6. Hvordan fungerer driftskonsepter og løsninger?
6.1 Akuttfunksjoner
Tomámos, assim, conhecimento de que o país tem absoluta necessidade dos empréstimos do estrangeiro (―o empréstimo tinha de se realizar absolutamente‖ (Queirós, 2004: 165). Cohen afirma, com a maior das naturalidades, que, em Portugal, os empréstimos eram tão frequentes como a própria cobrança de impostos. Sob o tema das finanças, nesta conversa vemos um Cohen calculista e cínico: tendo responsabilidades pelo cargo que desempenha, lava as mãos e afirma alegremente que o país vai direitinho para a bancarrota. Afirma, também, que não havia sequer maneira de lhe fugir.
2.5.3. A Mediocridade Intelectual do País.
Antes de mais, e atendendo ao principal objectivo do autor, a crítica social, no jantar em casa dos Gouvarinho, mais um episódio pertencente à crónica de costumes, é visível uma forte crítica à mediocridade mental e à superficialidade da classe dirigente.
Mais uma vez, e à semelhança dos outros episódios pertencentes à crónica de costumes, o Jantar em casa dos Gouvarinho tem como principal propósito reunir, não só a alta burguesia, como a aristocracia, ou seja, a camada dirigente do país. Assim sendo, é irrefutável a intenção do autor que pretendeu, antes de mais, radiografar a ignorância das classes dirigentes. Este espaço social tem como base a emissão de juízos de valor por parte dos presentes e é através destes mesmos juízos que nos é permitido concluir o atraso intelectual do país e dos valores social degradados que nele vigoram.
Neste episódio, e uma vez mais, como já referi, ―na presença da alta burguesia, da aristocracia e, de modo geral, da camada dirigente do país, deparam-se-nos os temas mais prementes da vida dos Maias‖ (Reis, 1984: 70). Assim sendo, são abordados, em tom irónico, os mais diversos temas, como por exemplo a concepção da educação feminina, o deslumbramento pelo estrangeiro e, até, a mediocridade mental e superficial de juízos dos mais destacados funcionários do Estado, entre os quais se sobrelevam o próprio Conde de Gouvarinho, o anfitrião do jantar, e Sousa Neto.
Relativamente à educação das mulheres, salienta-se o facto de ser conveniente, mesmo necessário, que ―uma senhora deve ser prendada‖ (Queirós, 2004: 398), mesmo que as suas capacidades não devam permitir que ela saiba discutir, com um homem, assuntos respeitantes ao intelecto. Ega chega até, nas suas falas irónicas, a mostrar nitidamente a mentalidade da época: ―A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem‖ (ibidem).
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Um outro tema relevante neste episódio é a falta de cultura dos indivíduos detentores de cargos que os inserem no mundo social do poder, ou seja, a sua mediocridade mental. Salientam-se, então, Sousa Neto, ―oficial superior de uma grande repartição do Estado‖ (idem: 402), da ―Instrução Pública‖ (ibidem). No entanto, desconhece Proudhon, começando por responder a Ega, primeiro que não se recordava ―textualmente‖ (idem: 398), depois ―que Proudhon era um autor de muita nomeada‖ (ibidem). Finalmente, perante a insistência de Ega, sintetiza a sua ignorância, afirmando que não sabia que ―esse filósofo tivesse escrito sobre assuntos escabrosos‖ (ibidem), como o amor, acrescentando, porém, que era seu hábito aceitar as opiniões alheias, pelo que dispensava as discussões. Para além de toda esta visível ignorância, Sousa Neto defende a imitação do estrangeiro, revelando a sua incapacidade para o desenvolvimento e para a inovação. Sousa Neto manifesta o seu servilismo relativamente ao que era estrangeiro, desvirtuando tudo o que era nacional.
Por sua vez, o Conde de Gouvarinho representa o Portugal velho e conservador. Mostra- se, assim, voltado para o passado e, para além disso, para tentar esconder a sua ignorância, apresenta, frequentemente, graves lapsos de memória. Ao longo de todo o jantar, o Conde comenta desfavoravelmente as mulheres e revela uma visível falta de cultura, características que, de resto, cabiam na perfeição à classe dirigente portuguesa. Para além de tudo isto, o anfitrião do jantar nunca termina nenhum assunto.
Enfim, como afirma Carlos Reis, o que se destaca, neste momento da obra queirosiana, é a ―superficialidade de juízos dos mais destacados funcionários do Estado, aliada a uma evidente (e natural…) incapacidade de diálogo‖ (Reis, 1984: 71).
2.6. CONCLUSÕES
É na crónica de costumes da vida social lisboeta, de Os Maias, que se verifica uma forte e intensa crítica social. Esta crónica têm existência, como vimos, num determinado tempo, século XIX, num determinado espaço, em que Lisboa é o espaço dominante, e é ilustrada através das personagens que fazem parte dos mais diferentes episódios, a alta sociedade e a aristocracia.
Efectivamente, o tempo é muito importante na narrativa de Os Maias, que é, desde logo, o romance de uma família: Afonso, Pedro e Carlos da Maia. Estas personagens representam então três gerações distintas: Afonso da Maia, a geração do tempo das lutas liberais; Pedro, a
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geração do romantismo, vítima da educação e do desenvolvimento cultural românticos e, por último, a geração de Carlos que vive no período posterior à Regeneração e é aquele que é aqui observado mais pormenorizadamente.
Não menos importante é o carácter naturalista que Eça nos apresenta relativamente à influência da educação, ao ambiente romântico e também o peso da hereditariedade nas personalidades e nos comportamentos das três personagens representantes das três gerações da família Maia.
Toda a crítica, que aqui tivemos oportunidade de constatar, tem espaço físico essencialmente em Santa Olávia, um espaço campestre, onde decorrem a infância de Carlos e a sua vigorosa educação britânica, e em Lisboa, onde tem lugar praticamente toda a vida de Carlos da Maia.
Ao longo da acção, para além da infância de Carlos, que surge, na obra, como motivo para a crítica associada ao tema da educação, vimos que Carlos participou, em torno da mesa, em dois episódios e ambientes, cujos comportamentos e mentalidades são em tudo semelhantes, embora com temas distintos, que ilustram o modo de vida da alta sociedade lisboeta.
No primeiro, o jantar no Hotel Central, desfilam, perante Carlos, as principais figuras e problemas da vida política social e cultural da alta sociedade lisboeta: a crítica literária, a literatura, a história de Portugal e as finanças nacionais. Todos estes problemas são objecto de discussão, que acaba em desacato, o que vem evidenciar também a própria fragilidade moral desta mesma sociedade que, apesar de tudo, queria mostrar-se civilizada.
Por sua vez, no jantar em casa dos Gouvarinho, em que os principais temas são a educação das mulheres, a falta de cultura dos indivíduos que são detentores de cargos que os inserem na esfera social do poder e o deslumbramento pelo estrangeiro, as falas das personagens permitem-nos concluir o atraso intelectual do país e dos valores sociais degradados que o definem.
Em suma, como tivemos oportunidade de constatar, o objectivo de Eça, ao escrever Os Maias foi o de criticar a alta sociedade lisboeta, e consequentemente portuguesa, dos fins do século XIX. Este objectivo, como vimos, tem a sua base na crítica à educação e à mediocridade intelectual da sociedade da época.
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