pedagogo protagonista em sua ação pedagógico musical?