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Aggregation and decomposition

O espaço urbano encerra espaços vazios, mas não existem espaços neutros. O conceito de espaço residual está presente tanto na arquitetura quanto nos estudos sobre urbanismo. Robert Venturi opõe espaço residual a espaço dominante em suas análises sobre construções arquitetônicas. Nos casos analisados pelo autor o desenho arquitetônico prevê um programa que inclui estes dois espaços em tensão na criação de um todo complexo. Dentro desta perspectiva claramente hierarquizada, os espaços residuais são controlados e seu uso previsto (embora passível de ser alterado). Já nas cidades a própria noção de todo é subjetiva. Os tempos distintos que operam concomitantemente no espaço urbano, os diferentes tipos de planejamento e usos que são justapostos ou mesmo sobrepostos criam espaços residuais não previstos. No entanto, por sua característica de “espaço que sobra”, tornam-se incômodos espaços “vazios”, desvios da norma. Venturi aponta para um problema da visão dos arquitetos: “em vez de procedermos ao reconhecimento e à exploração dessas espécies características de espaços, convertemo-los em estacionamentos ou gramados raquíticos - uma terra de ninguém entre a escala regional e a local. (2004:111)”

Ferrara (2000:179) descreve os espaços residuais relacionando-os em uma perspectiva entrópica e informacional em que o espaço residual é uma sobra física e ao mesmo tempo corresponde a um pedaço desnecessário à cidade oficial. Segundo a autora o paradoxo está em ser uma conseqüência incontornável; quanto mais falta espaço, maior é a quantidade de pedaços residuais, ou seja, “corresponde a um impasse entre funcionalidade e visibilidade urbana”. São espaços que não se adaptam a usos funcionais ao mesmo tempo em que não são adequados à concentração comercial ou de serviços ou outras formas de consumo espacial.

Ezra Park (in: Grafmeyer e Joseph, 1979:200), analisando a cidade de Chicago, menciona que as partes abandonadas da cidade tendem a se transformar em zonas de ocupação ocasionais e transitórias, atraindo imigrantes recém-chegados e artistas que buscam refúgio contra “os fundamentalismos e o espírito rotariano67” da cidade dita oficial. O autor utiliza o termo terrain vague para descrever os acampamentos temporários ao longo da via férrea de trabalhadores ou desempregados à espera de uma oportunidade, uma sociedade efêmera e com leis estritas que se assemelhariam aos agrupamentos dos pioneiros desbravadores dos Estados Unidos. De modo distinto mas de certo modo complementar, Halbwachs (in: Grafmeyer e Joseph, 1979:297) analisa a ocupação do espaço pelas gangues juvenis de Chicago que se reuniam para jogar, brincar, realizar pequenas depredações e delitos. Ruas de comércio, parques, mas também zonas abandonadas, docas, bordas de canais e de vias férreas, além de bairros “mal freqüentados” em geral, eram escolhidos pelas gangues pelo seu caráter pitoresco ou oportuno. Estes espaços considerados desorganizados, onde era possível a existência

67 O Rotary Club é uma instituição presente atualmente em todo o mundo. Nasceu em Chicago em 1905 e buscava reunir profissionais liberais e executivos para possibilitar intercâmbios profissionais em torno de projetos de ajuda social. O caráter predominantemente elitista e pró-capitalista do clube e o perfil WASP (sigla que designa a elite americana formada pelo branco, anglo-saxão e protestante) de seus membros fizeram com que fosse alvo de duras críticas por parte dos pesquisadores que formavam a Escola de Chicago, como Ezra Park.

66 de um modo de vida efêmero e pouco regulado, se localizava em interstícios da cidade mais rigidamente estruturada, eram fissuras, lacunas do organismo social oficializado. Não estavam, portanto, em uma relação de oposição entre centro e periferia, estavam “entre”, eram veios que percorriam a cidade, assim como os percursos dos trens na cidade. As vias férreas, consideradas pelos autores de grande importância nas estruturas sociais que se desenvolviam em Chicago, cortavam bairros, ruas, não respeitavam os limites e o percurso dos pedestres. Eram, como ilustra Halbwachs, um mapa industrial que se sobrepôs ao mapa urbano. Este desenho se combinava com os vastos muros que limitavam fábricas, as “novas fortalezas” da cidade, cuja proximidade era evitada pelos grupos mais abastados e conseqüentemente apropriadas por grupos excluídos da cidade por seu caráter intersticial, gerando novos modos de vida.

O conceito de terrain vague oferece várias leituras: espaço vazio, obsoleto, abandonado, deteriorado, mas também indefinido, impreciso. Alguns autores o traduzem para terreno vago, terreno baldío (castelhano), wasteland (inglês), enquanto outros como Solà-Morales preferem o termo francês por sua amplitude de significados que permite reunir territórios e edifícios. Ele chama a atenção para o significado de terrain, que se refere a um território urbano ou de limites definidos, uma proporção de terra aproveitável. Vague por sua vez, além da relação com vanus do latim (ocioso, vazio), tem também relação com o termo germânico vagr-wogue, que se refere à onda das águas, movimento, instabilidade (de onde vem o termo wave em inglês). Também se refere ao termo vagus do latim, que significa indeterminado, incerto, fazendo de terrain vague um termo quase paradoxal. Quase porque sabemos que a cidade é o espaço onde o definido e o indefinido coexistem, e não são poucos os exemplos que ilustram esta relação. Em resumo, o termo vague traz a idéia de potencialidade e movimento, expectativa. São em si mesmos lugares da contra-racionalidade, fora das estruturas produtivas, como define Brissac (“Terreno Vago”, 2002: sem numeração de página), remanescentes das diversas operações de reconfiguração de suas regiões em escalas mais amplas e complexas. Lugares de forças mais do que formas, onde a estruturação urbanística não consegue organizar, mesmo porque estes espaços são os resíduos criados direta ou indiretamente por esta mesma urbanização. Solà-Morales detalha a potencialidade inerente destes sítios:

“Aparecem como contra-imagem da cidade, tanto no sentido de sua crítica como no de um início de sua possível alternativa. (...) Esta ausência de limite, este sentimento quase oceânico, para dizê-lo com a expressão de Freud, contém expectativas de mobilidade, vagabundeio. (...) A presença do poder convida a escapar de sua presença totalizadora, o conforto sedentário chama ao nomadismo desprotegido; a ordem do urbano chama a indefinição do terrain vague. Se convertem deste modo em indícios territoriais dos problemas estéticos e éticos que propõem, envolvem a problemática da vida social contemporânea.” 68 (1995:61)

68 “Aparecen como contraimagen de la ciudad, tanto en el sentido de su crítica como en el de un inicio de su posible alternativa. (...) Esta ausencia de límite, este sentimiento casi oceánico, para decirlo con la expresión de Freud contiene expectativas de movilidad, vagabundeo. (...) La presencia del poder invita a escapar de su presencia totalizadora, el confort sedentario llama al nomadismo desprotegido; el orden

Dentro da definição do autor, terrain vague pode ser o espaço que sobra nas margens dos rios, canteiros, áreas mais inacessíveis ou de acesso restringido, áreas que ladeiam avenidas, espaços sob pontes. Lugares que também não respeitam a ordenação centro-periferia, que estão nos interstícios da cidade. Segundo Ferrara (2000:178), a degradação urbana é estrutural, faz parte do processo de metropolização. Segundo a autora, é preciso entendê-lo de modo a que a riqueza desta informação não se perca no caos e seja traduzida como crise. A idéia de caos ou crise, que no senso comum expressa insegurança, é, em termos informacionais, índice de grande abertura e riqueza do pensamento e da ação. Caos ou crise podem ser considerados equivalentes às transformações radicais, contínuas e imprevisíveis que atingem o cotidiano, aí incluídos os fenômenos urbanos.

Lynch analisa o processo atual de abandono das cidades norte-americanas por razões principalmente econômicas, mas também climáticas, processo que ocorre desde 1800. Para o autor, esse fenômeno não deveria ser visto de modo negativo, porque ao contrário da idéia de fracasso, há a geração de um outro espaço, que pode ser vivenciado e aproveitado de modos distintos. Os espaços abandonados concentram modos de vida descartados e possibilidades de se recuperar e começar coisas novas. Para o autor, a obsessão com a pureza e permanência nos obriga a eliminar os resíduos. Admirar os dejetos, os espaços abandonados, no entanto, permite ver as continuidades em fluxo, as trajetórias e o desenvolvimento, um ponto de apoio entre passado e futuro. Zardini fala das possibilidades que encerram os espaços decadentes ou desordenados da cidade:

“O que até agora se considerou como elementos negativos na cidade contemporânea – heterogeneidade, variedade excessiva, desordem, desarmonia, a coexistência incongruente de diferentes elementos – agora constituem um recurso, uma qualidade com a qual se define uma nova paisagem. Mas aceitar a heterogeneidade da cidade contemporânea não é um feito simplesmente estético, mas também político, social, étnico. Não se trata de mascarar ou de exorcisar, mediante uma variedade fictícia, uma realidade concebida como cada vez mais uniforme, homogênea e controlada, ou de ocultar sob uma desordem aparente e uma anarquia visual uma ordem escondida sempre mais forte e persuasiva. Trata-se, pelo contrário, de reconhecer, aceitar e dar voz às distintas individualidades presentes na sociedade e na cidade contemporânea, fazendo que sua compreensão constitua uma paisagem política, social, física, mais rica e articulada, baseada no contraste e não na exclusão recíproca, reconferindo assim uma nova consistência à cidade do princípio do milênio.” (in: KOOLHAAS, 2001:436- 437) 69

urbano llama a la indefinición del terrain vague. Se convierten de este modo en indicios territoriales de los problemas estéticos y éticos que plantean, envuelven, la problemática de la vida social contemporánea”. 69 “Lo que hasta ahora se han considerado elementos negativos en la ciudad contemporánea – heterogeneidad, excesiva variedad, desorden, desarmonía, la coexistencia incongruente de diferentes elementos – ahora constituyen un recurso, una calidad con la que definir un nuevo paisaje. Pero aceptar la heterogeneidad de la ciudad contemporánea no es un hecho simplemente estético, sino político, social, étnico. No se trata de enmascarar o de exorcizar, mediante una variedad ficticia, una realidad concebida como cada vez más uniforme, homogénea y controlada, o de ocultar bajo un desorden aparente y una anarquía visual, un orden ‘escondido’ siempre más fuerte y persuasivo. Se trata en cambio de reconocer, aceptar y dar voz a las distintas ‘individualidades’ presentes en la sociedad y en la ciudad contemporánea,

68 Há numerosos casos de grupos que questionam a estruturação em grande parte autoritária das cidades. É sabido, por exemplo, que os situacionistas eram amantes do Mercado de Les Halles, em Paris, e organizaram muitas manifestações contra a sua demolição que deu lugar à atual estação de transportes Les Halles. Eles claramente apoiavam na cidade os mercados públicos, as ruas tortuosas, as pequenas lojas de bairro, as ruínas de construção, as fissuras da cidade, elementos que para eles eram alternativas ao espetáculo criado prioritariamente pelas forças do capital. Segundo Schoonbrodt, os mercados públicos, os pequenos comércios são adaptáveis, nos dando mostra de uma arquitetura de grande qualidade, mas que “não vemos nunca nas revistas de arquitetura. É um tipo de construção que é chamada de banal, mas que torna a cidade habitável.” (revista Poïesis, 2003: 235)

Bakhtin (1997:396) afirma que “O cotidiano do homem possui uma forma, e esta forma é sempre ritualizada (pelo menos ‘esteticamente’). É justamente nessa ritualização que a imagem artística pode apoiar-se. A memória e o consciente no ritual do cotidiano e na imagem”. Assim como muitos autores vêem nos terrain vague grandes possibilidades criativas, grupos artísticos como os dadaístas e situacionistas encontram nestes lugares fora da lógica oficial da cidade uma possibilidade de experimentá-la de outra forma (Sadler,1998:15). Os situacionistas perceberam que se pode tomar ação sobre a cidade depois que se retire “o véu de refinamento que cai sobre ela” por meio do planejamento e do capital. Se se desvela esta representação oficial da modernidade e do urbanismo – o espetáculo – pode-se descobrir a vida autêntica que aí fervilha. Matta-Clark, por outro lado, via nos edifícios abandonados, nos bairros decadentes e nos marginalizados, partes de resíduos da entropia física e social, os non-u-ments, como chamava, a alternativa aos monumentos que só criavam muros e exclusão: “o anti-monumento, como uma descrição de tudo o que saiu mal desde Eiffel (uma torre que se eleva a qualquer altura leva o visitante a apartar-se).” (in: MOURRE, 2006:377).

Os situacionistas adaptaram o conceito de heteroglossia e carnavalização de Bakhtin (2005, 1997, 1987) para as cidades. Acreditavam no poder transformador da cultura cotidiana e viam beleza no que geralmente se considera feio. Debord afirmava: “beleza aqui não tem o sentido de beleza plástica, mas de apresentação móvel, de soma de possibilidades simultâneas” (apud Sadler, 1998:103). A cidade situacionista era da ordem do movimento e da ação. Antes mesmo das apropriações das novas tecnologias, já se podia notar a relação entre os estudos de mapas de Debord (mapas de cidades e redes de metrô), seus trabalhos com sons eletrônicos e néons e o trabalho de artistas como Smithson e Pollock. E Debord complementa: O “graffiti é um sinal da energia primitiva do cotidiano, mostra que o indivíduo nasceu para se comunicar e é importante lutar contra as forças que tentam ordenar e calar essas vozes díspares da cidade” (apud Sadler, 1998:97).

haciendo que su comprensión constituya un paisaje político, social, físico, más rico y articulado, basado en el contraste y no en la exclusión recíproca, reconfiriendo así una nueva consistencia a la ciudad de principios de milenio.”

Para Smithson, por sua vez, os espaços industriais abandonados e o lixo constituem uma paisagem entrópica, que resta do excesso de consumo e por isso mesmo são possuidores de grande valor estético. Para ele o artista tem de fazer uso deste material não para torná-los irreconhecíveis, mas para tornar visível sua beleza. A entropia intelectual, como ele denominava, fragmentava o pensamento e rompia com qualquer idéia unitária de visão de mundo e conseqüentemente, de objeto. Nesse aspecto estava interessado pela idéia da Biblioteca de Babel de Borges, que continha tudo o que já havia sido escritoe que na verdade (como apresenta Borges em seu conto) é o próprio universo. E complementa que “a linguagem torna-se um museu infinito cujo centro está em qualquer lugar e cujos limites estão em lugar nenhum”(apud FLAM, 1996:XV)70. Em resumo, para estes artistas, os terrain vague e edifícios abandonados eram um micro-universo onde era possível perceber de modo concreto a totalidade e ao mesmo tempo, a impossibilidade de uma unidade sistêmica.

Lynch aborda especificamente os terrain vague e os depósitos de lixo como lugares potenciais de ausência de controle, de estímulo da criatividade, não por coincidência preferido por jovens e crianças que descobrem elementos perdidos e geram novos usos para eles. Tanto o espaço quanto os objetos ali presentes não têm mais um papel predefinido, e por isso mesmo podem ser ressemantizados.

Canclini (2003:188) analisa que as criações artísticas, lentas e divergentes, às vezes representam em seus procedimentos as contradições não-resolvidas das políticas globais, as peripécias da desigualdade e a necessidade dos marginalizados de interromper os fluxos totalizadores com afirmações do próprio, com invenções desglobalizantes. “Estou insinuando em que sentido a interrupção artística se correlaciona com movimentos culturais e sociais mais amplos. Com movimentos indígenas e ecológicos que reafirmam a territorialidade e os usos locais de bens naturais e sociais irredutíveis à lógica global, com setores de desempregados ou excluídos da produtividade e do consumo mundializados que (...) organizam manifestações e movimentos.”

Lynch menciona que os lugares deteriorados são lugares sem tempo, “não porque sejam eternos, mas porque aí não existe uma organização do tempo. Por isso, o que está deteriorado ou vazio pode ser uma forma de se escapar do tempo organizado.” Coloca-se assim um problema de temporalidade, como explicitado por Santos:

“Temos, sem dúvida, um tempo universal, tempo despótico, instrumento de medida hegemônico que comanda o tempo dos outros. Esse tempo despótico é responsável por temporalidades hierárquicas, conflitantes, mas convergentes. Nesse sentido todos os tempos são globais, mas não há um tempo mundial. O espaço se globaliza, mas não é mundial como todo senão como metáfora. Todos os lugares são mundiais mas não há um espaço mundial. Quem se globaliza, mesmo, são as pessoas e os lugares. O que existe mesmo são temporalidades hegemônicas e temporalidades não- hegemônicas ou hegemonizadas. As primeiras são o vetor da ação dos

70 agentes hegemônicos da economia, da política e da cultura, da sociedade

enfim. Os outros agentes sociais, hegemonizados pelos primeiros, devem se contentar de tempos mais lentos”. (2002a:16)

Após a criação da UE, que prevê planos macro de alteração da cidade mesclados com a manutenção de certas áreas com vistas à preservação de monumentos e bairros tradicionalmente importantes para o turismo, o que existe são construções em situação precária, muitas vezes desocupadas por dívidas de impostos com o governo e que são ocupadas por grupos de jovens e/ou imigrantes (os squats, em inglês, bezetze häuser em alemão ou casas okupa em castelhano). Não raro é nesses edifícios ocupados que trabalhos de encontro para mobilização das causas pró-moradia e contra a violência contra os imigrantes ocorrem e por isso mesmo são alvo constante de confrontos com a polícia. Ainda que seja possível encontrar no território mediterrâneo algumas habitações auto-construídas, elas aparecem de forma rara e em áreas rurais ou fora do conjunto urbano, dado o controle da ocupação do solo e a situação de “modernização” pela qual vêm passando todas as grandes cidades européias. Há atualmente a reorganização de apartamentos e casas para acomodar várias famílias de imigrantes, como um cortiço, mas que nem sempre envolve construções antigas. Muitos apartamentos (ou pisos patera em castelhano, uma referência ao tipo de embarcação ilegal em que chegam muitos dos imigrantes ilegais da África) são subdivididos e a sala se transforma em cozinha, não há janela nos quartos ou o corredor é adaptado para virar um quarto.

Fotos de reportagem sobre pisos patera em Barcelona. ABC XL Semanal, n. 1008, 18-24 de fevereiro de 2007.