2.4 Andre virkemidler for å oppnå en mer effektiv prosess
2.4.1 Aktiv saksstyring
Detenhamo-nos então na questão do papel e o lugar das mulheres no contexto do trabalho serviçal das roças que estão longe de ser reconhecidos, dada a sua invisibilidade no tratamento dos vários dados económicos que apontam o sucesso da economia cacaueira no contexto dos projectos da colonização portuguesa nos sécs XIX-XX. Contudo, são cada vez mais os estudiosos das questões económicas que vêm discutindo as particularidades da participação das mulheres na economia, situação também observada nas roças de STP.
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Na prática e na verdade, a presença das mulheres no trabalho assalariado no campo não alterou a responsabilidade quase exclusiva que sempre as deteve ao trabalho doméstico. A literatura aponta que se tratam de elementos considerados como parte da sua identidade, uma vez que a maternidade é considerada seu valor principal associada a valores como a docilidade, fragilidade, compreensão, cuidado e afecto (Faria, 2009).
Ilustração 7: Mulheres na quebra e enchendo tinas de cacau/ Roça Água Izé
Fonte: AHSTP
Nas roças as tarefas dos homens contratados para trabalhos agrícolas acordados com os patrões baseavam-se em desbravar terrenos, abrir caminhos, proceder a trabalhos de qualquer espécie de cultura, tratar dos gados e da sua limpeza, fazer o serviço dos terreiros, proceder ao trabalho de carga dentro ou fora da propriedade quer às costas, quer guiando ou conduzindo animais, apanhar e extrair produtos, abrir capoeiras, cortar e aparelhar madeiras, salvar e beneficiar as colheitas, fazer todos os serviços conforme as suas capacidades e aptidões e segundo a escolha do proprietário.
Já o trabalho adstrito às mulheres contratadas obrigava-as, entre muitas outras a tarefas de apanha, quebra e extracção de produtos, a tratar das aves domésticas,proceder à capina e quebra do cacau e copra, colheita do café, limpar capoeiras e sanzalas, prestar serviços nos terreiros, fazer vassouras e quales (nome em crioulo fôrro dado ao cesto feito de nervura da folha do coqueiro da palmeira do andim), tratar das crianças e doentes, capinar as bermas dos caminhos, abrir trilhas e caminhos secundários; servir nas casas dos patrões como criadas,
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cozinheiras, copeiras e lavadeiras, engomadeiras das roupas dos patrões e engraxadoras dos seus sapatos e botas, entre muitas outras tarefas.
O trabalho feminino no campo (e as roças não constituíram uma excepção), apesar de contribuir para o aumento da renda económica, ainda remete para muitos como actividade complementar da actividade exercida pelo trabalho masculino. Essa falta de reconhecimento é o motivo principal da invisibilidade do trabalho feminino dentro do sector produtivo (Almeida, Noronha & all, 2014:3741).
Apesar da inúmera contribuição da mulher serviçal no trabalho roceiro a invisibilidade da sua actuação marcou todas as formas de análise económica desse tipo de trabalho. Dado que se destinava, regra geral, a prover a subsistência familiar, acaba por não ser contabilizada nem nas contas do Estado, nem sequer nas das famílias. Cultivar, colher, tomar conta dos filhos, cozinhar e tratar da casa, figurou sempre como uma tarefa adstrita às mulheres e como uma competência quase de foro natural. “Em termos das avaliações das estatísticas económicas convencionais as mulheres africanas estiveram assim e, por muito tempo, sem existir uma vez que a leitura e a interpretação do desenvolvimento se perspectivava no domínio do crescimento económico e, por conseguinte, a partir dos indicadores quase exclusivamente quantificáveis, ligados à produção e ao lucro” (Frias,2005:133).
Tenreiro (1961), ainda que não aprofunde essa discussão, dá-nos alguns detalhes sobre a complementaridade de tarefas do trabalho roceiro entre homens e mulheres:
“O cacau apanhado é transportado em quales até a beira do caminho; aí despeja-se o balaio em cima de folhas de bananeira, cortadas para o efeito, amontoando-se de forma a constituir a tem da, É logo ali, muitas vezes, que as mulheres munidas também de um machim, procedem à quebra, mediante hábil pancada que fende a baga, permitindo a extracção intacta das sementes gomosas (as lavas). Noutros locais da roça, sulfata-se, curam-se as feridas do cacaueiro, limpam-se as árvores dos ladrões que põem em perigo o seu desenvolvimento; noutros, ainda, andineiros práticos munidos de corda trepam as palmeiras e cortam andim amarelo-rubro; mulheres apanham cocos do chão e amontoam-nos ou esperam, como vai acontecendo hoje, que os homens trepem às árvores e com machinadas certeiras os derrubam.” (Tenreiro, 1961: 157).
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“É pelas 8 horas da manhã que o terreiro ganha maior animação: mulheres, palradoras partem cocos e extraem a copra, que outras estenderão no secador descoberto; mexe-se o cacau para que seque por igual, quando em tabuleiros de seca ao sol, ou, nas propriedades mais modernizadas, junto das estufas, fiscalizam-se os aparelhos que regulam o tempo e a marcha da secagem…” (Tenreiro, 1961: 156)
Podemos adotar igualmente esta análise no presente estudo, pois que o trabalho das serviçais das roças tem estado muito ausente das análises académicas, tendo sido, geralmente examinado mediante lógicas de preconceito, nomeadamente sob a alegação, entre outras, de indolência, preguiça, rebeldia, propensão ao conflito, pouca produtividade, entre outros, situação muito comum nas literaturas sobre o trabalho compelido tendo por base o ponto de vista dos patrões.
Tomando este ponto como muito importante para a nossa análise, não podemos deixar de sublinhar que Nascimento (2003), dedica todo um capítulo do livro “O Sul da diáspora, cabo- verdianos em plantações de S. Tomé e Príncipe e Moçambique”, denominado “Mulheres e ordenamento social nas roças em S. Tomé e Príncipe. Notas exploratórias sobre o caso das cabo-verdianas” (pp 227-251). Esta é uma das poucas obras de referência sobre a matéria e trata exclusivamente uma franja das mulheres serviçais, as cabo-verdianas. Apesar da relativamente pouca informação sobre as mulheres nas roças, este autor refere que a liberdade das mulheres, resultante da participação no processo produtivo e dos moldes de recrutamento e incorporação nas roças, encontrava limites quer no patriarcalismo vigente (em virtude do qual, por exemplo, se remuneravam melhor os homens, apesar de nem sempre o desempenho produtivo confirmar a apriorística concepção da melhor prestação produtiva destes).
Sendo difícil tipificar a disposição dos roceiros para com as serviçais, pode assumir-se que elas, tal como os companheiros, fossem entendidas como braços. Nesta base, nas roças não se fazia acepção de pessoas, pendendo sobre as mulheres obrigações similares a dos homens, condição essa que fez recair sobre as mesmas cumprimento simultâneo um duplo papel: o produtivo e o de estabilização da força de trabalho, de acordo com Nascimento (2003). Daí que relativamente à divisão sexual do trabalho, prossiga o supracitado autor:
“Nenhuma noção de género pesou decisivamente numa divisão de trabalho nas roças, onde prevalecia uma maleável divisão sexual do trabalho. Certas tarefas pareciam reservadas aos homens enquanto outras como a quebra e escolha do cacau eram prescritas às mulheres. Já as tarefas cruciais da capina e da colheita mobilizariam
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todos os trabalhadores. Na organização do trabalho, as considerações relativas ao género submetiam-se à valia produtiva das mulheres” (Nascimento,2003:230 – 231).
Trata-se assim de perceber os aspectos que dizem respeito ao quotidiano das serviçais num contexto socioeconómico onde o androcentrismo esteve sempre presente nas relações sociais.
Retomando o assunto no “Poderes e Quotidiano nas Roças de STP” (2002:236) o mesmo autor faz menção ao obscurecimento do papel das mulheres por via da tradição patriarcal do espaço rural português, de que a roça era, uma extensão simbólica. Assim, nos referidos espaços, não aparecem sinais da primazia da mulher africana nas tarefas agrícolas e domésticas. Adianta que o eventual poder e papel das mulheres na mutação das relações de género era contrariado pelos limites decorrentes da rigidez das roças onde também diversas situações, desde o patriarcalismo às prescrições legais sobre salários, sugeriam a subalternização das mulheres”, apesar do seu ingresso no sistema capitalista de produção por via do trabalho compulsivo.
Não obstante o não reconhecimento do papel da mulher no trabalho roceiro muitas dizem ter assumido trabalho masculino quando, na hora, faltassem homens para o fazer. É o caso da cabo-verdiana Miosótis, que segundo o depoimento da sua neta (que entrevistámos em Diogo Vaz numa das nossas visitas exploratórias), derrubava madeiras como os homens, abria lugares encapoeirados e até matava cobras (depoimento de Íris, neta de Miosótis no dia 24/09/2016).
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Ilustração 8: Divisão Sexual do Trabalho. Mulheres na quebra do cacau
Fonte: AHSTP