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CHAPTER 5: Research Methodology

5.4 Access, data gathering and analysis

O pensamento sistêmico segue dois critérios: “[...] a mudança das partes para o todo e a capacidade de deslocar a própria atenção de um lado para o outro, entre níveis sistêmicos e o pensamento em rede.” (CAPRA, 1997, p. 46, grifo nosso). A definição do primeiro critério partiu do princípio de que os sistemas vivos representam uma totalidade integrada, com propriedades singulares ao funcionamento e equilíbrio dos mesmos, que não pode ser reduzida a partes menores, pois comprometeria sua integridade. Quanto ao segundo, esclarece que todos os sistemas vivos estão abrigados em outros sistemas e, embora haja comunicação entre os níveis sistêmicos, conjugados entre si, é fundamental perceber a complexidade de cada nível, diferenciando suas propriedades singulares e afloradas (CAPRA, 1997, p. 46).

Continuando na reflexão do citado autor, este confirma uma inversão na relação das partes e o todo durante a passagem do pensamento cartesiano ou mecanicista para o sistêmico. No primeiro caso, a complexidade do todo pode ser analisada a partir das propriedades de suas partes, enquanto no segundo é necessário uma visão globalizada do todo

integrado, em que as propriedades das partes são independentes, contém suas próprias particularidades que devem ser compreendidas no arranjo do sistema como todo. Este, por sua vez, deve ser visto dentro do contexto do meio ambiente, o que significa dizer que o pensamento sistêmico é, de acordo com Capra (1997), “contextual” e “ambientalista”.

Para reforçar a mudança de paradigma do pensamento cartesiano ao sistêmico, Capra (1997, p. 47) faz um paralelo com a visão da física quântica, quando afirma que “[...] não há partes em absoluto. Aquilo que denominamos parte é apenas um padrão numa teia inseparável de relações”. Isso esclarece que há uma mudança de foco (figura/fundo) nos dois pensamentos, no tocante a mudança das partes para o todo. Essa mudança de foco pode ser visualizada através da Figura 13. Nela, o autor situa a percepção de mundo do pensamento mecanicista como um conjunto de objetos que possuem relações de interação entre si, porém secundárias, representado em (A), enquanto no pensamento sistêmico os objetos são redes de relações inseridas em outras maiores, vistas como fundamentais, ficando como secundários os limites daqueles, representado em (B).

Figura 13 - Percepção Mecanicista e Sistêmica

Fonte: Adaptado de Capra, 1997, p. 47.

Partindo dessa diferença de foco de pensamentos é possível compreender que na percepção mecanicista, por exemplo, no estudo de uma bacia hidrográfica, ele seria restrito a delimitação de sua área hídrica, dividi-la em sub-bacias, quantificação de seus afluentes (principais e secundários) e lagoas, caracterização físiogeográficas (clima, relevo,

A ‐ Pensamento Mecanicista: 

      Foca os objetos limitados        Foca as redes de relações B‐ Pensamento Sistêmico: 

LEGENDA

MUDANÇA FIGURA/FUNDO DE OBJETOS PARA RELAÇÕES

vegetação/fauna e solo) e relacionar o conjunto da bacia outras estruturas ambientais naturais internas a ela, enquanto que a visão sistêmica reconhece todas essas condições, porém, ultrapassa os limites da bacia, percebendo que os elementos internos que formam ou “delimitam” a bacia estão conectados ou relacionados com os aqueles que formam as outras estruturas ambientais e sociais, locais, regionais e globais.

Para compreender o funcionamento dos sistemas naturais e culturais é essencial saber o que significa “sistema”. Recorrendo a Teoria Geral dos Sistemas, um sistema, na sua definição padrão se resume em “[...] componentes regularmente interativos e interdependentes formando um todo unificado, segundo Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary, 10ª Edição.” (ODUM; BARRET, 2007, p. 4).

A estrutura de um sistema, segundo as reflexões de Christofoletti (1976, p. 13) “[...] é constituída pelos elementos e suas relações, expressando-se através dos arranjos de seus componentes.” Nessa análise da estrutura do sistema é essencial observar três características principais, apontadas pelo referido autor: o tamanho, que é representado pelo número de unidades existentes no sistema, a correlação, que diz respeito ao modo de relação entre as variáveis de um sistema e a causalidade, que determina a direção da correlação, mostrando a variável responsável pelos movimentos no sistema (CHRISTOFOLETTI, 1976, p. 13).

A importância do conhecimento da estrutura de um sistema está na essencialidade da compreensão de sua dinâmica, funcionamento e capacidade de suporte em sofrer transformações por alterações naturais e sociais. A análise de um sistema fluvial proporciona uma visualização prática da importância do conhecimento de sua ecodinâmica fluvial que, como todo sistema vivo, não se desenvolve isoladamente do seu meio de inserção, mas dentro de uma rede de relações de dependência e interdependência com seus subsistemas naturais internos e seu meio externo, envolvendo tanto outros sistemas naturais como culturais.

Partindo dos princípios de Christofoletti (1976) e tomando como exemplo, a bacia bidrográfica do rio Cocó é possível uma compreensão de sua estrutura sistêmica e de processos-respostas de origem natural e social em seu sistema hidrológico. O referido autor aborda os sistemas no âmbito da geomorfologia, ou seja, através do estudo da formação de relevos, classificando-os como sistemas de processos-respostas, ou melhor, formados pela combinação de sistemas morfológicos e sistemas em sequência.

O sistema hidrológico da Bacia do rio Cocó é composto por subsistemas ou unidades sistêmicas, representadas pelas suas lagoas, seus riachos e afluentes. A referida bacia, por sua vez, está totalmente inserida em outro sistema maior e mais complexo: a

paisagem compreendida pela RMF, participando historicamente da formação de seus centros rurais e urbanos, em contínuo relacionamento sistêmico, evidenciado pela constante interação entre os elementos que formam os sistemas da citada bacia hidrográfica e as condições ambientais e socioeconômicas desenvolvidas durante todo o processo de urbanização da RMF. Nesse contexto, considerando o critério sistêmico de funcionamento dos sistemas fluviais, toda bacia, no caso a do rio Cocó, é caracterizada como um sistema não-isolado aberto, pois ocorre constantemente troca de matéria e energia, ou seja, tanto recebe como perde e isso, pode ser percebido através da interação das atividades humanas e o meio ambiente.

A matéria produzida nos sistemas fluviais corresponde todo o material que é mobilizado pelo próprio sistema hidrológico ou ao fluxo dos afluentes da própria bacia, como a água e os detritos naturais, como as areias carreadas pelo processo de desgaste fluvial. Porém, no caso do rio Cocó e muitos de seus afluentes, se junta a essa matéria dejetos e lixos de diversas qualidades e quantidades (residenciais, comerciais e industriais) acumulado e lançados, por várias categorias da comunidade da RMF, em diversas situações, diretamente nos cursos d’águas ou sem qualquer tipo de tratamento. (Rever Figura 6).

As energias geradas pelo sistema hidrológico de uma bacia hidrográfica, capazde fazê-lo funcionar são:

1ª.) Energia potencial ou aquela captada pela força da própria energia gravitacional, que promove o deslocamento da água no sistema hidrológico, o qual ocorre no sentido de montante à jusante do rio, acompanhando os desníveis do terreno ao longo do seu percurso desde a sua nascente (cotas mais altas) até sua foz (cotas mais baixas).

No caso da Bacia do rio Cocó, as suas nascentes estão localizadas no Maciço Residual da Aratanha-Pacatuba e a sua foz, na Praia do Caça e Pesca - Fortaleza, onde atinge o nível do mar. Essa energia está diretamente associada ao processo de assoreamento do rio, ou seja, o potencial energético ou força das águas do rio, durante sua descida dos terrenos mais elevados aos mais baixos, vai desgastando, carreando e acumulando materiais ao longo do percurso dos cursos d’águas, depositando areias e outros detritos naturais nas suas margens, podendo obstruir o fundo de canais fluviais e estuários. Essa situação é agravada quando o rio passa a receber e é obrigado a carrear também o lixo produzido pelas atividades humanas, como é o caso da bacia em questão.

2ª.) A Energia cinética, resultante da movimentação das águas fluviais. Esse processo pode ser alterado diretamente com o volume do fluxo do rio e as temperaturas da região de sua localização, no caso a Região Metropolitana de Fortaleza.

A estrutura de um sistema está expressa pelo arranjo de seus componentes, o que determina o seu tamanho, que é formado pelo conjunto de suas unidades, sendo fundamental para a compreensão da estrutura de um sistema, conhecer seus elementos e suas relações. Observando a estrutura da bacia hidrográfica do rio Cocó, identificam-se em seu sistema hídrico quatro unidades geoecológicas ou de paisagem, posteriormente analisadas: a Planície Litorânea, os Tabuleiros Pré-Litorâneos, a Depressão Sertaneja e o Maciço Residual da Aratanha. Todas elas se desenvolvem através de uma interação interna com seus componentes naturais e sociais, relacionam-se entre si e com todo o complexo de sua área de inserção, ou seja, a RMF.

Cada unidade geoecológica citada possui características socioambientais singulares, resultado da combinação de fatores geoambientais (geologia, relevo, clima, solos, hidrologia, vegetação, fauna) e antrópicos que se correlacionam em uma relação de dependência e interdependência. Isso significa dizer que alterações relevantes, seja por interferências naturais ou atividades socioeconômicas, nas propriedades internas de qualquer uma dessas unidades pode também, através de processos-respostas, modificar o equilíbrio funcional de cada uma delas e, por sua vez, comprometer o todo integrado da bacia hidrográfica, no caso a Bacia do rio Cocó, considerando que as relações de interação e inter- relação socioambientais acontecem em rede.

As redes de relacionamentos dos sistemas processam-se internamente e entre seus elementos e padrões de formação com os que formam outros sistemas, proporcionando uma integração sistêmica ou entre sistemas. Essa percepção, exemplificada com o caso específico da Bacia Hidrográfica do rio Cocó (Figura 14) evidencia e confirma ser indispensável na elaboração e realização de projetos com fins a sustentabilidade socioambiental, uma visão ampliada da conexão planetária de todos os seus sistemas vivos (naturais e sociais).

A exposição sobre a visão sistêmica de uma bacia hidrográfica direciona ao pensamento da EAI proposta na dissertação, ao concordar com a visão de conectividade planetária e cósmica, integrantes de uma totalidade unificada e sistêmica, ligando todos os sistemas da Terra e do Universo. Assim, em um processo de EA, educador e educando deve aprofundar sua visão do meio ambiente, ou seja, perceber a gota do orvalho como um microssistema vivo e integrante de um macrossistema, observar suas semelhanças e diferenças, enquanto unidades sistêmicas, mas sobretudo compreender as relações intrínsecas que existem entre o macro e o micro e, que por isso, não podem ser vistas isoladas.

Fonte: Elaborado pela autora