Fonte: Durand (2010)
Em outros pontos do território, soldados indonésios chegavam através dos aeródromos de Baucau e Viqueque, porém, em função do conhecimento de seu próprio espaço, incluindo aqui o conhecimento climático31 e geomorfológico32, os soldados timorenses conseguiram
retardar o avanço indonésio, apesar de este último possuir uma grande superioridade bélica. Neste período, em 17 de dezembro de 1975, é instituído, em Díli, o governo provisório indonésio, constituído pelo líder da APODETI, Arnaldo Reis de Araújo e pelo líder da UDT, Francisco Lopes da Cruz (ACÁCIO, 2006, p. 53).
31Os soldados indonésios só conseguiram avançar em março do ano seguinte, com o fim da época das chuvas.
(ACÁCIO, 2006, p. 53)
32 as fortificações oferecidas pelo terreno acidentado para se entrincheirarem e atacarem
Em abril de 1976, o distrito de Ermera, foco da presente pesquisa, localizado nas montanhas, é invadido pelo exército indonésio, havendo assim, uma maior interiorização das batalhas. Cabe destaque aqui para uma fala do atual presidente da RDTL, Taur Matan Ruak:
As operações eram o pão-nosso de cada dia. Nós defendíamos a todo o custo o avanço dos indonésios, para não ocuparem mais porções do nosso país e para garantir a segurança da população, para poder trabalhar na agricultura, e organizar-se de modo a ajudar-nos a combater e a sobreviver ao mesmo tempo (ACÁCIO, 2006, p. 58).
Nesse mesmo contexto, no Comunicado de 3 de março de 1976, Nicolau Lobato aponta para a Educação Popular ligada a uma luta de libertação nacional em que a juventude da
p
discutido no Capítulo 2 deste trabalho.
Nesse mesmo sentido, destaca-se uma agricultura de cunho revolucionário, batizada como Força de Arma Branca, que garantia a segurança e tarefas de auxílio à FRETILIN (ACÁCIO, 2006, p. 61), isto é, fornecia alimentos, servia como local de informações e esconderijo para soldados das FALINTIL, semelhantemente ao ocorrido durante a Guerra do Vietnã. Segundo a revista FUNU de julho de 1980, o Padre Leoneto do Rego destaca que,
Havia um organismo da FRETILIN que dirigia a agricultura. Cada família tinha a sua horta e havia uma horta comunal cujo produto se destinava, parte a ser armazenado e parte para alimentar as forças armadas. A população trabalhava livremente nas hortas comunais. Nunca vi alguém que não quisesse trabalhar. O comité central da FRETILIN promovia reuniões, esclarecia o povo, ouvia-o e depois organizava-se o calendário de trabalho de cada um na horta colectiva. As pessoas compreendiam que havia homens a combater e que era preciso alimentá-los. (ACÁCIO, 2006, p. 62)
Destaca-se, então o papel das mulheres na resistência timorense desde a luta armada até a organização da Educação com o intuito de treinar outros professores. Na luta armada, segundo Acácio (2006, p. 62), cerca de 1000 mulheres estiveram nos campos de batalha. Com relação à Educação, Acácio (2006, p. 63) registra depoimento de Adelina Tilman, membro da Organização Popular da Mulher de Timor-Leste:
(...) foram criados vários centros de saúde e creches. Estima-se que pelo menos 4000 crianças com menos de 14 anos perderam os seus pais, por isso, o
governo da República Democrática de Timor Leste atribuiu à organização das mulheres a responsabilidade de cuidar das crianças. (ACÁCIO, 2006, p. 63).
Ainda em relação à Educação, cabe destaque ao importantíssimo Centro de Formação Política (CEFORPOL), orientado pelo Departamento de Orientação Política e Ideológica (DOPI) da FRETILIN, de 1976 até 1978. Esse centro teve como base uma Educação Popular com princípios advindos de Marx, Amilcar Cabral, Paulo Freire e Mao Tsé Tung. Dessa forma, foram criadas escolas de Educação Popular que se materializavam nos centros de formação política. Essas escolas eram voltadas, principalmente, à liderança da FRETILIN nas montanhas, sendo estabelecidas em quase todo território timorense. Segundo Silva (2014), anteriormente a este processo, um dos precursores da Educação Popular em Timor, envolvido com a CEFORPOL, foi o timorense Vicente Reis (Sahe) que encabeçou esta luta com base na Educação, já em 1974, com o apoio da União dos Estudantes de Timor-Leste (UNETIM).
Como forma de contato com o exterior,33foi criado, sob o comando da FRETILIN em
11 de março de 1976, a Rádio Maubere, que também serviu como meio de comunicação interna do povo timorense. O intuito era passar informações de encorajamento para o povo, no sentido de expor a necessidade de resistir contra a invasão externa. Porém, em 28 de julho, as autoridades australianas confiscaram o único emissor-receptor que mantinha as comunicações entre a Austrália e a Rádio Maubere. Vale relembrar que a Austrália, como hegemom34ligado
aos EUA, tinha o objetivo de se voltar contra qualquer ameaça comunista, combatendo o partido localmente e externamente (ACÁCIO, 2006).
Observa-se que, a cada momento, a Indonésia avançava, adentrando o território timorense. Dessa forma, em 17 de julho, a República da Indonésia publica a lei 7/76, que integra Timor-Leste como 27ªprovíncia, na sequência de uma assembleia fantoche realizada em Díli a
24 de maio. Assim,
No momento em que Timor-Leste se tornou administrativamente incorporado à grande Indonésia, todas as demais agências governamentais indonésias pertinentes fizeram sua aparição. Isso incluiu agências e departamentos governamentais, como saúde, agricultura, serviços públicos, educação, informação (...). Até a administração da religião ficou a cargo de um departamento especial. (...) Obviamente, a moeda da Indonésia substituiu a moeda do Timor Português, ao passo que bancos indonésios, tanto privados como públicos substituíram os bancos portugueses. (GUNN, 2007, p. 42)
33Partido Comunista da Austrália principalmente.
34Harvey (2010) trabalha esse conceito como uma representação territorial de um país eu outra localidade. No
Gunn (2007) destaca que a Indonésia trouxe ao Timor uma burocracia materializada no levantamento de estatísticas inúteis, acrescida de um modelo administrativo de patrão-cliente que gerava nepotismo e corrupção.
Através de um monopólio da terra35, os militares indonésios dominaram o setor da
agricultura, fazendo crescer a corrupção e a fome entre os timorenses, pois estes tinham que pagar aos militares para utilizarem sua própria terra (ACÁCIO, 2006, p. 64).
incluindo apresentação de filmes, exibições, mídia impressa, rádio e televisão, sem mencionar
2007, p. 50). Nesse sistema de controle da informação, só era autorizado o uso de livros na língua indonésia que tivessem relação com os conteúdos curriculares, até pelo fato de que a Educação era ponto-chave do projeto indonésio. Diferentemente da visão portuguesa, os indonésios iniciaram um investimento na Educação, com o intuito de fortalecer desde a educação primária até o ensino superior, porém de forma controlada (GUNN, 2007; SHOLEH, 2014).
De maneira semelhante à disciplina de Educação moral e cívica no ensino médio e da disciplina Estudos de Problemas Brasileiros (EPB) no ensino superior no Brasil, durante o mesmo período, o governo indonésio utilizava-se, no ensino superior, da disciplina Pancasila36,
com o intuito de difundir uma ideologia nacional integracionista e suprimir o sentimento nacionalista dos timorenses. (GUNN, 2007).
O uso da língua portuguesa havia se tornado proibido, com exceção de usos referentes a celebrações da Igreja Católica, já que era preciso, de alguma forma, realizar uma tentativa de agradar o povo timorense, respeitando a religião cristã, cativando-os para aceitarem a integração indonésia. Até mesmo as escolas católicas eram obrigadas a seguir o currículo indonésio. (GUNN, 2007, p. 50-52).
Em relação ao ensino superior, muitos timorenses foram estudar na Indonésia. Mas, como forma de fortalecer a educação local de Timor, foram criadas universidades, incluindo aí
35Temática que será desenvolvida no capítulo 2.
36O Estado Indonésio baseia-se na ideologia e filosofia da Pancasila, que tem por objetivo unificar no mesmo
Estado várias culturas distintas. Processo este, iniciado após a independência indonésia contra a Holanda. De forma a ilustrar o espaço geográfico indonésio, cabe destacar que fisicamente o país possui mais de 17 mil ilhas. Assim, os cinco princípios fundamentais da Pascasila são: crença em um Deus supremo, sentido de humanidade justa e civilizada, unidade da Indonésia, democracia guiada por uma sabedoria interior advinda de representantes do povo e justiça social para todo o povo indonésio.
a Escola Superior Técnica de Fatucama, administrada pela Igreja Católica; a instituição privada Universiti Timor Timur e a Escola Politécnica de Díli, atual campus da UNTL de Hera, onde se concentram os cursos de Engenharia de petróleo.37
1.2.2. As FALINTIL e sua primeira reorganização
Entre os dias 8 de março e 20 de maio de 1976, o Conselho Superior da Luta da FRETILIN reuniu-se pela primeira vez nas montanhas (Laline) e aprovou o princípio da guerra popular prolongada baseada nas próprias forças e nomeou Nicolau Lobato como comandante militar das FALINTIL (ACÁCIO, 2006, p, 67). Em outras palavras, uma guerra que se iniciou de forma convencional, começava a tomar formato de uma guerrilha, em função da imensa superioridade bélica e numérica dos indonésios. A necessidade dessa nova forma só veio se confirmar com as operações de cerco e aniquilamento (MAPA 07) em que as forças indonésias atacaram e destruíram bases da resistência, aniquilando muitos dos principais líderes da luta, restando apenas acampamentos isolados de civis e militares nas montanhas.