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Numa ambiência totalizante e coerente com a cosmovisão indígena integralizadora da natureza, o sagrado abrangia por todos os espaços do povoado, fossem eles coletivos, domésticos ou particulares; econômicos, políticos ou sociais, de

237 SEPP, Antônio. Viagem às Missões Jesuíticas e trabalhos apostólicos, op. cit., 1943, p. 201. 238

CARDIEL, José. Declaración de la verdad, op. cit., p. 381.

239 A Guerra Guaranítica (1753-1756) foi o evento bélico deflagrado pelo levante dos índios rebeldes

contra os demarcadores e exércitos de Espanha e Portugal. Motivou-se pela rejeição de seis cabildos situados a oriente do rio Uruguai, caciques de Misiones e jesuítas, ao contestaram cláusulas do Tratado de Madri (1750). A causa principal foi a previsão de permuta dos Sete Povos (espanhol) pela Colônia do Sacramento (português). Ver: GOLIN, Tau. A guerra guaranítica: como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul. Passo Fundo: EDIUPF; Porto Alegre: UFRGS, 1999.

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CARDIEL, José. Declaración de la verdad, op. cit., p. 400.

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trabalho ou de lazer. Dita presença se dava, sobretudo, por meio de altares improvisados. Dentre as primeiras referências desses meios de linguagem simbólico- visual efêmera, está a preparação de pequenos altares destinados às festas. Montoya admirava-se “O orpus hr st se co emora com pobreza, mas também com devoção e anseio. Preparam os índios os altares (especiais para dita festa) e fazem os seus arcos, nos qua s pendura os pássaros do ar, os an a s do ato e os pe xes da água”.242

No amálgama anímico, santos compartilhavam espaço com elementos provindos da natureza, unia-se o que suposta ente hab tava “os céus” e as benesses da mãe-terra. Celebrações híbridas que, provavelmente, não contrariavam os missionários, fosse pelo estranhamento do alcance simbólico que tinham, fosse pela tolerância deste.

Altares para adornar as festas foram amplamente utilizados nas reduções. As imagens que figuravam nestes altares possivelmente provinham de algum tipo de acervo reservado à utilização em ocasiões deste tipo. Como já exemplificado acima, para o dia da festa de Corpus Christi era comum essa instalação, conforme consta em outras referênc as “ as quatro esqu nas da praça, formam-se quatro altares, nada ricos, porém muito arrumados, coloridos e decentes para pôr a o Senhor”.243

Para decoração destes altares, dispunha-se de “todos os orna entos que se encontra na gre a”. ontudo, preench a -nos ta bé co “os ob etos que têm em suas casas, que est a por r cos e prec osos”. Essas alhajas cons st a e “p nturas, das que eles fazem, panos tecidos por eles; e, às vezes, colocam com ingenuidade, pentes, g bões e ca ções de ã, quando são de a gu a cor v stosa”. ntes de n c ar a procissão, o cura, em atitude precavida, vistoriava todos os adornos dispostos nos alteres pelos indígenas, “para ret rar a go de ndecente que pudesse haver”.244

Esta celebração era a preferida do tenente-governador do departamento de Concepción de Misiones em 1781, Gonzalo de Doblas. Os pormenores que observou justificam sua transcrição integral:

A festividade que mais me agrada e edifica é a de Corpus Christi. Para esta função adornam todo o entorno da praça, dispondo nas ruas arcos que formam pórticos de ramos verdes, trepadeiras enlaçadas e folhas viçosas. Nas quatro esquinas da praça, dispõem altares para as paradas da procissão. Nos estandes e arcos do contorno, penduram quantos animais e aves podem apanhar (mortos ou vivos) no campo, e os animais domésticos que têm atam ali também. Penduram sua melhor roupa, os tecidos, as ferramentas de seus ofícios e agricultura, laços,

242 MONTOYA, Antônio Ruiz de. Conquista espiritual feita pelos religiosos, op. cit., p. 145. 243

Escandón apud MELIÁ, Bartolomeu. El guarani conquistado y reducido, op. cit., 1988, p. 214.

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boleadeiras e cincerros de seus animais, os arcos e flechas com que caçam, a comida daquele dia, e outras que podem guardar. E, assim, enchem os altares de tortas feitas de mandioca, moldadas no formato de várias figuras, pedaços de carne assada, gordura e o que têm de comestível; porém o que se vê com mais abundância são vegetais de todas as espécies, em cestos cuidadosamente trançados, sementes que guardam para plantar, crendo sua fé que com a presença as abençoa Nosso Senhor Jesus Cristo. Nos povoados próximos a rios põem muito pescado, alguns vivos em pequenas canoas com água; e, enfim, quando produz com abundância a terra, tudo serve de adorno aos arcos e altares da praça, de modo que pouco se nota o verde dos ramos de que são formados, e dizem que a Deus, que é Senhor e Criador de todas as coisas, deve-se servir com todas elas.245

Após a missa solene, a procissão colocava-se em marcha. Os músicos entoavam cantos em coros alternados. O santo sacramento era antecedido pelos congregados e segu do pe o cab do, depo s pe as u heres, “bedé s e a a devoção dos f é s”. Sempre que o ostensório fosse deposto, defumado e adorado pelos missioneiros, o padre se sentava, assim como o conselho comunal e os magistrados, e os músicos iam cantar e dançar diante do sacramento.246

Fora dos altares, mas ainda presente nas comemorações, algumas imagens ficavam sobre as mesas, como na festa do padroeiro, quando elas eram armadas sob os pórticos e, em cada uma, o santo ocupava o lugar de honra.247

Para a festa do santo patrono da redução, função que durava pelo menos três dias, convidavam os cabildos, curas e administradores de povoados próximos, que chegavam à véspera e eram recebidos no caminho, ao som de pífanos e tambores. A redução novamente vestia-se para festa, cavalos e cavaleiros ricamente adornados desfilavam carregando o estandarte do padroeiro, que se juntaria à imagem do santo ou da Virgem em frente à igreja enquanto transcorriam as liturgias.

Dessa cerimônia, seguia-se outra “não enos v stosa e que dá u a boa de a do caráter dos nd os” era a benção das mesas.248

De cada uma das casas do povoado, condu a as u heres até a porta do co ég o ou da gre a u a pequena esa “d sposta e for a de a tar”, co agens, esta pas, p nturas e os a entos que co er a naquele dia. Quando estivessem todas juntas e em ordem, “u dos curas abençoava as esas pub ca ente”, enquanto ouv a-se um coro em guarani interpretando canções de

245 DOBLAS, Gonzalo de. Memoria histórica, geográfica, política y económica...,, op. cit., p. 66-67. 246 HAUBERT, Máxime. Índios e jesuítas no tempo das Missões, op. cit., p. 278.

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Ibidem, p, 281.

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Ação de Graças. Feito isto, voltavam as mulheres com as mesas, presenteando aos que ass st a co “a gu a de cade a ou fruta”.249

Nas comemorações dos aniversários e/ou bodas da realeza espanhola, outra vez dispunham-se mesas adornadas com imagens e especiarias, a exemplo do festejo do jubileu do rei Carlos III. Ao meio-d a, os nd os hav a d sposto de se s a o to “ esas de conv te”, organ adas na casa do corregedor e nas de alguns caciques e cabildantes, “para as qua s se unta os bens co uns do povoado”. ara cada esa dever a ser carneado um boi, haver sal e alguns frascos de mel. As casas que possuíam convite aprontava “u a esa co pr da nos corredores [...] e uma mesinha pequena adornada como um altarzinho, com um recosto onde se prende uma imagem ou estampa de santo”. essas mesas eram colocadas as viandas mais finas e delicadas, como aves, massas, batatas cozidas e assadas, pão etc., e “com mais alguns grandes pedaços de assados e outras co sas, são tra das até a praça para a bênção”. Depois de santificadas, são saudadas ao toque de ta bores, c ar netas e h nos. Então, “se ret ra co as esas às suas casas, e se põem [os convidados] a comer nos corredores”.250

Providenciar altares temporários não era tarefa exclusiva para os dias de festa. No combate às pestes, doenças e à própria morte, as imagens dos santos deveriam estar presentes. Apesar da precariedade das instalações hospitalares, o altar arranjado às pressas pe o padre Sepp, “não de xava de ser be decente e devoto, certa ente de grande consolação e proveito para os empestados. Havendo alguém para comungar, administrava-se depois da missa o viático, ungindo-os com o óleo santo”.251 Com isso, segundo as regras da pastoral dos doentes, cumpria-se o papel fundamental de um espaço tão peculiar: a garantia de todos receberem os auxílios adequados para uma morte segura.252

Tão logo fosse constatada uma epidemia organizava-se elaborada sucessão de penitências, preces, orações, confissões, comunhões e procissões.253 Se o número de

249 Ibidem.

250 DOBLAS, Gonzalo de. Memoria histórica, geográfica, política y económica..., op. cit., p. 47. O autor

admira-se pe o fato de quecertas regras d a para que “não se sente nas esas senão os convidados, que devem ter ofício ou cargo, e nenhuma índia. Depois de estarem sentados os índios, de frente para praça, vêm as mulheres e as filhas dos convidados, cada uma com um prato de barro grande; colocam-no embaixo da mesa, aos pés do pai ou marido, e se distanciam um pouco, mantendo-se de pé ... todo o te po que dura a refe ção, serv ndo ocas ona ente a a guns nd os.” Depois das convidadas comerem, as outras índias juntavam em um prato todas as sobras e as levavam às suas casas para comer com seus familiares.

251 SEPP, Antônio. Viagem às Missões Jesuíticas e trabalhos apostólicos, op. cit., 1980, p. 187. 252

BAPTISTA, Jean. Dossiês históricos do Museu das Missões, op. cit., v. II, p. 95.

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mortos e contaminados superasse o esperado, procedia-se a eleição imediata dos padroeiros da peste. Seriam eles – diziam os curas –, congregados capazes de intervir nos desígnios de Tupã.254 Cortejos pelo povoado e arredores levavam imagens em andores, deveriam elas interceder junto à “d v na ser c rd a”, aco panhadas de u a pequena u t dão que portava co devoção “co sas bend tas”, que evar a de vo ta as suas casas imbuídas do poder curativo.255

Uma zona de referência espiritual era inserida no centro de cada ala hospitalar, onde se colocava um altar não somente com imagens de Cristo e da Virgem, mas também do santo padroeiro do povoado.256 A compleição das divindades cristãs representava o poder da ingerência divina.

Às casas dos enfermos, levavam da igreja, com antecipação, o necessário para instalar um altarzinho decente, com base, candelabros, guardanapos de mesa e tapetes. Se o enfermo estivesse correndo risco de morte, acrescentava-se ao altar a Santa Unção.257 Por vezes, era na porta da casa dos doentes que se acomodavam os altares.

Varrem-se e espalham-se nas ruas ramos e flores até a casa do doente. Esta também é ornada de flores, com um pequeno altar diante dela. Todo o povo é chamado para acompanhar o santo sacramento; os músicos e os congregados ficam nas primeiras fileiras dos fiéis; todos levam uma pequena vela feita de cera nativa. De volta à igreja, após as cerimônias ordinárias, o padre explica as indulgências ganhas por aqueles que acompanham o Senhor, e pede ao povo para rezar pelo doente.258

Nos domínios do cotidiano, comunitário ou individual, era usual o emprego de oratórios e altares efêmeros. Ao âmbito diário também pertenciam as imagens de santos destinadas a interceder por boas colheitas e proteger as plantações contra pragas. Promoviam grandes procissões para combatê-las. Se o caso requeria, era erguida uma capela no meio dos campos. Músicos e fiéis recitando rosário acompanhavam os padres e a estátua de Mar a, “a guns ogando fo has ao chão, oças coroadas de f ores”.259

254 BAPTISTA, Jean. Dossiês históricos do Museu das Missões, op. cit., v. II, p. 142. 255 MCA. Jesuítas e bandeirantes no Uruguai (1611-1758), op. cit., p. 184.

256 MCA- Centro de Pesquisa Histórica da PUCRS. Cx. A. Doc.4. Em: BAPTISTA, Jean. Dossiês

históricos do Museu das Missões, op. cit., v. II.

257

DOBLAS, Gonzalo de. Memoria histórica, geográfica, política y económica..., op. cit., p. 70.

258 HAUBERT, Máxime. Índios e jesuítas no tempo das Missões, op. cit., p. 267.

259 Ibidem, p. 263. No entanto, tais usos pertencem ao movimento das miniaturas fora do povoado e serão

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Num dia-a-dia que não se concebia sem a presença de imagens, a preferência por algumas representações específicas indica que cumpriam a função de reorganizar, ressignificar antigas tradições adaptadas a um novo conteúdo cristão. Com os exemplos oferecidos pelas imagens vislumbra-se a continuidade de algumas características da cosmovisão guarani apesar das aparentes rupturas que representou a missionalização.

Imagens de médio porte (30 a 50 cm, algumas podendo variar até a altura de 90 cm) eram empregadas em capelas nas estâncias e chácaras, carregadas em andores nas procissões menores e cotidianas do povoado, como nas idas e vindas às áreas de cultivo e, possivelmente, nos altares principais do ambiente doméstico da família extensa. A esse conjunto pertencem as representações usadas para proteger os labores rurais (como as de São Roque e Santo Isidro) e acompanhar viagens e expedições militares (como São Miguel e São Rafael).

2.2.3. O uso particular e doméstico

Em 1633, o padre da redução dos Santos Mártires de Caaró260, durante a noite, enquanto visitava os enfermos, deparou-se co u a casa que t nha “u a esta pa de papel posta decentemente em uma mesa, iluminada por uma vela que haviam feito de cera, retirada do monte, todos da casa estavam de mãos postas diante da imagem e

260 A redução de Caaró situava-se na região chamada Uruguay, à margem esquerda do rio Uruguai.

Fig. 31: Imagem de Nossa Senhora da Conceição, 42 cm x 14,5 cm.

Acervo: Museu 25 de Julho. Cerro Largo/RS.

Fig. 32: Nossa Senhora de Carmem, 60 cm x 26 cm. Acervo: Obispado de Tacuarembó/URY.

Fig. 33: Imagem de São Isidro Lavrador, 86 cm x 33 cm.

Acervo: Museu do Barro. Assunção/PRY.