No que se refere às dificuldades e resistências de alguns professores, o diretor, por ocasião do grupo focal (A), desenvolveu uma fala bastante significativa e consciente dos problemas enfrentados por esses profissionais:
Existe resistência sim, em alguns professores sim, mas na média são coisas contextuais mesmo, ninguém pode atribuir só à resistência do professor. As dificuldades que estão no sistema mesmo..., seria
muita pretensão nossa mudar a escola em um ano. É um processo
geral que estamos vivendo... vejo, mais ou menos 3 aspectos :têm a sua própria dificuldade em trabalhar com a educação normal, com alunado tradicional... Agora elas têm de passar a uma outra forma de trabalho em muito pouco tempo, com uma formação inicial limitada, com a falta de preparação. Para elas é um desafio enorme. O segundo aspecto que vejo é o medo da mudança... Não é fácil para elas mudar totalmente de paradigma, sem saber nada das crianças com deficiência, da inclusão. O terceiro aspecto é muito importante também. Trata-se da sua falta de credibilidade em relação ao sistema de ensino em geral: desde o início da inclusão fizeram a experiência da ausência de apoio técnico, de ajuda, de informação... de repente lhes foi pedido integrar sem acompanhamento, sem formação. A Lei diz isso, vocês têm que se virar... é o sentimento muito forte delas... uma falta de reconhecimento do seu trabalho, salários muito ruins... não acreditam no sistema escolar púbico, na política de ensino. Além disso, elas têm medo de não saber como acolher bem a criança com necessidades, como levar em conta essa criança, e levando em conta o conjunto das outras; estão com medo de mal fazer...
O diretor relativiza o peso dessas resistências, sabendo que elas se
inserem no contexto maior e mais complexo em relação à problemática da inclusão. Naquele momento, ele parece haver incorporado uma visão ampla da problemática da inclusão, formalizando um contexto considerado favorável para o desenvolvimento de um bom trabalho. Ele, porém não se reporta às condições reais da sua própria escola, e o que efetivamente a gestão estaria facilitando para que as professores pudessem superar essas resistências manifestadas. Naquele momento, na sua percepção, o grupo de pesquisa era quem era de fato responsável pela inclusão, como ele mesmo demonstrou em sua fala: eu fico triste por não estar
participando mais diretamente das reuniões, mas eu apoio 100% em tudo, tanto é que a gente tem criado todas as condições para que a pesquisa aconteça. Isso
ficava claro também em algumas ações, como em pedidos para a pesquisa organizar reuniões ou fazer avaliações de alunos ou mesmo em tomadas de decisões envolvendo a educação inclusiva sem a sua devida participação.
A falta de uma política de formação e de sistemas de apoio à inclusão na escola também são reclamados por ele em sua fala:
Você conhece a situação da educação brasileira, da educação pública, é ruim, claro. Porque não tem política de educação, e sobretudo de educação inclusiva, tem textos, tem a lei, mais não é uma política no cotidiano da escola, é um problema. E até agora, as instâncias sociais, políticas não dão as possibilidades para desenvolver essa política de educação inclusiva... Já que é muito difícil para a educação “normal”... é ainda mais complicado quando se trata de levar em conta a inclusão... Ninguém sabe o que é... A gente fala de inclusão... muitas pessoas falam de inclusão, nos ministérios... Mas quando se trata de dizer o que é isso... é complicado... Sinto a falta de muitas coisas: falta de formação adequada para as professoras; falta de instâncias de referências próximas. Tudo isso, temos de criar; os prédios inadequados, falta de material adaptado...
Ele demonstra na sua análise compreensão e tolerância sobre as dificuldades e resistência de alguns professores relativas à inclusão. Assinala que uma das grandes dificuldades na organização da escola foi retomar as questões pedagógicas que na sua concepção ficou completamente largada, a verdade é essa. As mudanças evocadas por ele, como já explicitado, se referem mais à estrutura física e à parte estética da escola que, na visão dele, contribuíram para a melhoria da aprendizagem dos alunos. Nesse período, no entanto, ele destacava sempre as dificuldades enfrentadas no início da gestão resultados da saída da antiga diretora e da divisão interna encontrada na escola entre dois grupos: um que apoiava a gestora e outro que a rejeitava. Esse aspecto contribuiu para a resistência de alguns professores, que já vinham de uma experiência anterior desgastada. Seu desafio enquanto gestor seria o de passar de uma política de resistências para à implementação de uma política com princípios claros e definidos. Sobre isso, ele destaca: Tinha muitos problemas, relacionais, burocráticos, organizacionais e muitos
conflitos internos a serem resolvidos. Meu desafio é muito grande. O depoimento do
diretor deixa claro o quanto ele, na época estava enfrentando distintos problemas na organização da própria gestão da escola, chegando ao ponto de ele mesmo admitir que encerramos o ano sem saber de onde tínhamos partido e começamos o ano
sem saber onde queríamos chegar.
Observamos que as ações eram sempre de improviso, sem planejamento, a escola não tinha um plano de trabalho. O diretor se encontrava sozinho e, segundo ele, teve de entrar na batalha e focalizar todas as suas forças para a organização da escola. Nesse contexto, a presença e o apoio teórico e estratégico da pesquisa
aparecem com força no seu depoimento. Se a pesquisa não estivesse na escola eu
não teria mudado. Eu não teria feito vários esforços de mudanças como a aquisição dos parquinhos, por exemplo.
Nas respostas ao primeiro grupo focal aparece claramente o fato de que a equipe da gestão está começando a se envolver paulatinamente na organização da escola. Apesar dos conflitos, estávamos (a gestão e o grupo de pesquisa), na fase da criação de condições favoráveis à mudança. O diretor nos fala de desequilíbrio
positivo entre todos os envolvidos na pesquisa que levou todo o grupo a pensar e repensar as suas práticas. Isso mostra que a pesquisa cumpriu seu papel inicial,
favorecendo uma forma de conflito metacognitivo. Esse cenário vai se traduzir por uma busca de mudanças mais consistentes acontecidas no decorrer do segundo ano da pesquisa, como veremos mais à frente.
5.4 Os primeiros avanços e ações: a busca de competências de base
No decorrer do ano de 2006, percebemos alguns avanços e empenho pessoal do diretor para que o trabalho da escola deslanchasse. Ele passou a estar muito presente na escola, dando a sensação de que queria conseguir desenvolver um trabalho conseqüente, embora em muitos momentos ainda percebêssemos a sua falta de firmeza em algumas atitudes em situações cotidianas. Discutimos sobre a necessidade de maior agilidade nas respostas aos problemas, que isso era fundamental para sistematização do processo de mudança. Suas falas eram de otimismo e sua percepção em relação ao seu próprio trabalho também. Em uma de nossas reuniões, ele externou isso: eu sinto que a coisa pode dar certo na escola,
pois todas as pessoas que estão se aproximando, nenhuma tem ficado sem resposta (..) minha maior dificuldade tem sido trabalhar as relações humanas.
De fato, algumas medidas vinham sendo tomadas e presenciamos algumas vezes o apelo de professoras na sua sala em busca de material pedagógico, de ajuda em relação aos alunos com dificuldade ou qualquer outro tipo de apoio e ele realmente passou a se empenhar na solução ágil dos pequenos problemas cotidianos.