De modo a tornar percetível para o leitor a problemática encontrada, é imprescindível fazer um enquadramento teórico, explicitando a temática de investigação-ação, as estratégias utilizadas para a resolução do problema e os resultados com reflexão crítica da intervenção, tendo sempre em consideração as características e necessidades individuais de cada aluno.
O projeto de investigação-ação em questão foi realizado durante o estágio pedagógico na Escola Básica do 1º Ciclo com Pré-escolar da Achada com uma turma de 2º ano. A turma é constituída por alunos com uma faixa etária entre os 7 e os 10 anos, tendo a maioria 7 e 8 anos. Esta é uma turma muito agitada e faladora, que, por vezes, gera algum ruído na sala. São muito ativos e gostam de participar nas aulas, sobretudo nas áreas da matemática e do estudo do meio. Sendo assim, foi evidente que a turma necessitava de adquirir competências no âmbito do desenvolvimento moral (o professor cooperante alertou, desde cedo, para esta situação), problemática detetada precocemente e sobre a qual se desenrolou o trabalho de investigação-ação.
Lourenço (2006) aborda a moralidade em diferentes perspetivas, mencionando alguns autores desde Berkowitz (1964), Durkheim (1973), Freud (1968), Bandura (1991), Piaget (sd) e Kohlberg (sd), respetivamente. Numa perspetiva sociológica, a moralidade aproxima-se de uma referência ao cumprimento de regras/normas definidas pelas ações avaliadas como dignas de uma vida em sociedade, determinando-a como uma aprovação dos códigos morais e sociais existentes num certo grupo de pessoas.
Numa perspetiva psicanalítica apontada por Freud, esta apresenta-se como a manifestação de conflitos pessoais (vontades e desejos) e de mecanismos de identificação e de defesa. Já para Bandura, na sua teoria da aprendizagem social, a moralidade é manifestada através do efeito dos modelos das regras em vigor. Para Piaget, a moralidade consiste no apreço por princípios e regulamentos sociais e prescritos formalmente por uma entidade. Por fim, Kohlberg, numa perspetiva cognitivo-desenvolvimentista, afirma que o primordial princípio da moralidade é a justiça (Lourenço, 2006).
Duska e Whelan (citados por Erra, 2005) referindo-se a Kohlberg e Piaget afirmam que o desenvolvimento moral é um procedimento moroso e progressivo que envolve alterações básicas nas estruturas intelectuais, enquanto que no pensamento de Matos (1997) diz respeito ao acompanhamento regulado das relações sociais que está sujeito ao julgamento de ações como boas ou más.
As três abordagens mais exploradas acerca da temática são a teoria da aprendizagem social, a psicanalítica e a cognitivo-desenvolvimentista. Estas são distinguidas consoante a forma como abordam o conceito de moralidade, os procedimentos psicológicos essenciais ao funcionamento moral, os princípios de desenvolvimento moral e de moralidade e método de promoção destes. Irei limitar-me à perspetiva cognitivo-desenvolvimentista defendida pelos autores Piaget e Kohlberg, relatados por Lourenço (2006).
Na segunda fase da noção da criança sobre as regras, estabelecidas por Piaget, entre os 4/5 anos de idade e os 9/10, o aluno pondera que estas são decididas por alguém superior e que não são passíveis de alteração, devendo cumpri-las (Smith, 1998). Kohlberg (sd, citado por Marques, 1991), por outro lado, num dos seus três níveis de desenvolvimento moral, o pré-convencional que ocorre entre os 3 e os 12 anos, afirma que a criança é capaz de escutar o outro e de pensar com os pares no fim do 1.º CEB. Marques (1991) refere ainda que é crucial que o professor estimule o sentimento de respeito mútuo entre os alunos, desempenhando o desenvolvimento moral um papel muito importante, precocemente.
A turma com a qual realizei o meu estágio encontra-se, tendo em conta a sua faixa etária e características, no nível pré-convencional. Reage aos conflitos morais defendendo os seus ganhos individuais e analisa as normas de acordo com o efeito de
um ato ou do poder de quem as estabelece. Matos (1997) declara que as atitudes consideradas corretas são recompensadas, as erradas corrigidas e que o aluno obedece às mesmas devido ao facto do professor, ser o detentor do poder. Tendo em conta as idades e algumas características dos alunos, provavelmente a turma do 2º A encontra-se no segundo estádio (orientação instrumental relativista), demonstrando ser capaz de se distanciar de pensamentos repentinos e da empatia pelo outro. Neste estádio estão evidentes valores morais e o aluno começa a contestar a autoridade do docente, desafiando-o.
Lourenço (2006) afirma que o grau de desenvolvimento moral não é algo estanque nem imutável, podendo ser estimulado e impulsionado. O docente necessita de ter consciência do seu papel de estimulador, estagnador ou retardador deste progresso na criança.
De acordo com o pensamento de Spock (1994, mencionado por Erra, 2005), a instituição de educação poderá surgir como um pilar na formação moral da criança, participando na promoção de atitudes e valores considerados adequados para uma vida em sociedade. Seguindo esta linha de pensamento, a instituição educativa desempenha um papel essencial na educação cívica e moral das suas crianças, através da diversificação de experiências e da sua participação ativa. Formosinho (2003, citado por Erra, 2005) enfatiza que esta (instituição), no seu contexto social, alarga estruturas e cria normas e regulamentos referentes a uma vida em sociedade, transmitindo, implícita e explicitamente princípios e convicções sociomorais.
A questão de Investigação-ação surge como ponto de partida para a investigação, na qual o investigador procura soluções e respostas para o problema detetado. O cerne da investigação advém da questão, a partir da qual iremos fazer um estudo. A questão que me fez introduzir uma investigação-ação incidiu sobre a disciplina na sala de aula, nomeadamente: Que estratégias poderei colocar em prática para possibilitar o desenvolvimento de competências sociais nos alunos, no que diz respeito ao comportamento na sala de aula?