O meio de hospedagem 3 também faz uso algumas práticas ambientais. Quando questionado sobre a NBR 15401 e quanto à posse de um selo de certificação, o proprietário afirmou que não conhece a norma e que não possui selo de uma entidade propriamente dita, mas que conta com a assessoria da Associação Roteiros de Charme para este fim. Dentre as práticas ambientais voltadas à proteção da fauna e da flora, está a prevenção de impactos luminosos e sonoros. Estas ações são relatadas nos depoimentos a seguir:
a nossa iluminação é toda baixinha, voltada para o chão, iluminando os caminhos, tirando duas árvores que eu tenho lá em baixo, que marcam a entrada da pousada, o resto aqui é tudo luz suave e tranqüila, acho um horror virar uma árvore de natal. E quanto à poluição sonora, eu sou a que mais brigo nessa praia, nem faço festa, não faço festa de casamento, não coloco DJ aqui, porque isso é uma área de proteção ambiental da baleia franca, nem combina. Sim, temos essa preocupação e é bem presente (Entrevistado 3).
Ações educativas junto aos clientes também são utilizadas. A proprietária faz uso do chamado guia do turista responsável, que corresponde a um livreto que é entregue aos hóspedes no momento da chegada no estabelecimento e que tem como objetivo mostrar as práticas ambientais do meio de hospedagem e incentivar boas práticas durante a estadia no local.
todo hóspede que entra aqui na pousada, no momento que ele faz o check-in, ele ganha esse que a gente chama de guia do turista responsável, onde a gente pede para ele não fazer barulho depois das dez, não deixar a torneira ligada, não arrancar coisas da beira da praia [...] há várias questões, deixar o carro, andar a pé pela rua. Depois tu dá uma olhadinha com calma, esse é teu. A gente procura fazer uma peça assim que seja bonitinha né, amigo da praia do rosa né, para incentivar a pessoa a não fazer muitas bobagens por aí [...] a gente procura mostrar para o hóspede, não arrancar orquídea, não deixar lixo na praia, não levar o seu cachorro, comprar do artesanato local, prefirir os produtos, quer dizer, essas todas são práticas que a gente já utiliza aqui na pousada há bastante tempo (Entrevistado 3).
No que diz respeito ao paisagismo do local, o proprietário afirma que não trouxe nenhuma espécie não nativa e que tentou manter o máximo possível, conforme relato abaixo:
todas as árvores [risos], todas que você vê em volta da casa, tanto as árvores quanto as pedras, aquela ali determinou a arquitetura da casa, a gente tentou mexer o mínimo possível, todas as árvores foram preservadas. Sim, claro, as árvores importantes, e, de lá para cá, eu posso dizer assim, sem medo de errar, que nós já plantamos mais de mil árvores e mais de mil orquídeas nesse mato. De lá para cá só, só, só plantamos mais (Entrevistado 3).
Para a gestão dos resíduos líquidos, o meio de hospedagem utiliza um sistema de fossas por decantação com carvão ativado. No trecho a seguir o proprietário explica o funcionamento deste sistema:
é um sistema de fossas por decantação, que ela vai, não sei exatamente o nome disso, mas assim ó, começa com pedra, passa para o areião, passa para uma areia mais fina, passa para uma areia mais fininha e no fim, carvão ativado. Não sei se isso tem um nome, talvez até tenha [...]a pousada e começou a ser construída em 1993, nada se falava sobre esse assunto, mas a gente já contratou um arquiteto que na época nos sugeriu de fazermos as fossas com carvão ativado que na época era uma coisa caríssima. Ainda hoje não é barato, mas nos dava a certeza absoluta que daqui não teriam resíduos líquidos que pudessem poluir principalmente a água do mar e a água da lagoa. Eu me lembro que foi um investimento caro, mas a gente pensou: pô, a gente está vindo aqui para sempre, não é para estragar, é para contribuir (Entrevistado 3).
No que diz respeito aos resíduos sólidos, o entrevistado afirma fazer a separação e a coleta seletiva do lixo e prevenir o uso de embalagens descartáveis, conforme o seguinte depoimento:
as nossas compras chegam em engradados de plástico, não em sacos, por exemplo, o peixe, normalmente ele é comprado com o isopor daqui, coloca-se o peixe no isopor, sem embalagem nenhuma e o grosso das compras vem nesses containers plásticos. A gente praticamente não compra nada em sacolinha plástica (Entrevistado 3).
Os resíduos orgânicos são aproveitados para a adubação do jardim. O procedimento pelo qual ele passa é explicado no trecho abaixo:
como o terreno é muito grande, a gente vai fazendo buracos, né? Buraco, lixo orgânico, um pouco de areia, lixo orgânico, areia, quando ele chega até em cima, a gente tapa, depois de um ano ou dois a gente abre esse buraco e usa o resultado para adubar o jardim. Às vezes é legal porque onde tem o buraco do lixo, quando você vê tem umas melancias deste tamanho, umas abóboras, maracujá e, além disso, a gente cria galinha caipira. Então toda alfacezinha, todo restinho da comida, vai para alimentar as galinhas, porque elas não comem ração (Entrevistado 3).
O proprietário afirma que não possui um programa de preparação e treinamento para emergências ambientais, mas que seus funcionários são instruídos a respeito. O seguinte relato ilustra estas ações:
os funcionários aqui já tem muitos anos, a grande maioria, Isso é uma coisa boa, o nosso nível de troca é baixo [...] os que estão a mais tempo e isso é a grande maioria, através de palestras que já foram realizadas aqui pelo próprio Roteiros de Charme, criaram essa consciência assim de, por palestra ou pelo convívio diário. Eu não posso te dizer que eu tenho um procedimento padrão para uma emergência ambiental, nem sabia que tinha esse termo, mas uma consciência que foi sendo construída [...]. Por exemplo, jamais um barqueiro meu leva um hóspede para a beira da praia sem dar um saquinho de lixo na mão dele. Isso não é considerado uma emergência, mas é uma prática que a gente têm, hóspede nosso não deixa lixo na praia (Entrevistado 3).
Em relação à gestão do uso da água, o entrevistado diz que não sente necessidade de reutilizar as águas residuais tratadas e fazer a captação da água da chuva em razão da grande quantidade de chuvas no local. É informado, porém, que são utilizados dispositivos para a
economia de água em torneiras e descargas e que os hóspedes são envolvidos nestas ações. Esta prática é evidenciada pelo comentário que segue:
todos os apartamentos tem uma plaquinha que é colocada, onde a gente pede ao hóspede que reutilize tanto a toalha de banho, quanto os lençóis pelo maior tempo possível e que a gente só vai fazer a troca dessas coisas no momento em que ele pedir, isso já ajuda um bocado, né? É um informativo que é uma norma de todos os hotéis do Roteiros de Charme também e as pessoas realmente utilizam as toalhas por mais tempo e o lençol acaba utilizando mais também. Claro que quando tá sujo tem que trocar, a própria camareira vê, mas o fato de chamar ajuda. Ah! E outra coisa também que antigamente era uma orgia, chegava a usar 6 toalhas por dia, então a gente dá duas toalhas através de um cartão, o cara entrega o cartão e pega duas toalhas, depois ele tem que trocar as toalhas pelo cartão de volta, se ele quiser uma toalha extra ele vai pagar 3 reais que a gente diz que é o custo de lavar a toalha. Com isso foi ótimo porque agora as pessoas usam realmente duas toalhas de piscina, foi uma maneira educativa. Teve um dia que 20 hóspedes usaram 80 toalhas de piscina e eu fiquei doida. Ah não, acabou essa farra, chega a doer de ver uma montanha de toalha limpa, na verdade elas estão limpas, mas acaba tendo que lavar, então eu tenho aqui o cartãozinho de toalha, daí acabou a bagunça (Entrevistado 3).
O consumo de energia também é controlado no estabelecimento. O entrevistado afirma que registra sua utilização e estabelece metas para diminuir se necessário, emprega dispositivos para que a energia funcione somente quando necessário, faz uso de energia solar, troca aparelhos elétricos frequentemente e possui ambientes propícios para a entrada de iluminação natural. Algumas destas práticas são descritas nos relatos abaixo:
estou trocando todos os frigobares da pousada, eu tenho um cônsul de 80 litros que me consome 27KW/h/mês, por um que vai me consumir 12. Estou trocando agora, semana que vem chegam os novos, são menores, em vez de 80 litros são 40 litros. Quando eu fiz a conta da diferença de consumo energético, estou investindo em aparelhos novos porque eu sei que em 2 anos esse investimento vai ser pago pela diminuição do consumo energético, acabamos de fazer. Da mesma maneira os ar condicionados split e da mesma maneira as TVs de LCD, tudo novinho assim. Quando a gente faz a conta vê que é excelente negócio para todo mundo né (Entrevistado 3).
a gente não usa telha de vidro, mas a gente, assim, os ambientes da pousada são os mais abertos possíveis para a utilização da luz natural. Não tem nenhum ambiente na pousada que precise acender a luz durante o dia (Entrevistado 3).
No que diz respeito aos insumos, o proprietário diz utilizar somente produtos biodegradáveis. Os fornecedores ainda não são selecionados de acordo com suas práticas ambientais em razão da carência de provedores de insumos na região. Esta razão é explicada no trecho abaixo:
aqui é ao contrário, aqui a gente que implora por um fornecedor, principalmente os que possam fazer as entregas para nós. Adoraria poder, mas aqui na região é tão carente de padeiro, lavanderia, fornecedor de alimentos que não está dando para escolher ainda. O cara da lavanderia eu cobro toda hora que ele passa aqui, eu digo: Tu não tá jogando água suja na lagoa? Não, não, eu juro, coloquei lá filtros e tal. Eu fico pegando no pé, mas na verdade eu não fui lá olhar se tem até porque se eu brigar com ele eu não tenho nenhum, entendeu? (Entrevistado 3).
O proprietário afirmou que as práticas ambientais mencionadas são utilizadas desde a fundação do empreendimento. Uma das razões citadas corresponde ao fato de pertencerem à Associação Roteiros de Charme desde o início das operações.