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Conversei com os diretores da escola sobre o projeto que estava desenvolvendo com os alunos e combinei com eles uma troca de e-mail entre eles e os alunos do 8º ano A. Nesta interação, seriam discutidos assuntos referentes ao desenvolvimento do projeto.

Ao realizar esta atividade, tínhamos alguns objetivos a serem alcançados: envolver os alunos em processos de letramento a partir do gênero textual digital e-mail; fazer com que os alunos percebessem a função interacional da linguagem; e envolvê-los em todas as etapas do projeto, inclusive pedir permissão aos diretores para fazermos a culminância.

Expliquei para os meninos do 8º ano que eles deveriam pedir a autorização da diretora e do vice-diretor para realizarmos a culminância do projeto – o lançamento do livro – com a presença dos pais, e que esse pedido seria feito por e-mail.

Em seguida, conversamos sobre qual tipo linguagem utilizar nesse e-mail, se seria uma linguagem mais formal ou, por se tratar de um ambiente virtual, utilizaríamos uma linguagem coloquial.

Como esse é um assunto que sempre gera polêmica, esperei que eles se posicionassem a favor da linguagem informal, contudo, para minha surpresa, alguns alunos falaram que

apesar de estarmos num ambiente virtual, isso não significa que sempre vamos utilizar a linguagem informal, tudo depende do que estamos fazendo e, como esse momento seria mais formal, teríamos de passar interesse e compromisso pelo que estávamos pedindo, portanto teríamos de usar a norma padrão.

Definido o que iríamos fazer e qual tipo de linguagem iríamos utilizar, nos organizamos em duplas e seguimos para o laboratório.

Os alunos possuíam endereço eletrônico, no entanto, a maioria só utilizava esse endereço para acessar as redes sociais – facebook e, com menos frequência, Orkut –, não sabiam o que era o e-mail. Com a ajuda da estagiária da sala de informática, fomos orientando-os na busca pelos provedores – gmail, hotmail, Yahoo – e os alunos que já estavam habituados com esse gênero textual também foram orientando o parceiro que não o conhecia.

Abertos os e-mails das duplas, deram início ao processo de construção textual, tendo em mente a natureza interativa da linguagem. Percebi a empolgação na elaboração dos textos a serem enviados, pois tínhamos objetivos e interlocutores bem definidos, assim, pairava uma preocupação com o que estava sendo dito, uma vez que seria lido pelos diretores da escola. Devido a essa preocupação, fui solicitada várias vezes para verificar se o texto estava bom, se já haviam dito tudo, se já poderiam enviar, demonstrando uma confiança maior em mim do que no colega.

Algumas duplas trabalharam realmente em conjunto, já em outras duplas percebi que quem mais tinha familiaridade com o computador elaborava o texto, enquanto o outro olhava, sem se responsabilizar pelo que estava sendo escrito. Conversei com o grande grupo, enfatizando a importância dos componentes das duplas se ajudarem na realização da atividade, pois fazer a leitura do e-mail antes de enviá-lo era fundamental para que o processo comunicativo acontecesse com clareza.

Após alguns dias, recebemos as respostas enviadas pela diretora, ao lê-las, os alunos se sentiram felizes, valorizados em sua condição de pessoa que pensa, que escreve, que se comunica e que merece ser ouvido e ter respostas em seus processos comunicativos, felizmente, a resposta encontrada em suas caixas de entrada do e-mail contrariou as suas expectativas – que os diretores são pessoas importantes demais para se preocuparem em responder às questões de “simples” alunos.

Em seguida, eles fizeram um novo texto agradecendo aos diretores pela atenção dada e pela permissão concedida para a realização da manhã de autógrafos. Segue abaixo um dos e- mails construídos nessa ação comunicativa entre os alunos e a diretora:

Re: livro de contos

RS ([email protected]) 11/05/2012 Para: fatima ferraz

Cc: [email protected] Bom dia Fátima,

obrigado pela sua atenção e pela sua permissão a gente vai fazer nossa escola ser mais feliz do que é, nossa escola sem a gente não é nada nós que fazemos a alegria na escola!

Em 9 de maio de 2012 16:01, Fátima ferraz <[email protected]> escreveu:

RS e G,

um livro é uma caixa mágica onde descobrimos o que queremos descobrir. É um pássaro alado que nos permite voar nas asas da imaginação, é só fechar os olhos e acreditar ... No meu imaginário o livro que se encontra em elaboração, já me permitiu sonhar e acreditar no sonho de vocês. Então coloquem nesse livro a sabedoria que produz encantamento.

Sucesso, Beijos, Fafá

Date: Tue, 8 May 2012 09:55:07 -0300

Subject: livro de contos From: [email protected]

To: [email protected]; [email protected];[email protected]

Senhor José Carlos e senhora Fátima diretores da escola Padre Antônio Henrique, nós alunos do 8º ano estamos escrevendo um livro de contos e queremos

sua autorização para que possamos apresentar nosso conto na escola para os professores e nossos familiares e todos os alunos da escola.

Nós iremos apresentar no dia 22/06/2012 pretendemos fazer um lanche depois da apresentação para gente, para nossos pais, professores e diretores de nossa escola.

Nós agradecemos pela sua atenção, esperamos que a o senhor e a senhora possam autorizar o nosso trabalho.

RS e G

Ao concordar com o projeto e aceitar responder a todos os e-mails dos estudantes, mesmo tendo de reservar um tempo para isso em sua agenda tão cheia de compromissos, a diretora demonstrou compreender a leitura e a escrita como forma de interação social, sendo o texto fruto da atividade humana e produzido para fins específicos, segundo as necessidades sociais.

As respostas elaboradas e enviadas pela diretora aos correios eletrônicos dos alunos nos mostram também que ela não se resumiu a autorizar a iniciativa dos alunos em promover uma manhã de autógrafos com a presença dos pais, ela foi além, se colocou no papel de incentivadora da prática da escrita, mostrando para os alunos que acredita no potencial de cada um. Sentir-se com a autoestima elevada em processos de produção escrita é, de acordo com Bazerman (2007), fundamental para que os estudantes possam se lançar em outros campos comunicativos.

Essa postura assumida pela diretora da escola revela-se importante para os alunos, uma vez que os tira da área de escritores para ninguém ou para um único leitor – o professor – e os coloca diante de um leitor real, que interage com eles em prol de um objetivo, assim os alunos sentiram-se motivados para mais um exercício de escrita – responder ao e-mail da diretora agradecendo a ela pela confiança depositada em nosso trabalho –, confirmando a abordagem de Valente e Almeida (2011) quando nos dizem que o letramento digital diz respeito ao domínio das tecnologias digitais, não apenas descobrindo informações e repassando-as, mas aplicando-as em contextos sociais.

Essa interação com outros leitores além do professor também aconteceu com um escritor de poemas e contos, como veremos a seguir.