4 Methods
4.3 Measures
4.3.2 Academic skills
Este trabalho pode ser considerado como resultado de parte da problemática surgida e vivenciada ao longo de nossa trajetória acadêmica. Desde o ingresso no Curso de Pedagogia em 1997, com a experiência na iniciação científica, como estudante de mestrado até o doutorado, temáticas que envolvem a vida universitária, professores e estudantes, tomaram um lugar especial em nossas leituras, experiências cotidianas e pesquisas. Com a iniciação científica, agregamos ao nosso processo de formação acadêmica a pesquisa e, desde então, ao entrarmos em contato com um novo objeto de investigação percebemos o quanto o nosso entendimento sobre esse objeto foi sendo influenciado pelas experiências cotidianas e pela nossa inserção na universidade como estudante de graduação, de pós-graduação e como professora formadora de professores.
No mestrado, enquanto pesquisava sobre a formação dos professores da educação básica no campo da informática educativa, como também nas experiências profissionais que tivemos oportunidade de atuar, aprendemos a privilegiar a educação pública como lócus de investigação nos estudos que desenvolvemos sempre com o compromisso de buscar alternativas para contribuir com a melhoria da educação pública, especialmente favorecendo a aproximação entre a educação básica e o ensino superior.
A presente tese começou a ser delineada em 2005, a partir de nossa experiência e envolvimento nos estudos desenvolvidos pela Linha de Pesquisa Formação e Profissionalização Docente – PPGEd – UFRN, assim como pela nossa participação nos estudos realizados pela Comissão Permanente do Vestibular/COMPERVE – UFRN, em conjunto com a comissão (Portaria nº 589/03R) criada pelo reitor para reestruturar e desenvolver uma proposta para a Política de Acesso e Inclusão Social da universidade.
Na presidência da COMPERVE desde 2003, a Professora Betania Leite Ramalho implantou o projeto Ações Acadêmicas da COMPERVE para subsidiar estudos na interface Ensino Médio e Ensino Superior. Atendendo às mudanças e inovações veiculadas a nível internacional e nacional, e orientados por uma necessidade de mudanças do perfil e da missão da UFRN, foi criada uma Comissão para Propor uma Política de Acesso à UFRN. Dentre vários objetivos, a citada comissão passou a estudar, com base na literatura nacional e internacional, novos princípios, mecanismos e estratégias de acesso ao Ensino Superior e de aperfeiçoamento do Vestibular. A partir daquele momento começamos a refletir sobre essa
temática, no sentido de voltar o nosso interesse para melhor compreender como acontece a transição do estudante do ensino médio ao ensino superior, sobretudo daqueles egressos da rede pública de ensino, que historicamente são excluídos desse processo ou possuem muito mais dificuldades tanto para ingressar como para permanecer na universidade.
No citado período havíamos ingressado no Doutorado em Educação com um projeto que dava continuidade à dissertação de mestrado sobre o tema da Formação de Professores e Novas Tecnologias. Considerando o interesse do grupo de pesquisa, voltamos o tema para as políticas afirmativas de acesso à universidade. Não pudemos concluir o estudo iniciado devido a interesses profissionais, mas o período foi importante para o mapeamento e revisão de parte da bibliografia pertinente ao tema, assim como para a pesquisa de campo realizada com alguns estudantes que ingressaram na universidade no processo seletivo 2006, a partir da implantação da Política de Acesso e Inclusão Social da UFRN e do Argumento de Inclusão13. Com o reingresso no Programa de Pós-Graduação no ano de 2010, consegui dar continuidade ao estudo, retomando parte da problemática investigada, e ampliando a pesquisa de campo, o que possibilitou a reestruturação da tese e a escrita do presente relatório final.
A participação em três grandes projetos desenvolvidos e em desenvolvimento pela Linha de Pesquisa sobre Formação e Profissionalização Docente, sob a coordenação da Prof.ª Betania Leite Ramalho, e aprovados pelas principais agências de fomento do país (CNPq e CAPES) também foram importantes para a nossa formação e envolvimento com o tema do presente estudo. Os citados projetos geraram muito conhecimento sobre a UFRN, são eles: “A Passagem do Ensino Médio ao Ensino Superior: acesso e inclusão de alunos da rede Pública na cultura acadêmica da universidade pública” (Edital CNPq nº 50/2006); “Tornar-se Universitário: do lugar, do sentido e do percurso do Ensino Médio e da Educação Superior” (Edital PROCAD/CAPES 01/2007), projeto desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Sergipe – UFS, a Universidade Federal do Ceará – UFC e a Universidade do Estado da Bahia – UNEB; e o Projeto “Reformas Educacionais e Ensino Superior: impactos da globalização no acesso e na inclusão social no Brasil e na Espanha, desenvolvido em parceria com a Universidade de Valencia - Espanha” (Edital CAPES/DGU 018/2009).
13 O Argumento de Inclusão é uma das ações da Política de Acesso e Inclusão Social da UFRN e constitui-se em
um mecanismo de pontuação adicional para os alunos da rede pública em condições de concorrer a uma vaga num dos cursos, principalmente os de maior procura: os que registram pouca presença de alunos da rede pública. Essa pontuação objetiva ampliar o acesso dos bons estudantes da rede pública que, mesmo apresentando um bom desempenho no vestibular, colocam-se sempre em desvantagem em relação aos alunos da rede privada. Articula, portanto, o fator socioeconômico ao desempenho do aluno, elementos que são considerados no momento de
O momento era propício para aprofundarmos o tema do acesso ao ensino superior e a UFRN passava por mudanças na sua política acadêmica. Além disso, poucos estudos revelavam o papel da universidade pública no contexto da Reforma Universitária.
Dentre as atividades realizadas integradas a estes projetos, destacamos a nossa participação no evento: XXVII Edição da UEG “Borja, Monumenta Paedagogica”, realizado em Gandia/ Espanha, de 12 a 23 de julho de 2010, ocasião em que, além de participar dos cursos oferecidos e de uma vasta programação cultural, também participamos das reuniões de planejamento e discussão do Projeto CAPES/DGU. Além desta, também destacamos nossa participação em uma Missão de Estudos realizada junto à Universidade Estadual da Bahia – UNEB, no mês de abril de 2012, sob a orientação da Prof.ª Drª Nadia Hage Fialho, onde participamos de diversas atividades de discussão e apresentação dos trabalhos com o grupo de estudos coordenado pela citada professora, além de atividades relacionadas ao projeto PROCAD/CAPES, todas voltadas para a discussão da temática que versa sobre a relação entre a Educação Básica e o Ensino Superior. Essas atividades, como outras que nos inserimos ao longo do nosso processo formativo na universidade, nos grupos de pesquisa e nos eventos e congressos que participamos, contribuíram para compreendermos, com aporte teórico e metodológico, os desafios da universidade neste início de século (XXI), ao mesmo tempo em que compreendemos a nossa inserção na cultura universitária e na pós-graduação.
A discussão sobre o acesso e a inclusão na universidade, mais precisamente sendo desenvolvida a partir do olhar e da percepção dos estudantes egressos de escolas públicas e privadas, chama a atenção da sociedade e da universidade para si, seus professores e alunos, seus processos de ensino e aprendizagem, suas estratégias de gestão (do ensino, da pesquisa e da extensão), sua relação com a Educação Básica e sua principal matéria-prima que consiste nos saberes e conhecimentos estudados, discutidos e produzidos nos cursos de formação acadêmica e profissional em nível superior.
As experiências que vivenciamos como estudante da graduação, como bolsista de iniciação científica, como estudante na pós-graduação, como professora substituta na universidade, e agora como professora formadora de professores de uma instituição federal de ensino superior (IFRN), em processo de expansão no RN, nos permitiram conhecer uma diversidade de estudantes, de colegas, professores e funcionários. Essa aproximação com a realidade acadêmica nos fizeram refletir sobre os recentes processos de acesso e inserção de estudantes egressos da rede pública na universidade pública. Algumas questão foram postas: o que leva um estudante a ter acesso à universidade? O que promove sua inclusão?
Pudemos conhecer estudantes, egressos da rede pública ou da rede privada, descontentes com seus cursos por diversos motivos: ou porque tiveram escolhas de acordo com a demanda do vestibular, e não pelos seus interesses pessoais, ou mesmo porque se decepcionaram com o curso, com os professores e/ou com a instituição e os colegas, entre outros motivos. Ao mesmo tempo, conhecemos ainda diversos estudantes, sobretudo das licenciaturas, que veem no ensino superior uma oportunidade para mudar de vida, para se profissionalizar e conseguir uma vaga no mercado de trabalho.
Com isso, pudemos conhecer de perto algumas das dificuldades que os estudantes enfrentam no primeiro ano e ao longo do curso e que acabam levando à evasão ou abandono, ou mesmo ao desestímulo pela profissão ou a carreira. Apesar de minha experiência profissional estar atrelada aos cursos de formação de professores, faço essa reflexão tendo como base também as entrevistas que realizei com estudantes de diversos cursos da UFRN, que serão descritas nos demais capítulos desta tese.