O trabalho seminal de Hägerstraand (1970) introduziu o conceito do prisma espaço- temporal. Segundo o autor, todos os seres humanos vivem em um contínuo espaço-temporal desde o nascimento até a morte. Esse contínuo pode ser graficamente representado pelas dimensões espaciais mais uma dimensão temporal ortogonal a elas.
Inicialmente pode-se imaginar que haveria total liberdade para percorrer qualquer caminho nesse contínuo. Porém, o autor identifica uma série de restrições que fazem com que os caminhos possíveis sejam representados por prismas fora dos quais a acessibilidade para o indivíduo é impossível. Essas restrições são categorizadas e exemplificadas na Tabela 3.
Tabela 3 – Limites de atuação no contínuo espaço-temporal.
Tipo de Restrição Definição Exemplos
De Competência Limita as atividades do indivíduo por causa de sua construção biológica e/ou instrumentos que pode controlar.
Necessidade de dormir um mínimo de horas por dia; de se alimentar em intervalos regulares; de manter objetos pessoais e meios de contato.
De Ligação Define onde, quando e por quanto tempo o indivíduo deve encontrar outros indivíduos, ferramentas e materiais para produzir, consumir e transacionar.
Necessidade de atividades como trabalhar, assistir aulas, fazer compras, ir a uma consulta médica.
De Autoridade Imposta pelo domínio de um indivíduo ou grupo sobre o espaço, e superada mediante convite, pagamento ou status legal.
Necessidade de cidadania para residir em um país, de alugar ou comprar o local de residência; imposição de lotação máxima e cobrança pela entrada em um teatro.
Fonte: Traduzido e adaptado de Hägerstraand (1970).
Para ilustrar o conceito, pode-se imaginar um local onde haja uma única rua, de 10 km de extensão. No km 0, encontra-se um bairro popular; no km 6, um parque; no km 7, moradias de alto padrão; o centro da cidade fica entre os km 9 e 10. Esse espaço, que tem uma dimensão apenas, é representado graficamente pela Figura 6.
Figura 6 – Exemplo hipotético de espaço unidimensional
Para entender a importância das restrições espaço-temporais, suponha-se que duas pessoas J e K trabalhem no mesmo local, no km 9 da figura acima. Ambas têm a mesma restrição quanto ao horário de descanso e obrigações com a família, que implicam que devem estar nas suas casas de 19h às 6h. O expediente de trabalho pode começar entre 7h e 7h30, e a jornada é de 8 horas, com 2 horas de intervalo. A diferença entre essas pessoas é que J mora no bairro abastado (km 6), enquanto K vive na região mais distante (km 0).
No começo do dia, alguns possíveis caminhos espaço-temporais dessas pessoas estão representados na Figura 7 (como o espaço só tem uma dimensão, pode-se representá-lo no eixo x, reservando o eixo y para o tempo).
Figura 7 – Caminhos espaço-temporais hipotéticos para viagens de ônibus e a pé
A primeira observação que se pode fazer é que J pode ir trabalhar a pé, pois mora perto do trabalho, mas K não tem essa opção. A linha pontilhada que parte da residência de K
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 possíveis paradas ao longo do caminho K J
(km 0) às 6h00, representando um deslocamento a 4 km/h, não consegue atingir o local de trabalho no km 9 a tempo do início da jornada de trabalho, ou seja, às 7h30. Assim, no caso de K, restrições de competência (horário de saída e velocidade de caminhada) em conjunto com restrições de ligação e de autoridade (horário de chegada ao trabalho) obrigam o uso um meio de transporte mais rápido que a caminhada.
Ao sair de ônibus, o deslocamento de K no espaço-tempo está condicionado ao desempenho do sistema de transporte. Nesse exemplo, o ônibus circula com velocidade média de 16 km/h, e sai a cada 10 minutos. Isso resulta que K deve, necessariamente, embarcar em um dos horários disponíveis que atendam às restrições de horário de chegada (representados pelas três linhas pretas sólidas paralelas na Figura 7). Uma mudança na velocidade ou na frequência dos ônibus mudaria também o caminho percorrido por K. Se fosse lançado um sistema de trem que aumentasse a velocidade do transporte público para 40 km/h, K teria um ganho de 30 minutos para ficar em casa ou fazer outras atividades (poderia fazer o caminho representado pela linha tracejada).
As restrições sobre J são menos severas. Pela proximidade do trabalho, o próprio horário de partida é mais flexível e é mais fácil fazer paradas pelo caminho, seguindo qualquer combinação das linhas vermelhas. A agenda de atividades de J, portanto, pode incluir outras funções durante a viagem, enquanto K, dentro do ônibus, não dispõe dessa opção.
O desempenho do sistema de transporte e a forma como as pessoas se relacionam com a cidade têm implicações sobre outros direitos e políticas. Tome-se uma decisão de não cobrar entrada no parque representado na Figura 6. J pode usufruir desse benefício: saindo a pé às 17h30, J estará em casa às 18h e chegará ao parque às 18h15, podendo ficar lá até 18h45. Já K, pegando um ônibus às 17h40, chegará à sua casa às 18h13. Tomando a próxima viagem para o centro às 18h20, K estará no parque às 18h42. Chegando lá nesse horário, K não conseguiria retornar para casa antes de 19h00. Assim, o afrouxamento de uma restrição de autoridade sobre o parque (a cobrança de entrada) não é uma política efetiva para K, pois as demais restrições impostas no espaço-tempo fazem com que o equipamento urbano ainda esteja inacessível.
Uma abordagem tradicional não chegaria à mesma conclusão – se a utilidade líquida de ir ao parque aumentou, espera-se uma frequência maior de viagens de todas as pessoas a esse local. Ainda que haja uma ponderação pela distância de acesso, tende-se a subestimar o efeito regressivo do subsídio a equipamentos urbanos localizados em áreas mais nobres da cidade, na falta de um bom sistema de transporte.
As restrições espaço-temporais são úteis na análise de resposta a novas políticas de transporte. Suponha-se que o governo local libere o pagamento da tarifa em qualquer viagem até 6 h. Aqui, essa política não surtirá nenhum efeito, devido à restrição de acoplamento que obriga J e K a estar em casa no horário no qual conseguiriam usar o transporte gratuitamente. O custo, como se pode ver na Figura 5, é um elemento a se considerar no desempenho do sistema de transporte, mas não pode ser tomado isoladamente.
Cullen e Godson (1975), em outro trabalho de inegável importância para o desenvolvimento dos modelos baseados em atividades, propuseram que os processos decisórios do indivíduo no contínuo espaço-temporal são calcados nas seguintes proposições:
1) Comportamento organizado – O comportamento no espaço-tempo revela padrões recorrentes. A intencionalidade no planejamento varia entre indivíduos e entre atividades, observando-se tendências instintivas em alguns casos e meticulosidade em outros. A escolha se dá com informações limitadas e, portanto, a racionalidade não pode ser garantida.
2) Espaço de ação – O indivíduo opera em uma estrutura condicionada por padrões físicos e pelas necessidades das normas, expectativas e hábitos adquiridos.
3) Prioridades internas – O indivíduo seleciona entre as atividades possíveis ordenando-as de acordo com sua importância financeira e social; a presença e as características dos demais participantes (relacionamento, frequência de contato, etc.); a ordem em que as atividades foram planejadas; e seus próprios gostos.
4) Restrições externas – O indivíduo enfrenta restrições que reduzem suas escolhas a um subconjunto de seu espaço de ação, tais como disponibilidade financeira imediata, horários de abertura e fechamento de estabelecimentos, e a localização específica de algumas atividades (por exemplo, na atividade “ir ao teatro”, a escolha de uma determinada peça para assistir restringe a escolha de local a apenas um dentre os vários teatros disponíveis no espaço de ação do indivíduo).
5) Flexibilidade das atividades – Uma atividade específica tem um grau de rigidez subjetivo de acordo com o comprometimento associado a ela, e com o grau de restrição espaço-temporal. Atividades programadas para as quais outras pessoas são necessárias são, em geral, fixadas no espaço e no tempo. Atividades rotineiras são virtualmente fixas. Atividades planejadas para o futuro variam grandemente em flexibilidade (desde cortar o cabelo essa semana até sair para comprar algo hoje na hora do almoço). Atividades inesperadas ocorrem por acaso, mas têm a capacidade de sobrepujar os demais tipos de atividades.
6) Agendamento – Uma porção variável do dia do indivíduo é agendada de forma a facilitar a sincronização de atividades e economizar tempo e deslocamentos. Atividades agendadas de forma não automática (isto é, que não são recorrentes) são dispostas em função de atividades cujo padrão espaço-temporal é fixo. Estas atuam como determinantes dos possíveis agendamentos daquelas.
Os autores dividem as atividades em cinco tipos principais: manutenção (dormir, comer, cuidados pessoais, etc.), trabalho, social, lazer e compras. Destes, concluem que o grau de fixação espaço-temporal das atividades de trabalho é maior do que das outras atividades fora de casa e, portanto, o trabalho tem uma função estruturadora importante nas agendas de participação individuais. Esse papel pode ser exercido também pelo estudo, quando este se caracteriza como atividade que envolve o comprometimento de um grupo grande (uma turma e um professor).
Outro achado foi que o grau de fixação espacial das atividades tende a ser maior do que o grau de fixação temporal – ou seja, mais atividades têm que ser realizadas em um local específico do que em uma hora específica. No entanto, a fixação temporal gera um grau de prioridade maior no processo de agendamento, já que provoca uma fixação absoluta na agenda, ao passo que diversas atividades com restrições espaciais, mas não temporais, podem ser sequenciadas de diferentes formas.
Também foram encontradas diferenças de flexibilidade entre dias da semana, evidentemente com os dias úteis contendo mais atividades fixas, e até mesmo ao longo de um mesmo dia – as pessoas tendem a preferir realizar as atividades mais fixas antes das demais. (portanto, pela manhã) (Kitamura, 1984).