80 min). O filme conta a história do movimento que tomou as ruas de Teerã por conta do resultado, supostamente fraudado, das eleições de 2009 que reconduziram Mahmoud Ahmadinejad à presidência iraniana.
O filme mescla entrevistas de manifestantes, blogueiros e pensadores iranianos com imagens captadas por câmeras de telefone celular e com as animações que procuram reproduzir a violência da repressão empregada pela Guarda Revolucionária contra o movimento – maior no país desde a Revolução islâmica de 1979. As imagens animadas cobrem os relatos de pessoas que foram presas, torturadas e que sofreram até abuso sexual. São cenas fortes que, além de não existirem em arquivo, ressaltam o aspecto mais bárbaro da polícia política do Estado teocrático xiita.
Outra exibição bastante comentada no festival foi a do filme colombiano Pequeñas Voces (Jairo Eduardo Carillo e Oscar Andrade, 2010, 76 min). A obra é um alargamento de um curta-metragem produzido pelos diretores em 2004. Completamente animado, o documentário tem uma estratégia narrativa semelhante ao já citado A is for Autism, só que no plano político em vez do sanitário.
Carillo e Andrade animaram as ilustrações feitas por quatro jovens (entre 8 e 13 anos) que viviam como refugiados em seu próprio país depois de serem expulsos pela guerrilha colombiana, as FARC, das proprieda- des agrícolas em que viviam. Os jovens falam acerca da realidade violenta em que viviam e também de seus sonhos e esperanças. Relatos que ganharam vida a partir de seus próprios desenhos e que viraram um docu- mentário animado em terceira dimensão (3-D).
Também vale lembrar que a animação também deu vida aos pensamentos e reminiscências de outra historia de judeus que vivem os traumas do Holocausto por conta da experiências de seus pais, só que no contexto da comunida- de judaica de Toronto, no Canadá. No filme I Was a Child of Holocaust Survivors (Canadá, 2010, 15 min), a cineasta Ann Marie Fleming – num estilo que lembra o franco-iraniano Persépolis – contou a história de Berenice Eisenstein, que escreveu, em 2006, sua autobiografia em formato de graphic novel, na qual revela o peso de viver em torno de pessoas que transformaram o trauma de viver o horror nazista em parte de suas identidades.
Em suma, a pergunta feita no nome do festival parisiense, “verdade ou mentira ?”, é respondida pelas pró- prias obras exibidas que, mesmo abdicando em parte ou totalmente do “efeito realidade” possibilitado pela imagem fotográfica, não abrem mão do vínculo com o mundo histórico, no caso priorizando a subjetividade e a individualidade dos sujeitos que vivem neste mundo histórico. Uma teorização elaborada pelo pesquisador norueguês Gunnar Strom desmonta a aparente contradição que pode existir entre o documentário e animação : Em A Onda Verde (2010), a ani-
mação ajuda a contar a história das manifestações contra o resultado das eleições no Irã em 2009.
Se examinarmos de perto a questão da incompatibilidade entre a ani- mação e o documentário, nos daremos conta de que os dois termos se aplicam em níveis diferentes : a animação é um termo técnico relati- vo a um método de produção de filmes ; enquanto o documentário é uma noção conceitual que diz respeito a representação da realidade, portanto como conteúdo da obra cinematográfica. Consequentemente, seria possível teoricamente que um produto seja ao mesmo tempo um desenho animado, sob o ponto de vista técnico, e um documentário, no que concerne ao seu conteúdo. 6 (Apud Maghâmi, 2008)
Longe de ser um conflito, a simbiose entre o documentário e a animação abre novas possibilidades em ter- mos de linguagem, narrativas e conteúdo para o cinema não-ficcional, o que pode, além da expansão estética, tornar os documentários mais atrativos para outros públicos e, consequentemente, torná-los mais lucrativos e sustentáveis. “Essas novas tecnologias emergentes estão realmente expandindo o vocabulário do que a não- -ficção é e pode ser, e isso é muito excitante” 7, avaliou o cineasta Brett Morgen (Apud Adams, 2009 : 24).
Usar imagens totalmente construídas e estruturar um discurso sobre a realidade baseado na subjetividade não é relativizar nem ignorar a verdade. Como ressalta o filósofo Comte-Sponville, a verdade é “uma abstração (a verdade não existe : só há fatos e enunciados verdadeiros). Mas somente essa abstração nos permite pensá- -la” (2003 : 622). E o documentário, sobretudo neste século XXI, tem procurado novas maneiras de abstrair e representar uma verdade – tal como outras áreas do pensamento e das expressões artísticas já faziam desde a primeira metade do século passado.
O que não dá mais é aceitar o antigo postulado que amarrava o cinema documentário a uma noção ingênua de transmitir a realidade e verdade tal como são naturalmente, aparte da condição humana de quem realiza a obra. Nesse sentido, vale o pensamento de Stella Bruzzi, que vê uma incongruência lógica nessa clássica onto- logia da não-ficção, já que há uma “impossibilidade nesse objetivo”8 (2006 : 7) : “todo filme de não-ficção é
6 Si nous examinons de près la question de l’incompatibilité entre l’animation et le documentaire, nous nous apercevons que les deux termes s’appliquent à des niveaux différents : l’animation est un terme technique relatif à une méthode de production de film ; tandis que le documentaire est une notion conceptuelle portant sur la représentation de la réalité, donc sur le contenu de l’œuvre cinéma- tographique. Par conséquent, il serait possible théoriquement qu’un produit soit à la fois un dessin animé, du point de vue technique, et un documentaire, en ce qui concerne son contenu.
7 “These new emerging technologies are really expanding the vocabulary of what nonfiction is and can be, and it’s pretty exciting.” 8 “... impossibility of this aim.”
Desenhos de crianças traumatizadas pelo conflitos na Colômbia ganham vida em Pequeñas Voces (2010).