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Na década de 1960, quando diversas teorias sobre o jornalismo começaram a ser postuladas, as norteamericanas Johan Galtung e Marie Ruge conceituaram os valores- notícia e o novo conceito dos critérios de noticiabilidade. Cinco anos mais tarde, as pesquisadoras desenvolveram um estudo sobre a estrutura do noticiário nos Estados Unidos, analisando coberturas de crises políticas em três países, e ao finalizá-lo chegaram a doze fatores responsáveis pelas notícias veiculadas. Em resposta à pergunta “como é que os acontecimentos se tornam notícia”, Johan e Marie torrnaram-se parâmetro mundial nesse estudo e apontaram os seguintes valores-notícia: 1. Frequência ou duração do acontecimento (compatibilidade entre o ritmo do acontecimento e a periodicidade do meio); 2. Amplitude (dimensão do acontecimento, que vai desde o número de pessoas envolvidas até a carga dramática do fato); 3. Clareza (quanto menor a ambiguidade, maior a notabilidade); 4. Significância (diz respeito à proximidade cultural e/ou relevância); 5. Consonância (facilidade de inserir o “novo” numa “velha” ideia que corresponda ao que se espera que aconteça); 6. Inesperado (acontecimento raro, com proximidade cultural);

XXVIII 7. Continuidade (o que já foi notícia tende a continuar sendo, mesmo que tenha reduzida a amplitude ou tornado familiar o inesperado); 8. Composição (o valor de cada acontecimento varia de acordo com o equilíbrio do produto jornalístico como um todo); 9. Referência a países de elite; 10. Referência a pessoas de elite; 11. Personalização (possibilidade de ser visto em termos pessoais); 12. Negatividade (quanto mais negativas as consequências, mais chances de um fato virar notícia).

A seleção de notícias é elaborada por profissionais da área de jornalismo que se utilizam dos chamados valores-notícia ou critérios de noticiabilidade, como por exemplo o que se viu acima, para elencar os acontecimentos reais e transformá-los em produtos jornalísticos. O português Nelson Traquina (2001: 94) afirma que “as notícias são o resultado de um processo de produção definido como a percepção, a seleção e a trans- formação de uma matéria-prima (principalmente os acontecimentos) num produto” e têm um papel fundamental no processo de divulgação das notícias. Entendemos que os media, em particular a televisão, no caso específico o telejornalismo, têm uma participação importante na construção da realidade que nos cerca. “A divulgação cotidiana de notícias ajuda a construir imagens culturais que edificam todas as sociedades” (Motta, 1997: 319). A necessidade de se pensar sobre critérios de noticiabilidade surge diante da constatação prática de que com tamanha diversidade de veículos de comunicação, além de cada mídia desenvolver suas próprias características, não há espaço para a publicação ou veiculação da infinidade de acontecimentos que ocorrem no dia a dia. Com o imenso volume de matéria prima, é preciso estratificar para escolher qual acontecimento é mais plausível de adquirir existência pública como notícia.

(...) uma pirâmide de interesses previsíveis que o bom editor deve considerar: proeminência, celebridade das pessoas envolvidas nos fatos; importância das consequências; raridade do acontecimento, animação vital e interesse humano; rivalidade, conflito ou luta que o fato pressupõe; utilidade imediata do serviço informativo; entretenimento que proporciona. Também nesse campo de teorização, parece que os esquemas coincidem ao estabelecer os principais interesses do público: emoções, superação, dinheiro ou propriedade, sexo, interesse local, importância social (Quiros, 1968).

A conceituação de Quiros já pressupõe alguns dos filtros abordados para produção de uma notícia relevante, compreendendo que no caso dos telejornais, que possuem uma rotina de produção mais intensa e marcada pelo imediatismo, precisa ser dinâmico e não limitado apenas ao momento de captação dos fatos. Além disso, os valores-notícias

XXIX atribuídos também são alterados conforme sua distribuição nos blocos do telejornal e até mesmo de acordo com a sua construção, uma vez que a notícia pode virar uma série de reportagem, uma nota simples ou uma nota coberta (Soares; Oliveira, 2003).

Ora, ao tratar jornalisticamente os fatos na produção material da notícia, a seleção e hierarquização recorrem sim aos valores-notícia. Mas estes agem aqui apenas como uma parte do processo, pois nessas escolhas sequenciadas entrarão outros critérios de noticiabilidade, como formato do produto, qualidade da imagem, linha editorial, custo, público alvo etc. Valores-notícia, as características do fato em si, em sua origem, são somente um subgrupo de fatores agindo juntamente com esse segundo conjunto de critérios de noticiabilidade, relacionados agora ao tratamento do fato (Silva, 2005: 98).

Para demarcar o conceito de valores-notícia é necessário compreender que a notícia é uma construção social, ou como prefere Schudson (1978), é um produto cultural. Essa perspectiva, por sua vez, atua orientando o trabalho do jornalista, que tem a capacidade de identificar de forma mais precisa quais são os acontecimentos que possuem valor para divulgação. A proposta dessa investigação é entender como os telejornais brasileiros expõem as notas sobre os refugiados e, principalmente, se as expõem. Para isso é necessário compreender quais são os critérios que as aproximam da divulgação e quais as afastam. Alguns autores, ao longo dos anos, sugeriam elementos para criar essa análise. Peucer (2004), por exemplo, achava que as notícias eram abordadas de forma confusa nos periódicos, e por isso seria importante que as mesmas fossem filtradas. “Os prodígios, as monstruosidades, as obras ou os feitos maravilhosos e insólitos da natureza, da arte, as inundações ou as tempestades horrendas, os terremotos (...) tudo isto costuma ser narrado de forma embaralhada nos periódicos” (Peucer, 2004: 21).

Então, Kaspar Stieler (In Michael Kunczik, 2001: 242), afirmava em 1695 que os redatores deveriam distinguir o que é importante do comum e ainda apontava como valores explícitos a novidade, a proximidade geográfica, a proeminência e o negativismo. Já no século XX, Walter Lippmann (2004), elegia como atributos clareza, surpresa, proximidade geográfica, impacto e conflito pessoal. Fraser Bond, publica em 1959, Introdução ao Jornalismo, que caracteriza como elemento importante a capacidade de despertar o interesse e a atenção do público.

Nilson Lage (1982), no estudo dos critérios de avaliação de um acontecimento como notícia, enumera constatações empíricas que relacionam-se com pressupostos ideológicos e o conhecimento científico. Segundo ele, os fatores influem seguindo os

XXX interesses do grupo dominante ou classe e, ainda, operam de acordo com gostos individuais de pessoas com algum poder.

Muitos autores ao analisar a seleção de notícias concentram sua atenção nos valores-notícias (características do fato em si) e na ação pessoal do profissional, mas, ao avançarem nas comprovações de que a seleção prossegue no trajeto do tratamento dos fatos dentro da redação, costumam empregar como sinônimos seleção e valores-notícia. Ambos são componentes da noticiabilidade (Silva, 2005: 97).

Traquina afirma que é em função da maior ou menor previsibilidade que um fato adquire o estatuto de acontecimento pertinente do ponto de vista jornalístico: quanto menos previsível for, mais probabilidades tem de se tornar notícia e de integrar assim o discurso jornalístico (1999: 27). Enquanto alguns fatos tornam-se notícias, outros são simplesmente ignorados e é a partir dos critérios elencados pelo autor, que a análise dessa tese se baseará. Como a conceituação é muito específica, os mesmos foram recortados na íntegra, como descrito pelo autor em seu livro Teorias do Jornalismo: porque as notícias são como são, e para dar início é importante salientar que Traquina (2005: 78), subdivide dois grupos para canalizar esses conceitos:

1) Critérios Substantivos, que dizem respeito à avaliação direta do acontecimento

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