3 Metode
3.2 Aksjonsforskning
Tendo-se adotado, nesta fase do trabalho de investigação, uma metodologia de natureza qualitativa, procedeu-se à construção, aplicação e tratamento dos dados de um questionário de resposta aberta a que responderam onze docentes em exercício efetivo de funções em três instituições de ensino do 3ºCiclo e Secundário da zona suburbana de Lisboa e que viveram apenas a experiência de terem sido avaliados pelos seus pares no biénio 2007-09, ou seja, nenhum destes professores desempenhou o papel de avaliador.
Para esta etapa da pesquisa, foram definidos os objetivos gerais já enunciados no capítulo 3 e que aqui recordamos:
1. Identificar representações dos inquiridos acerca da profissão docente bem como os quadros de referência dessas representações, e, em particular, os relativos ao desenvolvimento profissional enquanto critério definidor da profissionalidade. 2. Identificar representações dos professores avaliados acerca da experiência de
avaliação docente 2007-09, em que estiveram envolvidos, e os respetivos quadros de referência.
3. Identificar representações dos professores avaliados relativas a cenários futuros da avaliação docente e dos seus impactos sobre a profissão.
4. Inferir hipóteses pertinentes para a fase posterior da investigação.
Ainda que nos interessasse aprofundar as conceções dos docentes sobre o desenvolvimento profissional, optámos por não os questionar diretamente acerca do assunto, preferindo verificar se, ao caracterizarem a profissão docente ou ao exprimirem as suas perceções sobre a experiência de avaliação 2007-09, os professores avaliados mencionavam o desenvolvimento profissional como elemento relevante e, ao fazê-lo, de que modos o referiam. Ou seja, foi nossa intenção não orientar a atenção dos inquiridos
para o nosso foco de interesse, mas observar se no seu discurso os professores se reportavam espontaneamente à questão em análise, de forma explícita ou implícita, em contextos em que a menção do tema seria pertinente.
Por outro lado, enveredámos pelo método indutivo, pois tal opção nos permitiria valorizar primordialmente as respostas dos docentes inquiridos, a partir das quais formularíamos então hipóteses para as posteriores etapas da investigação. Considerámos que se enveredássemos por um caminho dedutivo, assente em quadros teóricos fornecidos pela literatura científica ou em constructos assentes nas nossas reflexões pessoais, condicionaríamos as opiniões dos professores questionados e as perspetivas singulares que pudessem exprimir.
Além da possibilidade de formulação de hipóteses em fases posteriores da nossa investigação, considerámos que esta etapa do trabalho contribuiria para aceder com maior profundidade ao enquadramento humano, pessoal e profissional, que pretendíamos compreender no que diz respeito às representações, às motivações e aos esquemas cognitivos individuais dos professores questionados. Neste sentido, foi nossa pretensão compreender os fenómenos no contexto real da sua ocorrência, seguindo as recomendações da corrente interpretativa em investigação educacional.
Caracterização dos docentes inquiridos
Embora inicialmente o questionário tenha sido distribuído a um número mais alargado de docentes por escola, responderam-lhe onze professores avaliados, cuja caracterização e distribuição se explicita no quadro a seguir.
Quadro 2. Distribuição dos 11 respondentes por idade, tempo de serviço, grau académico, área científica e instituição escolar
Idades Tempo de
serviço Grau Académico Área científica
Instituição escolar 40 1 17 1 Licenciatura 7 Português 4 A 8 44 1 21 1 Português-Francês 2 46 1 23 1 Francês 1 49 2 26 3 B 2 51 1 29 1 Mestrado 4 Inglês-Alemão 1 52 2 30 2 Inglês 2 54 2 34 1 História 1 C 1 62 1 41 1
Ainda que a constituição do grupo dos respondentes não tenha correspondido à inicialmente desejada, no que diz respeito a uma distribuição mais equilibrada por escola e a uma maior diversificação das áreas científicas lecionadas, como esta etapa da investigação assumiu uma natureza exploratória, pensou-se que os dados obtidos já seriam úteis para basear as etapas seguintes da pesquisa. Interessava-nos aproximarmo- nos do discurso dos professores, saber como falavam quando falavam da sua profissão e da avaliação docente e como se referiam (se se referiam) ao desenvolvimento profissional. Tendo por base o seu quotidiano linguístico, reflexo do seu pensamento, o trabalho de conceção e de análise do posterior questionário de resposta fechada seria, segundo críamos, facilitado.
Tratamento dos dados
Optámos pela organização da informação em quatro temas nucleares, que tratámos de forma independente:
Tema 1. Conceções sobre a profissão docente
Tema 2. Perceções do processo e da experiência de avaliação docente no biénio 2007-09
Tema 4. Preocupações relativas à futura avaliação docente e seus impactos sobre a profissão
Neste estudo, adotámos como unidades de contexto cada um dos textos integrais dos respondentes, a que atribuímos um código que fizemos corresponder a uma letra diferente do abecedário, percorrendo os 11 docentes as letras A a K.
Apresentamos agora quatro quadros, identificadas pelos respetivos temas, com as suas categorias, as subcategorias e as UE (unidades de enumeração). Tomámos como
unidade de enumeração o número de unidades de registo por categoria, a fim de
procedermos ao cálculo das frequências relativas das ocorrências entre categorias. Pretendíamos saber quais as opiniões mais partilhadas pelos docentes questionados, aquelas que eram mais consensuais e, por isso, foram mais insistentemente abordadas pelos respondentes.
Quadro 3. Categorização do tema 1. “Conceções sobre a profissão docente”
Categorias Subcategorias UE
1. Uma profissão com vários papéis e funções
1.1. Multiplicidade de papéis e de funções
7 1.2. Papel relativo do ensino disciplinar
1.3. Função educativa substituta
2. Uma profissão de interesse público
2.1. Formação pessoal e social dos futuros cidadãos
5 2.2. Cooperação social na educação para os valores
2.3. Colaboração com a comunidade na Educação para a Cidadania e para a Saúde
3. Uma profissão marcada por motivações intrínsecas
3.1. Sentimento pessoal de utilidade
3 3.2. Vocação e devoção
3.3. Atitudes emocionais inibidoras do desempenho
4. Uma profissão em mudança
4.1. Adaptação permanente aos contextos sociais em alteração
4 4.2. Procura contínua de novas soluções pedagógicas
alternativas
5. Uma profissão de exigente especialização
5.1. Competências científico-didáticas
7 5.2. Necessidade de formação/ atualização ao longo da vida
5.3. Resposta adequada às exigências curriculares nacionais e locais
Categorias Subcategorias UE 6. Uma profissão associada a
características de personalidade
6.1. Qualidades pessoais
3 6.2. Relacionamento interpessoal
6.3. Cultura colaborativa 7. Uma profissão condicionada
pelas políticas educativas
7.1. Agente da mudança educacional na escola
3 7.2. Desencanto associado ao desajuste das reformas
educativas 8. Uma profissão com estatuto
social frágil
8.1. Desvalorização social por influência política e
mediática 3
8.2. Perda progressiva de prestígio e de autoridade
Quadro 4. Categorização do tema 2. “Perceções do processo e da experiência de avaliação docente no biénio 2007-09”
Categorias Subcategorias UE
1. Reforma profunda do sistema de avaliação docente
1.1.Introdução de alterações profundas
5 1.2. Simplificação ulterior do processo
1.3. Importação do modelo
2. Mudanças percecionadas como positivas
2.1. Necessidade de uma avaliação do desempenho docente
13 2.2. Aferição da qualidade de ensino
2.3. Observação de aulas 2.4. Análise documental 2.5. Avaliação quantitativa 2.6. Papel formativo da avaliação
2.7. Avaliação da componente científico-pedagógica 2.8. Colaboração entre os órgãos de gestão e os professores
3. Situações e mudanças percecionadas como negativas
3.1. Falta de competências dos avaliadores
38 3.2. Avaliação pelos pares
3.3. Burocratização e complexidade do processo 3.4. Falta de diálogo entre o Ministério e os professores 3.5. Existência de quotas
3.6. Falta de transparência e de objetividade 3.7. Injustiça do sistema de avaliação 3.8. Deterioração do clima de escola
Categorias Subcategorias UE 3.10. Medidas economicistas
3.11. Sentimentos de frustração, de desmotivação e de desconfiança dos profissionais
3.12. Aferição inadequada da qualidade de ensino
Quadro 5. Categorização do tema 3. “Perceções sobre a reconfiguração da carreira docente no novo ECD”
Categorias Subcategorias UE
1. Críticas às conceções dominantes no novo ECD.
1.1. Divisão da carreira em duas categorias
5 1.2. Atribuição de responsabilidades excessivas
1.3. Desacreditação da classe profissional
Quadro 6. Categorização do tema 4. “Preocupações relativas à futura avaliação docente e seus impactos sobre a profissão”
Categorias Subcategorias UE
1. Evolução negativa da carreira
1.1. Sentimentos de frustração
16 1.2. Enfraquecimento dos valores profissionais
1.3. Desmotivação induzida pelo sistema de quotas 1.4. Gestão da carreira por critérios economicistas 2. Manutenção do modelo de
avaliação docente 2007-09
2.1. Falta de credibilidade e de justiça
11 2.2. Falta de consensos
2.3. Parcialidade dos juízos
3. Receios relativos aos avaliadores
3.1. Seleção deficiente
8 3.2. Falta de formação
3.3. Dificuldade no desempenho de um papel formativo 3.4. Dificuldade de os professores aceitarem a avaliação por pares
4. Sugestões para obviar às dificuldades
4.1. Discussão de ideias
4 4.2. Tranquilidade
Descrição das categorias
Para os quatro temas definidos, fixámos 16 categorias que passamos a descrever.
TEMA 1: CONCEÇÕES SOBRE A PROFISSÃO DOCENTE
CATEGORIA 1. Uma profissão com vários papéis e funções
Nesta categoria foram incluídas todas as referências que dão ênfase à multiplicidade de papéis e de funções que o professor é solicitado a desempenhar pelas famílias e pela tutela, enquanto mediador dos saberes sociais e dos conhecimentos disciplinares, sublinhando-se a relatividade do ensino disciplinar face à preponderância da função do professor como substituto dos demais agentes educativos.
CATEGORIA 2. Uma profissão de interesse público
Nesta categoria foram reunidas todas as referências ao contributo cívico dos professores no âmbito da formação pessoal e social dos futuros cidadãos, em apoio ao desenvolvimento da sociedade, no âmbito da cooperação na educação para os valores e, ainda, da colaboração com a comunidade na educação para a cidadania e para a saúde, motivando um maior envolvimento das famílias.
CATEGORIA 3. Uma profissão marcada por motivações intrínsecas
Nesta categoria foram incluídas todas as referências às motivações intrínsecas dos professores, destacando-se o sentimento pessoal de utilidade, a vocação e a devoção, o que torna gratificante o exercício da profissão, mas também as referências a atitudes emocionais inibidoras do desempenho profissional, especificamente, os receios e as frustrações.
CATEGORIA 4. Uma profissão em mudança
Nesta categoria foram integradas todas as referências aos condicionalismos quotidianos que impõem mudanças aos docentes, salientando-se a exigência de adaptação permanente dos professores aos contextos sociais em alteração e a procura contínua de soluções pedagógicas alternativas.
CATEGORIA 5. Uma profissão de exigente especialização
Nesta categoria foram incluídas todas as referências às competências científicas, pedagógicas e didáticas, à necessidade de formação e atualização ao longo da vida, à obrigação de responder adequadamente às exigências curriculares impostas aos níveis nacional e local, características que, no seu conjunto, parecem delinear para os respondentes o perfil de especialização docente.
CATEGORIA 6. Uma profissão associada a características de personalidade Nesta categoria foram reunidas todas as referências aos traços de caráter, destacando-se as qualidades pessoais que favorecem o relacionamento interpessoal no processo de ensino e aprendizagem e a cultura colaborativa no contexto de trabalho.
CATEGORIA 7. Uma profissão condicionada pelas políticas educativas Nesta categoria foram incluídas todas as referências aos constrangimentos políticos que têm imposto dificuldades aos professores ao torná-los agentes das mudanças educativas e que têm produzido o desencanto dos docentes pela profissão, devido ao desajuste das sucessivas reformas do sistema de ensino.
CATEGORIA 8. Uma profissão com estatuto social frágil
Nesta categoria foram agrupadas todas as referências às fragilidades estatutárias da profissão, decorrentes quer da desvalorização social por influência da intervenção política e mediática quer da perda progressiva, ao longo dos anos, do prestígio e da autoridade.
TEMA 2: PERCEÇÕES DO PROCESSO E DA EXPERIÊNCIA DE
AVALIAÇÃO DOCENTE NO BIÉNIO 2007-09
CATEGORIA 1. Reforma profunda do sistema de avaliação docente
Nesta categoria foram incluídas todas as referências às medidas reformadoras que, nas fases iniciais do incremento do modelo de avaliação do desempenho docente 2007-09, surpreenderam os professores, especificamente, as alterações profundas
introduzidas no processo avaliativo dos docentes, a simplificação posterior e a importação do modelo.
CATEGORIA 2. Mudanças percecionadas como positivas
Nesta categoria foram integradas todas as referências aos aspetos considerados positivos pelos professores em relação ao processo e à experiência de avaliação docente do biénio 2007-09, nomeadamente, a necessidade de uma avaliação docente associada à melhoria e à aferição da qualidade do ensino, as estratégias de observação de aulas e de análise documental, a expressão quantitativa do resultado final da avaliação, as expetativas em relação ao papel formativo da avaliação, a avaliação da componente científico-pedagógica e a atitude de colaboração entre os órgãos de gestão e os professores.
CATEGORIA 3. Situações e mudanças percecionadas como negativas
Nesta categoria foram incluídas todas as referências aos aspetos considerados negativos pelos professores em relação ao processo e à experiência de avaliação docente do biénio 2007-09, especificamente, a falta de formação e de competências dos avaliadores, a avaliação pelos pares associada a conflitos colegiais, a burocratização e a complexidade do processo com implicações na sua falta de agilização, a falta de diálogo entre os responsáveis ministeriais e as escolas, a limitação imposta pelo sistema de quotas para se aceder às menções máximas de mérito, a falta de transparência e de objetividade, a iniquidade do modelo, a deterioração do clima de escola, a insuficiência do número de aulas observadas para avaliar a excelência do professor, a suspeita de o modelo 2007-09 estar ao serviço de perspetivas economicistas penalizadoras da progressão na carreira, a emergência de sentimentos de frustração e de desmotivação, a dúvida sobre a eficácia do modelo de avaliação docente 2007-09 na aferição da qualidade do ensino.
TEMA 3: PERCEÇÕES SOBRE A RECONFIGURAÇÃO DA CARREIRA
DOCENTE NO NOVO ECD
CATEGORIA 1. Críticas às conceções dominantes no atual ECD
Nesta categoria foram reunidas todas as referências que consubstanciam juízos de valor ao Estatuto da Carreira Docente (Decreto-Lei nº 15/2007, de 19 de janeiro), especificamente a divisão categorial da carreira, a atribuição de responsabilidades excessivas aos professores e a consequente desacreditação da classe profissional.
TEMA 4: PREOCUPAÇÕES RELATIVAS À FUTURA AVALIAÇÃO
DOCENTE E SEUS IMPACTOS SOBRE A PROFISSÃO
CATEGORIA 1. Evolução negativa da carreira
Nesta categoria foram incluídas todas as referências às expetativas sobre a evolução negativa da carreira docente que são acompanhadas por sentimentos de frustração, visto os respondentes preverem como efeitos tanto o enfraquecimento dos valores profissionais, com reflexos negativos no processo de ensino e aprendizagem, como a gestão das carreiras norteada por critérios economicistas.
CATEGORIA 2. Manutenção do modelo de avaliação docente 2007-09
Nesta categoria foram integradas todas as referências que configuram previsões das consequências advindas da manutenção futura do modelo de avaliação 2007-09, especificamente, a persistência da falta de credibilidade e de justiça do processo avaliativo, a dificuldade de os vários intervenientes chegarem a consensos significativos, a continuação da parcialidade na emissão de juízos valorativos.
CATEGORIA 3. Receios relativos aos avaliadores
Nesta categoria foram incluídas todas as referências aos receios relativos aos avaliadores, nomeadamente no que concerne a sua seleção aleatória, a falta de formação específica, a dificuldade de avaliarem numa perspetiva formativa, a rejeição a que serão sujeitos pelos seus pares.
CATEGORIA 4. Sugestões para obviar às dificuldades
Nesta categoria foram integradas todas as referências a propostas dos respondentes, tendo em vista o incremento de um sistema de avaliação do desempenho docente mais adequado, destacando-se a discussão de ideias, a promoção de um ambiente de tranquilidade e a natureza formativa da avaliação com a finalidade de favorecer o desenvolvimento profissional.