Deste modo, e regressando à questão das ermidas, importa não esquecer, tal como acima foi referido, que os crentes tendiam muitas vezes a agrupar-se em confrarias334 que se revestiam de vertentes sociais, caritativas e religiosas, cujos padrões
329
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fols. 60-62v.º. 330 Idem, fols. 127-127v.º. 331 Idem, fol. 124. 332
Idem, fols.128-128v.º. É, inclusive, usado como argumento uma frase de Santo Agostinho: "aquele que mal dizima em dizima vira", ou seja, que não colherá senão uma décima parte das dez a que normalmente teria direito.
333
Idem, fol. 111. 334
Sobre a organização confraternal, ver: CARRAZ, Damien, "Confraternité", in Prier et Combattre.
Dictionnaire européen des ordres militaires au Moyen Âge, dir. Nicole Bériou e Philippe Josserand,
de acção também já aflorámos previamente. Assim, no que toca a Palmela em 1510, a documentação informa-nos, directamente, apenas de uma única confraria, ligada à ermida de S. Sebastião, sendo que a partir de informações de cariz indirecto é possível ainda identificar confrarias na Igreja de Santa Maria335 e no Hospital do Espírito Santo336
O primeiro dado surge a propósito da Igreja de Santa Maria, do Castelo, primeira paroquial da vila, uma construção que, como observámos anteriormente, teria tendência para uma degradação crescente, fruto do seu afastamento geográfico face ao núcleo central da urbe. Os oficiais da Ordem, no seu auto da visita, não deixam claro que no seio dessa igreja se tenha desenvolvido uma qualquer organização de confrades. Não obstante, e não olvidando o facto de estas mesmas entidades tenderem a desenvolver-se em torno das paroquiais das localidades, no rol de alfaias referentes à cera surgem duas indicações que parecem remeter para a existência de uma confraria com sede em Santa Maria; o primeiro dado é o da existência, na capela-mor, de "dous çirios hu pouco mais piquenos da mesma confraria"337 e, logo de serguida, "outro çirio Redomdo e comprido da comfraria". Estes dois itens parecem indiciar, de forma a um mesmo tempo implícita e explícita, que uma confraria teria sede nesse templo, fazendo parte do rol das alfaias do mesmo os sobreditos círios que, muito provavelmente, seriam carregados pelos confrades nas procissões quer da festa do Apóstolo Santiago, quer do Corpus Christi338.
Se, na segunda paroquial, S. Pedro, não encontramos dados que possam denunciar a presença de uma organização de confrades em seu redor, já na ermida de S. Sebastião, no limiar Norte da vila, e parte integrante da paróquia de S. Pedro339, surge- nos, claramente referida, a existência de uma confraria cuja ermida-sede fora "edificada por devaçam do comçelho e comfraria"340, associada ao culto do mártir S. Sebastião.
335
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, cod. 151, mf. 714, fol. 109.
336
Idem, fol. 121. 337
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, cod. 151, mf. 714, fol. 109.
338
COSTA, Manuel Gonçalves da, Cantores e Instrumentistas da Catedral de Lamego, Lamego, Seminário de Lamego, 1992, p. 13.
339
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fols. 132-132v.º.
340
Esta casa deveria constituir a principal organização de confrades na vila de Palmela, uma vez que os seus membros perfaziam o número de 180341, contra um total de vizinhos da localidade que não chegava sequer aos 400342. Infelizmente, ao nível da caracterização sócio-profissional dos seus membros pouco ou nada poderemos adiantar, uma vez que não nos é fornecida qualquer informação que permita aventar qualquer hipótese nesse sentido. Sobretudo se comparado com as demais ermidas de Palmela343, o extenso rol de paramentos e alfaias litúrgicos, ao nível da prata, vestes e ornamentos, livros, cera, latão e arcas, e a organização por altura dos festejos de S. Sebastião (20 de Janeiro) de uma celebração feita completamente à sua custa, dando, muito provavelmente, de comer a pobres e a necessitados dentro do tradicional espírito caritativo cristão que tendia a nortear a acção destas instituições344, e, principalmente, pelo facto de conseguir-se autorização, por parte da Ordem, para erguer um campanário com um sino, para que se pudesse chamar à congregação os seus confrades, tudo aponta para que os seus membros fizessem parte da elite concelhia, muito provavelmente "burgueses" e oficiais do concelho que encontrariam nesse espaço uma oportunidade de remir determinadas acções menos correctas à luz dos valores cristãos e, porventura, beneficiar da pertença à confraria como fonte de prestígio em termos sociais e políticos. Ainda, dado o seu elevado número face à população da comenda, não constituiriam um grupo relacionado com um só mester, como tantas vezes ocorria na sociedade medieval ocidental.
341 Idem, fol. 116 342 Idem, fol. 134. 343
Anexo II, tabela 14. 344
A bibliografia nacional e internacional em torno da temática das confrarias é extensa, pelo que remetemos para a bibliografia anexa a esta tese. De qualquer modo destacamos aqui alguns estudos que se destacam pelo seu carácter de sistematização e de relevância para o tema: BEIRANTE, Maria Ângela,
Confrarias medievais portuguesas, Lisboa, Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, 1990;
BEIRANTE, Maria Ângela, "Os Diferentes Tipos de Solidariedade na Cidade Medieval. O Exemplo de Évora", in Ar da Cidade, Lisboa, Colibri, 2008, pp. 209-222; SOUSA, Bernardo Vasconcelos e, A
Propriedade das Albergarias de Évora, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica/Centro de
Estudos Históricos-UNL, 1990, pp. 25-39; TAVARES, Maria José Pimenta Ferro, Pobreza e Morte em
Portugal na Idade Média, Lisboa, Presença, 1989, pp. 101-124; MATTOSO, José, Identificação de um País – Oposição. Composição (1096-1325), vol. I, Lisboa, Estampa, 1995, pp. 416-417; CRUZ, António,
"Confrarias", in Dicionário de História de Portugal, dir. Joel Serrão, Porto, Livraria Figueirinhas, 1981, pp. 153-154; SÁ, Isabel dos Guimarães, "Igreja e Assistência em Portugal no século XV", in Separata do
Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. LIII, 1995, pp. 219-236; MARQUES, José, "A
Confaria de S. Domingos de Guimarães (1498)", in Revista da Faculdade de Letras do Porto, série II, vol. 1, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1984, 57-95; BENÍTEZ BOLORINO, M,
Las cofradías medievales en el Reino de Valencia(1329-1458), Alicante, Universidad de Alicante, 1998;
VAUCHEZ, André, A Espiritualidade da Idade Média Ocidental (séculos VIII-XIII), Lisboa, Estampa, 1995, pp. 160-164.
Quanto ao Hospital do Espírito Santo, a sua administração estava nas mãos do concelho345. O texto da sua visitação permite-nos perceber a sua capacidade de acolhimento, sendo referido que dispunha de cinco leitos, o que vai de encontro ao que era comum na época346. Tal como o Hospital de S. Brás e de Santa Susana, também esta instituição se achava nutrida de um significativo rol de propriedades, não sendo estas expostas na visitação visto que o hospital dispunha de um tombo próprio, cujas propriedades rendiam a soma de mil trezentos e noventa reais347, fora outros pagamentos em cânon, o que sugere que o concelho e a própria instituição tirariam delas razoáveis dividendos.
Geralmente as instituições do Espírito Santo constituíam irmandades ou confrarias; apesar disso ser visível, de forma clara, algumas décadas depois348, a partir dos dados emanados da documentação em estudo podemos apenas depreender que à
345
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fol. 140.
346
Sobre a temática da assistência na Idade Média veja-se: CONDE, Manuel Sílvio Alves, "O hospital de Santa Maria de Palhais da Ribeira de Santarém e a assistência medieval portuguesa (monografia histórico-arqueológica)", in Horizontes do Portugal Medieval. Estudos Históricos, Cascais, Patrimonia, 1999, pp. 299-319; SÁ, Isabel dos Guimarães, "Os Hospitais portugueses entre a assistência medieval e a intensificação dos cuidados médicos no período moderno", in Congresso Comemorativo do V Centenário
da Fundação do Hospital Real do Espírito Santo de Évora:actas, Évora, 1996, pp. 87-103; SÁ, Isabel dos
Guimarães, "Igreja e Assistência em Portugal no século XV", Separata do Boletim do Instituto Histórico
da Ilha Terceira, vol. III, 1995, pp. 219-236; TAVARES, Maria José Pimenta Ferro, Pobreza e Morte em Portugal na Idade Média, Lisboa, Presença, 1989, pp. 124-145; BEIRANTE, Maria Ângela, "A Fundação
do Hospital Real do Espírito Santo de Évora – Seu Contexto Histórico", in Ar da Cidade, Lisboa, Colibri, 2008, pp. 253-262; ROSA, Maria de Lurdes, “Lieux de l’assistance médiévale et architecture hospitalière au Portugal”, in Archéologie et Architecture Hospitaliéres de l’Antiquité tardive à l’aube des temps
modernes, dir. TOUATI, François-Olivier, Paris, La boutique de l’Histoire, 2004, pp. 261-278.
347
Valor de certa forma significativo face a outras instituições sob a mesma invocação tanto no seio da milícia espatária – Ferreira: Hospital e sede de confraria com a função de acolher pobres, sendo incerto o número das suas camas; tem adstritas oito propriedades imóveis e uma renda global de 360 reais e 90 alqueires de trigo; MATA, Joel Silva, "A Arquitectura religiosa, assistencial e militar da Comenda de Ferreira, na primeira metade do século XVI", in Estudos em homenagem ao Professor Doutor José
Amadeu Coelho Dias, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006, pp. 397-411; ou ainda
Setúbal – Hospital e sede de confraria, dispondo de sete camas para acolher pobres; a sua renda contava- se de entre os seus foros, aluguer de uma casa, das capelas anexas e das esmolas, perfazendo um total de 27580 reais (a que se deverá juntar o somatório do valor das esmolas que aparece incerto); AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, cod. 151, mf. 714, fols. 25v.º-26v.º. Ou ainda comparando com dados existentes para Santarém – Foram cinco as instituições assistenciais estudadas, comparativamente, por Sílvio Conde para a vila de Santarém: Hospital de Santo Ildefonso (8141 reais); Hospital de D. Gaião (65696 reais); Hospital de Santa Maria dos Inocentes (56977 reais); Hospital do Espírito Santo (65317 reais); Gafaria (95901 reais), rendas estas já englobando o total do somatório do cânone e das direituras; CONDE, Manuel Sílvio Alves, Horizontes do Portugal Medieval.
Estudos Históricos, Cascais, Patrimonia, 1999, pp, 249-251.
348
RAMOS, Maria Regina Soares Bronze, As Igrejas de Palmela nas Visitações do Século XVI – Rituais
e Manifestações de Culto, Porto, Dissertação de mestrado policopiada apresentada à Faculdade de Letras
referência a um "mordomo"349 deveria corresponder uma organização confraternal em torno do hospital.
Sobre a falta de informação relativa à existência de confrarias em Palmela neste período, informa frisar que o facto de apenas termos dados concretos referentes a uma confraria, e indirectos para outras duas, parece-nos algo paradoxal com a determinação geral referente aos mordomos das confrarias e ermidas350; a inclusão desta determinação, apesar de o modelo das determinações gerais ser transversal a outras comendas, apenas faz sentido se considerarmos a existência de várias instituições deste cariz na comenda de Palmela.
Importa ainda concluir sobre um aspecto significativo que é sintomático da evolução relativa das vilas de Palmela e de Setúbal neste período. Se, para a primeira, os dados que nos são fornecidos pelos visitadores são escassos no que concerne à organização das instituições de confrades, já para Setúbal o grau de pormenorização aumenta substancialmente. De facto, de um total de onze templos, entre igrejas e ermidas, identificámos nove confrarias correspondentes a Santa Maria351, Corpo Santo [Hospital do]352, Espírito Santo [Hospital do]353, Santa Catarina354, S. João355, S. Sebastião356, Nossa Senhora da Tróia357, Nossa Senhora da Anunciada358 e, por fim, Nossa Senhora da Misericórdia359, sendo que oito delas foram explicitamente identificadas como sedes de confrarias, com a de Santa Maria a ser referenciada de
349
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fol. 121; para Setúbal (Idem, fol. 25v.º) e Ferreira (MATA, Joel Silva, "A Arquitectura religiosa, assistencial e militar da Comenda de Ferreira, na primeira metade do século XVI", in Estudos em
homenagem ao Professor Doutor José Amadeu Coelho Dias, Porto, Faculdade de Letras da Universidade
do Porto, 2006, p. 408) também identificamos um mordomo à frente desta instituição; quanto a Alcácer, a autora não apresenta dados sobre esta questão. José Augusto Oliveira oferece-nos uma perspectiva interessante ao assumir a confraria do Espírito Santo de Sesimbra como a instituição que congregava a elite social local, com elementos da vereação concelhia, sendo que tal posição não podemos provar para Palmela, nem para esta confraria do Espírito Santo, nem para S. Sebastião (embora tal hipótese se possa colocar para esta última), OLIVEIRA, José Augusto, "Administração da Ordem de Santiago e poder concelhio: a ascensão de Estêvão Esteves, um criado do comendador de Sesimbra", in VI Encontro Sobre
Ordens Militares – Freires, Guerreiros, Cavaleiros, Palmela, GEsOS/Câmara Municipal de Palmela, 10-
14 de Março de 2010. 350
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fol. 126.
351
Idem, fols. fol. 33v.º. 352 Idem, fol. 25v.º. 353 Idem, fol. 25v.º. 354 Idem, fol. 27. 355 Idem, fol. 28. 356 Idem, fol. 29. 357 Idem, fols. 33v.º-34. 358 Idem, fol. 43. 359 Idem, fol. 41v.º.
forma indirecta. Realçamos ainda os casos das confrarias do Hospital do Espírito Santo e da Nossa Senhora da Misericórdia, em que, para o primeiro, contamos com informação relativa à sua organização administrativa e, para a segunda, temos dados relativos aos objectivos assistenciais da instituição.
4.1.8 . As ermidas
Quanto à ermida de Santa Ana, num dos limites da vila, a Nor-Noroeste, junto às hortas com a mesma denominação, os visitadores referem-na como governada pelos juízes e oficiais concelhios, tendo como ermitoa Leonor Luís; o facto de ser uma mulher a desempenhar este cargo pode explicar-se pelo seu orago estar associado ao elemento feminino e à valorização do seu papel social, nomeadamente como esposa e como mãe. Esta instituição constituía ainda um significativo poderio fundiário360, não sendo abusivo considerar que os produtos provenientes das suas terras entrariam facilmente no mercado concelhio garantindo à ermida, e aos fiéis que a visitariam, os proventos necessários à boa manutenção e apetrechamento do templo.
Saindo da vila, encontramos nas faldas da Serra de S. Luís, a Sul de Palmela, uma ermida consagrada a esse mesmo santo. Sem obrigações de missa e reparada pelos fiéis361, parece votada a um certo abandono e decréscimo de importância relativa na comenda.
Quanto à ermida de S. Romão, um pouco mais a Norte do que a anterior, em Alferrara, inserida na mesma paróquia de Santa Maria, tem por ermitão Fernão Gonçalves, aí colocado pelo concelho de Palmela. O texto da visitação demonstra que a Ordem teria algum desconhecimento face a esta ermida, uma vez que inquire no sentido de perceber em que moldes se realizara a sua edificação e quem usufruia das ofertas que a mesma recebia362. A resposta dada insere a fundação da ermida no espírito cristão de
360
AN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Santiago/Convento de Palmela, códice 151, mf. 727, fols. 118v.º-119.
361
Idem, fol. 119v.º. 362
Idem, fol. 120. Esta situação remete para a questão do perdurar da memória popular e institucionalno âmbito das Ordens Militares. Esta memória vai-se, gradualmente, concentrando no espaço e no tempo, fazendo com que alguns acontecimentos do passado local caiam no esquecimento. Testemunho desta situação é a própria fundação da ermida de S. Romão, cuja memória da Ordem é inexistente mas, pelo contrário, a memória familiar do fundador garante o perdorar desse acontecimento. Por outro lado, em relação ao Hospital do Espírito Santo a memória da sua fundação perde-se mesmo, porventura devido ao facto de não se tratar de uma edificação de cariz familiar; sobre esta temática da memória veja-se:
remissão dos pecados, uma vez que é fruto de uma iniciativa privada e secular, de Joane Inglês. Esta ermida seria posteriormente transferida um pouco para a ilharga por Álvaro Afonso que, porém, apenas conseguiu em tempo útil fazer as suas fundações, deixando em testamento que a ermida fosse terminada por João Peres.
Assim, esta instituição parece assumir-se num espírito singular, individualista e com um certo cariz familiar, de acesso mais restrito, mas que nem por isso deixava de realizar ofícios divinos que, provavelmente, seriam encomendados pelo ermitão para o dia da consagração do seu orago e mártir363, a 9 de Agosto.
Por fim, a ermida de S. Gião/Julião, surge-nos indicada como sendo administrada pelo concelho, entidade que, a par da "devaçam com as esmollas dos fie0s de deus", a fundara. Esta ermida destinar-se-ia a captar os fiéis que viviam no termo Norte da vila e que assim encontravam uma forma de enquadramento das suas práticas devocionais e de protecção divina, não obstante o seu afastamento do centro urbano. Provavelmente esta ermida seria palco da celebração em torno do seu santo patrono, a 9 de Janeiro, e que se traduziria, como normalmente sucedia neste género de cerimónias, na entrega de oferendas à igreja.