Para Dewey, toda educação deve se fundamentar na filosofia da experiência que é entendida por ele como sendo a interação entre o indivíduo e o meio, do qual ambos saem modificados podendo esse meio ser um livro, uma conversa com outra pessoa, um material utilizado em uma determinada atividade, até mesmo o próprio pensamento, ou seja, o meio é qualquer condição ou coisas com as quais uma pessoa possa interagir. Nesse sentido, os recursos disponíveis em um ambiente, poderiam ser um desses meios de interação.
Turrioni (2003), Araújo (2007), Tahan (1962) e Lorenzato (2010) defendem que no LEM devam ser utilizados diversos aparatos/materiais para o ensino e a aprendizagem da Matemática por entenderem que a sua utilização facilita a compreensão de conceitos matemáticos.
Integrando a concepção de experiência de Dewey com as ideias sobre o LEM dos autores citados anteriormente, ressignificamos o LEM como uma sala de Matemática. Concebemos que essa sala seja um ambiente de aprendizagem, no qual os alunos, por meio da interação com diversos recursos nele disponível (jogos, materiais didáticos manipuláveis, softwares etc.), se envolvam em experiências educativas, ou seja, em experiências que, de forma contínua, proporcionam o desenvolvimento do aluno, isto é, a ampliação de suas experiências anteriores.
Pautados na visão educacional de Dewey, concebemos a sala de Matemática, também, como um ambiente no qual alunos e professores, por meio da comunicação e da colaboração, são incentivados a “pautar suas próprias ações pelas ações dos outros e de considerar as ações alheias para orientar e dirigir as suas próprias” (DEWEY, 1959b, p. 93).
Entendemos como Dewey que em um ambiente comunicativo os alunos devem ser estimulados a colocar o seu ponto de vista em relação a determinadas situações. Isso porque,
ao se posicionar, o aluno precisa organizar o pensamento, perceber o que não entendeu, confrontar-se com opiniões diferentes da sua, precisa refletir para aprender.
A sala de Matemática pode ser um local para se reunir, para se trabalhar em grupo, para socializar assuntos que estejam em consonância com as experiências/interesses dos estudantes. A sala de Matemática, também, é um ambiente de aprendizagem voltado para as necessidades dos estudantes, pois:
se descobrirmos as necessidades e as forças vivas da criança, e se lhe pudermos dar um ambiente constituído de materiais, aparelhos e recursos físicos, sociais e intelectuais para dirigir a operação adequada daqueles impulsos e forças, não temos que pensar em interesse. Ele surgirá naturalmente. (DEWEY, 2010, p. 112, grifo do autor).
Além de se preocupar com as necessidades e interesses dos alunos, é importante, também, que se promovam ambientes de aprendizagem em que o conhecimento que os estudantes já possuem, as experiências de seu meio social, o que aprende em outras áreas, ou na própria Matemática, sirvam como âncora para que eles atribuam significados aos conceitos matemáticos.
Em se tratando do ensino da Matemática, podemos entender que as fórmulas, os teoremas, as definições, só terão algum significado para os alunos se eles conseguirem perceber a sua utilidade em alguma situação prática da vida. Então, nesse sentido, a sala de Matemática é um ambiente em que as atividades nela desenvolvidas, por meio das interações com os vários recursos nela disponível, devem permitir que os alunos estabeleçam conexão entre os conteúdos estudados com situações práticas da vida das pessoas, visto que:
tudo deve ser ensinado tendo em vista o seu uso e função na vida. Nem se diga que isso venha a impedir os “exercícios” escolares e tornar, assim, impossível a aprendizagem de muita coisa. Muito pelo contrário. Se a criança percebe o lugar e a função que tem aquilo que vai aprender, seu intento de aprender dá-lhe impulso para todos os “exercícios” necessários (DEWEY, 1967, p. 36).
Na sala de Matemática, as condições encontradas nas experiências dos alunos devem ser utilizadas como fonte de problemas, haja visto que conhecimentos oriundos de experiências anteriores devem ser problematizados, por meio de discussões de questionamentos, cujo objetivo é fazer com que os alunos sintam a necessidade de ir à busca de novas ideias, novas informações para resolverem problemas surgidos das experiências já vividas. A sala de Matemática é um ambiente para se encontrar, trabalhar e conviver, servindo como base para o encadeamento de experiências dos estudantes envolvendo o ensino e a aprendizagem da Matemática. A expressão trabalhar foi empregada na perspectiva de que:
abrange todas as atividades que envolvem o uso de material intermediário, de aparelhos e formas de habilidades, conscientemente aplicadas na realização de certos resultados. Todas as formas de expressão e de construção com instrumento e materiais, todas as formas de atividade manual e artística constituem trabalho, sempre que requeiram esforço consciente ou refletido para que se realizem (DEWEY, 1967, p. 105).
Em relação à nossa concepção para a sala de Matemática, incluímos, também, que ela seja uma proposta de intervenção para as aulas de Matemática que objetiva aliar o trabalho realizado na sala de aula convencional a uma metodologia de ensino diferenciada, cujo intuito é proporcionar melhorias para a aprendizagem da Matemática. As intervenções ocorridas na sala de Matemática devem se dar sob uma configuração em que as aulas são oportunidades para que a aprendizagem se dê por ações interativas que ultrapassam as quatro paredes de uma sala de aula. Dessa forma, as aulas de intervenção, além de proporcionar possíveis melhoras na aprendizagem, ampliam as situações de socialização e de construção do conhecimento, pois novos cenários de aula em espaços que não sejam apenas a sala de aula podem ser constituídos, novos recursos podem ser utilizados, bem como o seu tempo redefinido.
Neste trabalho, temos um horário diferenciado para as aulas de intervenção de Matemática. Essas aulas não estão inseridas dentro de um contexto em que a cada 60 ou 12013 minutos, no caso de serem aulas geminadas, precisam ser interrompidas, pois a sala de Matemática é um ambiente em que os trabalhos podem ser realizados no contraturno, durante uma manhã ou tarde inteira. As aulas podem ser concebidas dentro de um espaço-tempo ampliado.
Enfim, concebemos a sala de Matemática como um ambiente de aprendizagem em que se utilizam diversos recursos e ocorrem interações educativas em conformidade com Dewey (2010). Esses ambientes são os mais diversos possíveis, não está restrito a espaços físicos ou tempos específicos, podendo essas interações ocorrer em vários lugares da escola ou até mesmo fora dela, em horário escolar normal ou contraturno e até mesmo em horários não escolares.
Entendemos que essa visão ampla para a sala de Matemática em relação a tempo e espaço, juntamente à possibilidade de os alunos utilizarem diversos recursos quando estiverem envolvidos em atividades desenvolvidas a partir de suas experiências, além de possibilitar um melhor aproveitamento do tempo e dos espaços escolares, proporciona uma educação de forma integral que estimula o estudo e o trabalho, ampliando as oportunidades de aprendizagem de conteúdos matemáticos.
CAPÍTULO 3
MÉTODOS, PROCEDIMENTOS E O CONTEXTO DA PESQUISA
Uma pesquisa científica é uma investigação metódica que busca compreensões a respeito de um fenômeno. Sendo assim, o desenvolvimento de toda pesquisa deve seguir alguma metodologia e deve ser norteada por alguns procedimentos, que precisam estar de acordo com o seu quadro teórico e devem ajudar a responder à questão de investigação (FIORENTINI; LORENZATO, 2009).
Neste capítulo, inicialmente, faremos referências aos paradigmas de pesquisa, segundo (Ponte, 2005), apontando aqueles nos quais este trabalho encontrou-se associado. Em seguida, discutimos a abordagem metodológica na qual nossa pesquisa está inserida. Discutiremos sobre os diferentes instrumentos que foram utilizados na pesquisa de campo. Descreveremos o contexto da pesquisa. Isso porque este pode possuir especificidades que podem interferir nos resultados. Descreveremos, também, os perfis das participantes da pesquisa. Abordaremos as concepções que nortearam as atividades, apresentando o cronograma de desenvolvimento da pesquisa de campo. E, para finalizar, abordaremos os métodos utilizados na análise dos dados coletados.