2.2. ULIKE UNDERVISNINGSMETODER I BEGYNNEROPPLÆRINGEN I LESING
2.2.6 Å lære å lese på et andrespråk
Na descrição do fenômeno das revoluções passivas, Gramsci chama a atenção para a capacidade das elites difundirem seus valores em meio às classes populares. Analisando o Risorgimento19italiano, no século XIX, Gramsci discute o papel
protagonista dos intelectuais. Dessa forma, entende-se que em todo o processo da revolução passiva, ocorra também um processo de atuação ideológica de grande relevância, que permita às classes populares a recepção e aceitação do programa das classes dominantes amalgamado a algumas de suas aspirações. Por isso, discorrer-se-á brevemente sobre o conceito de ideologia empregado nesta dissertação.
Talvez seja pertinente enfatizar que um dos conceitos de maior complexidade para a sociologia é o de ideologia. De Desttut de Tracy20 até os dias de hoje, o termo foi alvo das mais diversas interpretações, ampliando ou mesmo alterando o seu sentido. Reconhece-se que “é um conceito essencialmente contestado, isto é, um conceito acerca de cuja exata definição (e portanto aplicação) existe viva controvérsia” (MCLELLAN, 1987, p. 13). Basicamente, no marxismo, a trajetória do conceito iniciou-se de maneira negativa, pois, para
“Marx o sentido pejorativo de ‘ideologia’ envolvia dois elementos principais: primeiro, a ideologia estava ligada ao idealismo o qual, numa perspectiva filosófica, contrastava desfavoravelmente com o materialismo: qualquer visão correta do mundo tinha de ser em certo sentido, uma visão materialista. Em segundo lugar, a ideologia estava ligada com a distribuição desigual de recursos e poder na sociedade: se o sistema social e econômico era suspeito, então a ideologia fazia parte dele.” (Ibidem, p. 27).
19 Embora Gramsci entendesse o Risorgimento como um processo italiano, ele o compreendia como
desdobramento de todo processo mais global na Europa. Com a Reforma (século XVI), Revolução Francesa (1789) e todo o desenvolvimento das idéias Liberais, foram se formando os elementos necessários que proporcionaram o “[...] processo de formação das condições e das relações internacionais que permitirão à Itália unir-se em nação e às forças nacionais desenvolverem-se e expandirem-se, [...]” (GRAMSCI, 2002, p. 17 e 63).
20 Intelectual francês contemporâneo de Napoleão Bonaparte que definiu em seu livro Eléments d’Idéologie o termo ideologia como a “ciência das idéias”. Seu objetivo era analisar cientificamente as
ideologias. O significado da expressão será desvirtuado para um sentido negativo por Napoleão que considerava Desttut de Tracy e seus companheiros, “ideólogos”, ignorantes da realidade.
Para Marx, a ideologia se apresenta como uma inversão do real. A referência para se entender a exposição de Marx sobre a ideologia é o pensamento de Hegel.21 Este, segundo Marx, incorria no erro de tornar “objetivo o que era subjetivo”, tal como quando defendia a idéia de que a consciência determinaria o ser, e não o contrário. Isto seria uma “inversão hegeliana”. Contudo, para Marx, a ideologia além de ser uma contrafação da realidade, seria a própria expressão das contradições e desigualdades do mundo real.
Em A Ideologia Alemã, encontra-se uma das passagens mais utilizadas sobre o entendimento de Marx sobre a ideologia.
“Se, em toda ideologia, os homens e suas relações aparecem de cabeça para baixo como numa câmera escura, este fenômeno resulta do seu processo histórico de vida, da mesma forma como a inversão dos objetos na retina resulta de seu processo de vida imediatamente físico.” (MARX e ENGELS, 2007, p.94).
Tal relato descreve um processo de inversão da realidade, que caracterizaria a ação ideológica, isto é, inverter a consciência do homem sobre a si próprio e sobre suas relações sociais. O próprio Marx exemplifica ao afirmar, “Idéia do direito. Idéia do Estado. Na consciência comum, a questão é colocada de cabeça para baixo” (Ibidem, p.78). [itálico no original] Mais uma vez, há um diálogo com as concepções hegelianas de Direito e Estado. Para Hegel, o Estado seria uma manifestação da consciência de liberdade do homem, mas, para Marx, a expressão da própria desigualdade. Essa inversão serviria como estratégia de dominação da classe burguesa para a conservação e ampliação do modo de produção capitalista. Assim, “esse Estado não é nada mais do que a forma de organização que os burgueses se dão necessariamente, tanto no exterior
21 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), maior expoente do idealismo alemão. Foi capaz de
influenciar profundamente o pensamento de filósofos tais como: Feuerbach, Bruno Bauer, Marx, Kierkegaard e Nietzsche, entre outros.
como no interior, para garantia recíproca de sua propriedade e de seus interesses” (MARX e ENGELS, 2007, p.75). É importante insistir que essa inversão ou ilusão que se expressa na forma do Estado burguês e nas leis deste mesmo Estado seria derivada de uma apreensão deformada e dificultada, propositadamente pela classe dominante, da realidade. Os autores de A Ideologia Alemã são bem enfáticos ao afirmar que “Na lei, os burgueses devem fornecer uma expressão geral de si mesmos, precisamente porque dominam como classe” (Ibidem, p. 77).
Por outro lado, importa discutir que o próprio marxismo em sua dinâmica experimentou visões diferentes do conceito antes absolutamente negativo, por ser uma forma de dominação de classe, até ser reconhecido como algo que pode ser positivo, como Lênin22 que chegou a “[...] atribuir uma posição ideológica a todas as classes – incluindo o proletariado. A ideologia perdeu assim a sua conotação negativa: as idéias não eram defeituosas por serem ideológicas, mas somente pelos interesses de classe que servissem” (MCLELLAN, 1987, p. 48). De Lênin a Gramsci, o conceito foi estudado e ampliado conforme o intelectual. De maneira geral, o marxismo aceitava em suas discussões a idéia de que as ideologias existem em todas as classes. A partir de Lênin, ideologia seria “como qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses de certas classes sociais” (LÖWY, 2006, p.12). E mais ainda, “A ideologia pode (e de fato o faz) servir a ambos os lados [nos embates do conflito de classes] com seus meios e métodos de mobilização dos indivíduos que, ainda que não percebam com clareza o que ocorre, inevitavelmente participam da luta em andamento” (MÉSZÁROS, 2004, p.327).
No percurso desta discussão não se pretende analisar todas as transformações do conceito de ideologia no marxismo. Assume-se, entretanto, que em Gramsci
22 Pelo fato de Lênin não ter chegado a conhecer A Ideologia Alemã, pois mesmo esta sendo concluída em
1846, só foi publicada em 1932 na União Soviética, não se pretende afirmar que ele estava discordando ou replicando as análises do próprio Marx e Engels como apresentada em A Ideologia Alemã.
encontraríamos o arcabouço teórico adequado ao estudo do objeto proposto. Guido Liguori nos orienta que
“Para entender plenamente o conceito de ideologia nos Cadernos, deve-se levar em conta que ele se articula numa ‘família de palavras’, que também é uma ‘família de conceitos’: ideologia, filosofia, visão ou concepção de mundo, religião, conformismo, senso comum, folclore, linguagem. Cada um deles indica um conceito que não se pode sobrepor inteiramente ao outro. Mas, ao mesmo tempo, todos estes termos estão correlacionados entre si, aparecem simultaneamente. Formam uma rede conceitual que, no seu todo, desenha a concepção gramsciana de ideologia. Ideologia, filosofia, concepção de mundo, religião, senso comum etc. podem diferir segundo o grau de consciência e de funcionalidade, mais ou menos mediatas em relação à práxis e à política.” (LIGUORI, 2007, p.91).
Começa-se a configurar a base da compreensão gramsciana de ideologia. Ainda segundo Liguori, “a ideologia, em Gramsci, é a representação da realidade própria de um grupo social” (Ibidem, p. 94), portanto, também pode ser negativa ou positiva, dependendo da classe que a desenvolve. Toda a filosofia, concepção de mundo, senso comum ou folclore, estariam à disposição das classes, e dessa forma, estariam a serviço da transformação ou da manutenção do status quo. A ideologia da classe dominante certamente estaria a serviço da perpetuação da situação de dominação de classe. Para alcançar esse objetivo, seria imperativo que ela se difundisse por toda a extensão da sociedade com as mais variadas formas e instrumentos, da filosofia ao folclore, sendo capaz de influenciar as pessoas em cada uma de suas decisões. Segundo Hugues Portelli,
“Gramsci distingue [na ideologia], pois, diversos graus qualitativos que correspondem a determinadas camadas sociais: na cúpula, a concepção de mundo mais elaborada: a filosofia; no nível mais baixo, o folclore. Há entre esses dois níveis extremos, o ‘senso comum’ e a religião.” (PORTELLI, 1977, p.24).
Parece importante a lembrança de que o objetivo de uma classe ao difundir sua ideologia é a direção moral e política da sociedade. Esse objetivo só pode ser alcançado quando a ideologia se confundir com a própria cultura. Assim, pode-se encontrar nos
Cadernos a seguinte referência:
“Temas de cultura. Material ideológico. Um estudo de como se organiza de fato a estrutura ideológica de uma classe dominante: isto é, a organização material voltada para manter, defender e desenvolver a ‘frente’ teórica ou ideológica. A parte mais considerável e mais dinâmica dessa frente é o setor editorial em geral: editoras (que têm um programa implícito e explícito e se apóiam numa determinada corrente), jornais políticos, revistas de todo o tipo, científicas, literárias, filológicas, de divulgação, etc., periódicos diversos até os boletins paroquiais. (...)
A imprensa é a parte mais dinâmica desta estrutura ideológica, mas não a única: tudo o que influi ou pode influir na opinião pública, direta ou indiretamente, faz parte dessa estrutura. Dela fazem parte: as bibliotecas, as escolas, os círculos e os clubes de variado tipo, até a arquitetura, a disposição e o nome das ruas.” (GRAMSCI, 2006b. p.78). [grifo nosso]
Esses comentários permitem compreender a natureza abrangente da ação ideológica por toda a sociedade. Tal ação se dá no cotidiano das pessoas, em suas relações sociais, no trabalho, na escola, no lazer e na prática religiosa. “assim, a ideologia não é meramente uma representação ilusória da realidade: é o processo através do qual as pessoas vivem a sua relação com a realidade” (MCLELLAN, 1987, p.59).