Para a elaboração de um audiovisual, faz-se necessário passar por algumas fases preliminares. Cada uma dessas etapas vale-se de um gênero discursivo determinado que atende a propósitos específicos. Dentro desse evento comunicativo, há uma ordem de produções textuais que organizam a criação de um filme. Para exemplificar, selecionei cinco gêneros que se agrupam na esfera cinematográfica e que correspondem a fases distintas. Ressalto que essa escolha se fundamenta nos conceitos defendidos por Comparato (2000) e Campos (2007) e que é apenas um recorte de alguns gêneros que podem se agrupar, pois outros tantos podem estar envolvidos, dependendo do processo criativo e da concepção adotada pelo roteirista. Além disso, o atendimento a essa ordem não é obrigatório, pois um roteirista pode, livremente, não utilizar um dos gêneros que antecedem o roteiro cinematográfico, como, por exemplo,
3Whenever an accountant writes a text within a genre, he or she is making a connection to previous texts within the community. (DEVITT, 1991, p.339)
produzindo primeiramente a sinopse e não a storyline.
Figura 3: Gêneros que podem se envolver na produção de um audiovisual
Fonte: elaborado pela própria autora
Esta pesquisa tem como objeto de estudo o gênero roteiro cinematográfico. Até se chegar a sua produção, é preciso produzir anteriormente outros três gêneros: a storyline, a sinopse e a escaleta. Esses gêneros discursivos são fundamentais para que a narrativa tenha completude e consistência em sua versão final. Como são pouco conhecidos, é importante uma breve explicação acerca de cada um deles. Por ora, deter-me-ei nos três gêneros preliminares ao roteiro, pois este último será abordado detalhadamente no capítulo 3.
A storyline é o gênero que serve como ponto de partida para a criação do roteiro cinematográfico. É o “embrião” da narrativa porque “é a expressão mínima do conflito e a mais breve das sinopses. Como se trata apenas da construção do conflito-matriz, não é necessário falar nem do tempo, nem do espaço, nem da composição das personagens” (COMPARATO, 2000, p.99). Na storyline, o roteirista deve, portanto, em poucas linhas – aproximadamente cinco - deter-se na definição do conflito (algo acontece, algo precisa ser feito, algo é feito). Comparato (2000, p.99) afirma que
Fazer uma storyline pode parecer uma tarefa muito difícil, mas na realidade é um processo mental muito fácil. Se à saída de um cinema ou de um teatro perguntássemos a um espectador o que é que tinha visto, ele seria capaz de nos contar em poucas palavras o conflito básico da história. O processo de criação da storyline é esse mesmo, só que ao contrário: contar o resumo de uma história que ainda não existe.
Dentro do processo de criação de um roteiro cinematográfico, a storyline possui funções bem específicas. Uma delas é a de servir como base para que a narrativa não perca seu rumo, para que o roteirista se mantenha fiel à premissa que deseja defender. Campos (2007, p.106) mostra que uma storyline
é bem-vinda quando você cria a sua estória, porque é a partir dela que você vai perceber o que é pertinente ou não. E ela é bem-vinda no início da sua conversa com o produtor para o qual você quer vender a estória. Uma storyline é bem-vinda durante a composição da sua narrativa, porque é se reportando a ela que você vai saber se está se afastando ou penetrando no que quer narrar. E uma storyline é bem-vinda no final desse processo todo, porque dá referência e noção de unidade [...]
O terceiro homem
Jack vai ao enterro de seu amigo em Viena. Não se resigna, investiga e acaba descobrindo que o amigo não morreu: está vivo e encenou seu próprio enterro porque era procurado pela polícia. Descoberto pela curiosidade de Jack, o amigo é abatido pelas balas da polícia.
Utilizarei como exemplo desse gênero a storyline do longa-metragem “O terceiro
homem”, dirigido por Carol Reed, apresentada por Comparato (2000, p.99-100). Através dela,
é possível visualizar o conflito-matriz que move a narrativa desse filme e os aspectos composicionais do gênero em questão. Eis a storyline:
A sinopse, também chamada de argumento, “é a story line desenvolvida sob a forma de texto. Uma vez que o conflito-matriz se apresenta na story line, o segundo passo é conseguir personagens para viverem uma história, que não é senão o dito conflito-matriz desenvolvido” (COMPARATO, 2000, p.111-112 [grifos do autor]). Nesse gênero, começa-se a traçar o perfil dos personagens e a localizar a história no tempo e no espaço, definindo claramente começo, meio e fim. Deve apresentar, portanto:
Personagem (quem?) Temporalidade (quando?) Localização (onde?) Conflito (o quê?)
Campos (2007, p.289) aponta-nos pelo menos três razões para o uso da sinopse: “dar forma à massa de estória que você imaginou, fornecer uma referência a você e a seus parceiros, e apresentar aos produtores a estória que será narrada no roteiro”. Dentro do processo de criação do roteiro cinematográfico, a sinopse é o gênero de ampliação e definição do enredo.
Definida a história, é momento de organizá-la em cenas. A escaleta “é a descrição resumida das cenas de um roteiro, na sua sequência” (CAMPOS, 2007, p.305). Nesse gênero, você escreve o cabeçalho da cena e descreve o que acontece nela, que tem o tamanho que você desejar. Como exemplo, apresento um trecho de A Grande Família 2004.
Figura 4 – Exemplar de uma escaleta
Fonte: CAMPOS, 2007, p.320.
Diante das explanações feitas, o conceito de constelação de gêneros defendido por Swales (2004) encontra-se no arcabouço teórico deste estudo porque fundamenta o processo de escrita envolvido na produção do roteiro cinematográfico. A presença de uma constelação de gêneros é facilmente verificada; contudo, apresentar uma classificação para a constelação em questão é algo desafiador. Se considerarmos a intertextualidade entre os gêneros envolvidos, já que cada um deles é gerado a partir do gênero que o antecede (a storyline transforma-se em sinopse, a sinopse converte-se em escaleta e esta torna-se um roteiro), podemos afirmar que há uma constelação de gêneros por rede. Contudo, se considerarmos a ordem cronológica em que os gêneros aparecem, um necessitando anteceder o outro até a produção do gênero oficial, podemos afirmar que há uma constelação de gêneros por cadeia. Sendo assim, a única afirmação que pode ser feita, até o momento, é a de que a constelação em análise reúne características tanto de uma constelação de gêneros por rede quanto de uma
constelação de gêneros por cadeia. Uma possível classificação demandaria um estudo mais
aprofundado, o que não tem espaço nesta pesquisa. Sugiro, então, esse assunto para pesquisas futuras.