2. METHODOLOGY
2.3 V ALIDITY AND R ELIABILITY
As redes sociais são movidas por processos dinâmicos que as tornam espaços em constante movimento e transformação. Elas são caracterizadas dessa maneira devido ao grau de interação que proporciona entre os sujeitos que as compõem. Uma vez dinâmicas, as redes estão sujeitas a situações de concordância, desordem, interrupção, agregação, desagregação etc. (RECUERO, 2009). Partir desse ponto de compreensão é um importante caminho para a análise dos resultados obtidos pelos Diários de Classe Virtuais em suas experiências de reivindicação no Facebook.
Se entendermos como resultados o atendimento às denúncias feitas nas páginas, veremos que todos os diários lograram êxitos que poderiam até mesmo ser quantificados. Mas há também os resultados de ordem subjetiva – discutidos gradualmente até esse momento – e que se fazem presentes no ciberativismo e no protagonismo desempenhados pelas juventudes dos Diários de Classe Virtuais. As duas dimensões compõem a trajetória dessa experiência e, por isso, ambas são considerados.
Uma primeira impressão a respeito das conquistas práticas dos diários de classe, que dizem respeito principalmente aos reparos e reformas promovidos após a divulgação nas redes sociais do estado no qual se encontravam as escolas, nos dá a sensação que determinados tipos de problemas só existem porque estão amparados pelo desinteresse de gestores e descrença da comunidade em geral na capacidade de atendimento dos entes públicos ou pelo desconhecimento de canais, órgãos ou ouvidorias que tratam de problemas como esses.
Consequentemente, esse estado de coisas coloca os agentes públicos em uma zona de conforto e omissão que os protege de maneira significativa de ações de fiscalização ou cobrança. Vale ressaltar que esse contexto atinge não só questões pertinentes à educação. Historicamente, esse é um cenário que permeia a definição e execução de políticas públicas brasileiras, quando elementos como fiscalização e transparência esbarram em entraves criados pelos próprios representantes públicos e são reforçados por uma herança de privilégios sociais que não alcançam as classes menos favorecidas.
Muitos são os governos que ao tratarem a coisa pública sem a devida atenção transmitem aos cidadãos a ideia de que a prestação de serviço público é um favor.
(HOLANDA, 1995). Esse padrão é muito comum em municípios brasileiros mais pobres, mas não exclusivo a estes, com grande maioria da população composta por pessoas de baixa instrução que pouco conhecem a respeito de seus direitos. Todo esse jogo de interesses e manipulação em torno do espaço público limita os canais de reivindicação, proporcionam a continuidade de práticas ilícitas e o mais prejudicial, esvazia o sentido da política: sacraliza o descrédito dos cidadãos em relação à própria política e às instituições representativas e consequentemente inibe ou anula a participação destes. (ARENDT, 1997).
[...] vamos agir juntos, conversar com pessoas, política só é um assunto chato para a maioria pela politicagem que ocorre atualmente. Discutir a educação e outros serviços públicos e realmente mostrar essa vontade de mudança pode fazer com que ela ocorra, se as coisas estão ruins hoje é por culpa do povo, pois se os corruptos estão lá é porque alguém votou neles, e se eles não estão fazendo as coisas, eles tem que ser retirados do cargo deles. Acordem Brasileiros, o poder está em suas mãos e não é só na urna não. Já derrubamos a ditadura, tiramos um presidente, nós somos fortes, só precisamos ter ATITUDES que revelem isso. Povo interessado e de marcação cerrada nas coisas públicas incomoda, e se algo está errado, deve ser consertado. (D5, em 8 de novembro de 2012).
Com os Diários de Classe Virtuais houve o esforço no sentido contrário. A intenção foi tornar visíveis os problemas dessa natureza, fazendo uso de um caminho alternativo, cujo potencial não foi, ainda, mapeado em plenitude, como vimos anteriormente. Mas, a análise em questão embora reconheça e reforce a importância do ativismo na internet, não corrobora com a visão reducionista de que as TICs por si só possibilitaram o renascimento de uma participação que estava adormecida.
Nós entendemos esses fenômenos como sendo resultantes da experiência humana potencializada pelas TIC e pelo ciberespaço. Assim, as redes sociais, seus diários e tantos outros canais que surgiram na internet devem ser compreendidos em um contexto de ampliação de horizontes e possibilidades que tornam nossa experiência no mundo mais complexa, uma vez que nos é oferecida uma gama infinita de novos pontos de conexão. Conforme discutimos, outras formas de pensar e estar no mundo surgem dessas conexões e elas contribuem de maneira significativa para o redesenho de muitas instâncias, dentre elas, a atuação de cidadãos na contemporaneidade.
O conceito de cidadania pretende abarcar tanto a garantia da participação igualitária dos cidadãos nas decisões do espaço público – o país, a cidade, a comunidade, o bairro, a escola etc. – como a conquista e preservação de direitos políticos, sociais e civis dos mesmos. Diante de um conceito tão amplo, Carvalho (2002) afirma ser tolice considerar que há um
caminho único para a cidadania, que, ao menos no Brasil, está em constante construção. Logo, a organização das juventudes em rede, assim como a ampliação do acesso às tecnologias são, na atualidade, importantes instrumentos para uma participação efetiva de um número maior de sujeitos nas questões públicas, sobretudo se considerarmos que o ciberespaço tem se consolidado como o lugar de debate de muitas dessas questões. “O uso crítico das técnicas e tecnologias da informação, juntamente a outras ações, para promoção da igualdade, pode levar o cidadão ao desenvolvimento da cidadania plena”. (MASSENSINI, 2011, p.1).
Em um balanço feito pelo D1, após pouco mais de dois meses de atuação, verificamos um retorno rápido dos agentes públicos responsáveis quando expostos à pressão por parte do diário de classe. Tão importante quanto a certeza de que o acompanhamento permanente surte efeitos é a compreensão por parte da adolescente de que essa busca por um espaço saudável de convivência coletiva deve ser uma ação pública, de todos, de interesse comum. Para os diários, é dever de toda a sociedade se comprometer com causas que visam o aperfeiçoamento dos espaços sociais. Ao assimilar o caráter coletivo das reivindicações, deduz-se da experiência do D1, que as lutas sociais não devem ser encerradas quando os objetivos individuais forem alcançados. Não seria esse o entendimento, na visão da estudante, do que é viver em sociedade:
Muita coisa mudou, nunca pensei na repercussão que ia dar. Olhando tudo que aconteceu, fico feliz em ver que as coisas que mostrei foram consertadas, a quadra parece que vai ser pintada, a APP foi formada e outras coisas. Me perguntam muito o que vai ser agora que a escola foi reformada, se vou seguir com Diário. Hoje penso diferente, penso maior. Penso que se minha escola pode melhorar, por que não as outras? Não só de Florianópolis, mas de todo Brasil. Por que vemos escolas tão ruins como as que são mostradas aqui? Quem ganha com isso? Pra mim isso é motivo de vergonha e acho que isso envergonha todo Brasil. (D1, em 01 de outubro de 2012).
A atuação dos Diários de Classe Virtuais e a consequente atenção dispensada às escolas pelas secretarias de educação, após as denúncias dos estudantes foram reforçadas com o interesse da imprensa em geral em acompanhar esse novo estado de coisas. Mesmo reticentes, por considerarem que as redes sociais não são espaços legítimos para esse tipo de reivindicação e exposição da escola, as secretarias de educação de maneira geral tomaram providências ou se comprometeram com a reforma e manutenção das escolas.
Vale ressaltar que apenas a concepção tradicional do que seja um local adequado para reclamar direitos e quem pode fazê-lo não atende a realidade das juventudes conectadas.
Porém, muitas foram as reivindicações iniciadas por eles que não dependiam de uma ação direta da direção da escola, então eles foram instigados a entrar em contato com outras formas de participação, como associações de pais e professores (D1), grêmios estudantis (D2, D5), reuniões periódicas com representantes de classe, da escola e pais (D3, D4), abaixo-assinados (D6), entre outras.
Especificamente em relação aos diários aqui abordados, todos tiveram ao menos um retorno oficial das Secretarias de Educação quanto às suas reivindicações21.
Eu sei que tem muita coisa errada, mas não adianta jogar críticas sem antes esperar para ver no que mais a escola vai mudar. Mas já está totalmente diferente do que era ano passado. Está melhorando, estamos conseguindo e isso já é satisfatório, mas vamos continuar, pois falta muito chão pra percorrer. (D2, em 05 de março de 2013).
Galera do ‘Alunos têm voz’, é com grande satisfação que venho informar que irá começar a reforma do colégio a partir do dia 16/02/2013. (D6, em 06 de fevereiro de 2013).
Pude perceber inúmeras mudanças desde o início do ano letivo a escola está mais transparente, não que ela não fosse, mas senti uma diferença nesse aspecto. Está havendo mais reuniões entre direção e líderes de sala, semana passada mesmo tive uma reunião entre representantes de pais, representantes dos alunos e direção para falarmos sobre a escola. Basicamente falamos sobre as pendências, o que está precisando de consertos etc. A nossa merenda mudou um pouco, estamos tendo coisas que não tínhamos antes e está tudo maravilhoso. Os alunos se adaptaram bastante às mudanças e pelo que pude ver gostaram das mudanças que ocorreram. [...] o futuro não será como o presente. (D3, em 6 de agosto de 2013)
21 Após mapear denúncias feitas pelos diários de classe, o site de notícias especializadas UOL
Educação procurou as secretarias de educação estaduais, prefeituras e algumas unidades escolares para saber se esses órgãos estavam tomando providências em relação aos problemas apontados pelos estudantes. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/10/22/impulsionadas-por-denuncias-estudantis-secretarias- respondem-a-pedidos-de-manutencao.htm. Acesso em: 25 out. 2013.
Figura 23: Postagens dos D5 e D3 sobre reforma e reparos.
Figura 24: Reparos de bebedouros e banheiros em escola de Florianópolis postado pelo D1.
Figura 25: Reforma da quadra e novas impressoras adquiridas pela escola. Postagem do D5.
Os resultados positivos são parte importante do envolvimento com causas sociais, eles reforçam a prática e atribuem um sentido de dever cumprido. Os agentes se sentem valorizados e motivados a continuar. “É possível que existam interações que visem somar e construir um determinado laço social e interações que visem enfraquecer ou mesmo destruir outro laço”. (RECUERO, 2009, p.79). Essa constatação inserida na dinâmica própria das redes sociais torna o número de seguidores e frequentadores mais uma expressão de conquista, uma vez os diários dependem, sobretudo, dessa interação para alcançarem cada vez mais visibilidade e centralidade, ou seja, para se tornarem mais populares22.
Figura 26: D1 e D5. Postagens de agradecimento e comemoração sobre o número de seguidores.
Fonte: www.facebook.com
Talvez com base no senso comum afirmaríamos sem muitas ressalvas que qualquer iniciativa que envolvesse a busca por melhores condições para as escolas públicas e os que nelas circulam seria apoiada por unanimidade. Mas na prática, não ocorre assim, pois toda e qualquer adesão depende de quem fala, de onde fala e para quem fala.
Em meio a resultados como a realização de pequenos consertos ou grandes reformas; corpo docente completo; bibliotecas equipadas; livros didáticos para todos; o número de internautas que interagem com os diários; a relevância da iniciativa de mostrar a escola por outros ângulos; outras questões se destacam: o respeito adquirido, o reconhecimento como sujeitos e cidadãos ativos e a validação de suas reivindicações por parte daqueles que acompanham suas trajetórias direta ou indiretamente – internautas, colegas de classe, pais, professores, imprensa, direção de escola etc. Hoje eles não apenas são vistos, ouvidos e
22 A centralidade é para a teoria das redes o elemento que mede o grau de popularidade de um determinado nó.
acessados como seu agir possui valor social.
Essa aceitação acontece após certo tempo decorrido de dedicação, pois é necessário superar a desconfiança atribuída às juventudes, sobretudo aos adolescentes, quando estes ainda ocupam uma espécie de limbo social, que caracteriza uma série de ações como não apropriadas para suas idades. (CALLIGARIS, 2000; BOURDIEU, 2003; URRESTI; 2009).
Porém, essa condição flutuante que não permite aos adolescentes o comportamento das crianças por não se encaixarem mais na infância, nem o livre trânsito no universo dos adultos por não terem amadurecido o necessário tem sido alterada pouco a pouco pelas novas sociabilidades possibilitadas à adolescência pela cultura digital. Isso porque o trato facilitado que eles possuem com as tecnologias os fazem ascender ao valorizado contexto social informatizado, cuja permanência não é determinada pela faixa etária. Há uma tendência “à juvenilização dos valores sociais que subvertem a antiga hierarquização simbólica entre infância, adolescência e maturidade, em um cenário onde a cibercultura aparece como matriz do sentido contemporâneo”. (FERREIRA; VILARINHO, 2013, p.199).
Superadas as barreiras deterministas das faixas etárias, as novas subjetividades são fortalecidas e esses adolescentes e jovens passam a ser vistos como mediadores de ações legítimas baseadas em pertencimento, reconhecimento, transparência e coletividade.