Quando subimos para os mais altos planos do conhecimento, nos avizinhamos do centro em que se dá a unificação de todas as coisas, para a qual tudo tende, evoluindo. Então acontece que o cientista e o místico se aproximam tanto um do outro, que chegam quase a tocar-se no mesmo terreno. E eles representam tudo o que chamamos ciência e fé, que assim também se avizinham até se fundirem; trabalham ambos num mundo invisível, em que têm valor experimental positivo e objetivo, fatos de natureza imponderável, subjetivos, os fenômenos da consciência. Esta parece feita não somente para registrar os dados da experiência sensória, mas, ainda, os resultados de outras impressões espirituais de caráter todo diverso. Trata-se de uma ordem de experiências das quais a ciência não conhece absolutamente nada, mas com que acaba tendo de se avizinhar, logo que ela progrida para as grandes profundidades do conhecimento. Então, cientista e místico entram no mesmo mundo do transcendental em que todas as formas superiores de cons- ciência se aproximam para se fundirem; ciência e fé não nos aparecem senão como dois diversos modos de ver a mesma verdade, senão duas vias para chegar à mesma realidade última. A separação e a luta entre ciência e fé não são senão questões de involução. Evoluindo, segue-se para o universal, para o abstrato, para a unidade. O pensamento imaterial que rege e constitui a matéria torna-se a mesma coisa que o pensamento imaterial que constitui o espírito. No alto tudo se acorda e harmoniza. Então tudo se unifica num mesmo plano onde trabalham juntos e concordes o cientista e o místico, o matemático, o musicista, o poeta, o santo, onde a ciência é arte, a matemática é filosofia, a pesquisa é prece, onde tudo se funde e é o mesmo impulso para o mesmo único centro, Deus.
A mente humana, percorrendo a circunferência do relativo, tenta alcançar o centro do absoluto que ela reencontra projetado em todo ponto daquela circunferência. As suas experiências analítico-objetivas são dispersas ao longo dessa circunferência. Mas progredindo com a evolução, a mente humana penetra nas circunstâncias sempre mais restritas e vizinhas do centro, sempre mais assim aproximando-se da unificação. Como a fase criação-involução representa uma projeção na forma, distante do centro, assim a evolução significa um reconstituir-se para o centro, em unidade, daquele universo, antes cindido no particular. Isto também pelo conhecimento que assim se torna sempre mais unitário. Dessa maneira, progressivamente se elimina o separatismo humano que divide o conhecimento em mil afirmações antagônicas em luta entre si. Assim, aos poucos caminha-se para a verdade única, que é luz, e que, dada a estrutura do universo, não somente é tanto mais verdadeira quanto é mais abstrata, mas também quanto mais é unitária. Essas são as características que devem ter as maiores verdades futuras, mais progressivas das atualmente concebidas pelo homem. Tanto mais se progride, quanto mais se tornam pesados e insuportáveis todo muro divisório, o separatismo de todos os enquadramentos humanos, a luta entre verdades que são diversas e rivais só por razões de involução.
Quando se alcançam os mais altos planos do conhecimento, todas as formas de investigação se dispõem em paralelo e todas as formas de experiência, da científica à mística, avizinhando-se da proximidade ao centro, se igualam e, concordando colaboram para o mesmo fim. Evidentemente, a substância do mundo em que vivemos representa algo que transcende tudo quanto pode ser medido com os instrumentos da física e até o que é descrito com os símbolos métricos do matemático. Se, portanto, o místico vê com modo próprio as realidades profundas e nos revela um aspecto delas, não podemos, "a priori", excluir essa forma de investigação, nem podemos dizer que ela não esteja mais perto da verdade do que as outras; de qualquer modo ela possui sempre um significado e tem alguma coisa a levar para a ciência. Não se pode excluir nada. Não se pode negar que também os nossos sentimentos e impulsos espirituais não possam atingir alguma revelação dessa realidade. Esses resultados em vez de serem repelidos como
desprezíveis, porque não são positivos, deveriam ser coordenados com os do físico e do matemático para obter uma compreensão sempre mais completa da realidade das coisas. Não se pode absolutamente dizer que só pelo fato de que, em vez de usar os meios sensórios do corpo, relativos e ilusórios, usamos os do espírito, por isto caímos no erro e no irracional. Pode dar-se que se trate só de um racional diverso, porque mais profundo, mais potente da corrente racional científica, e pode também o que resulta da observação e contemplação mística ser positivo e importante para o conhecimento
Sem dúvida a ciência chegou hoje à concepção de uma realidade do todo transcendental, que antes lhe escapava, e com isto veio a se debruçar sobre o campo das experiências do místico. Chegamos ao ponto em que isto pode fornecer algum aviso à ciência e em que esta pode receber uma contribuição de uma fonte tão inusitada. Nos capítulos precedentes, vimos como a concepção einsteiniana possa ser orientada e continuada no campo filosófico. Agora, aquela concepção pode continuar também em forma mística, numa visão universal. Neste volume, diante dos últimos problemas, ciência, matemática e misticismo aparecem fundidos numa única síntese, convergindo para ela harmonicamente. A intuição mística encontrou confirmação na mais recente físico-matemática e esta nos conduz àquela.
Mas diremos ainda mais. Pondo-nos diante da última realidade, poderemos perguntar se não seja o cientista que, em vez do místico, mais se mova entre as sombras do irreal. Se observarmos a fundo os dados experimentais, eles perdem muito da sua valia. O místico que alcança a sensação de Deus, alcança a prova completa e não procura outras. E quando se chega à sensação, como se repete em tantos casos e temperamentos diversos, se tem o mesmo direito de negá-la, que se pode ter pelas sensações da investigação física. Se as examinarmos a fundo, estas não nos dão nenhuma garantia absoluta. Se atrás de toda sensação há de existir uma realidade, por que umas devem ser falsas e as outras verdadeiras? É lógico que ambas sejam verdadeiras. E então eis que para o místico o Deus que tudo invade poderá ser a mesma lei onipresente e perfeita que para o físico tudo regula. Por ambas essas vias, tão distantes e opostas, se apresenta a mesma imanência de Deus, logo que a consciência se eleve mais para o centro do ser. O místico, porém, quando queremos nos avizinhar da mais profunda e verdadeira realidade, tem muito mais que dizer do que aquele escuro mundo de símbolos com o qual a matemática, já que a representação mecânica e antropomórfica diz bem pouco, procura hoje ver no mistério do universo físico-dinâmico. O cientista mesmo sabe que tudo isto não o põe em contato com a última realidade, sabe que as suas são puras interpretações e são bem outra coisa do que absolutas e definitivas. O místico pode, ao contrário, nos ensinar que, além dos sentidos dirigidos para a análise objetiva, o homem possui um senso interior dos valores e do caminho para os atingir; que, além daqueles puramente racionais do cientista, há meios intuitivos mais rápidos e sintéticos; que além daqueles sensórios imediatos, existem meios diretos aptos para as apreciações que se estendem até aos campos inacessíveis para o raciocínio. Por outro lado, no fundo da observação sensória, há a premissa axiomática, a apriorística e não demonstrada de que os nossos sentidos constituam um canal para o conhecimento, apto a revelar o significado real das coisas. Os primeiros momentos da ciência racional são indemonstráveis, super-racionais e intuitivos como os últimos. O matemático puro não tem uma opinião elevada dos métodos de dedução usados pela física e desaprova a fragilidade do que é aceito como prova pela própria ciência física. Isto autoriza a contribuição que pode dar a intuição do mundo invisível por parte do místico, ainda que, do ponto de vista da ciência, possa parecer inconsistente, porque imprecisa.
Concluindo, nenhum caminho deve ser desprezado para enfrentar o mistério: ele é tão profundo e complexo que todo auxílio nos é necessário; o mistério é tão vasto e múltiplo, que todos os caminhos podem conduzir à sua solução. Na própria ciência positiva que acredita ter base sólida, vemos que os resultados conseguidos por uma geração não valem mais para a seguinte. É tudo um fazer e sobrepujar contínuo, em todo campo. E então vem a ocasião de perguntar se essa contínua mudança do nosso conhecimento em todo campo não seja antes o efeito da evolução psíquica humana de que depende tudo o que pensamos e não seja senão o seu índice; se toda objetividade científica não esteja senão em função dos nossos meios sensórios e psíquicos; se o nosso conhecimento não dependa sobretudo da evolução daquele instrumento que é a nossa mente. É certo que, em principio, para uma inteligência nata e feita para os fins imediatos da vida, o ingresso nesses campos de investigações abstratas pode dar o sentido de uma aberração biológica, de uma atividade
anormal O intelectual que avança nesse terreno poderá parecer uma monstruosidade para a classe média, alguma coisa que vai além da vida para a qual primeiro interessa a nutrição e a reprodução, coisas que o homem normal bem conhece, do mesmo modo como elas estão também no fundo da vida do pensador. O primitivo, normal, para viver, não tem nenhuma necessidade de conhecer a estrutura do universo. E no entanto, um futuro da evolução não é sequer imaginável senão nessas atividades supernormais, hoje aberrações biológicas, amanhã criações de novos tipos de existência. O conhecimento é sobretudo resultado da evolução. O intelecto se desenvolve e floresce como toda coisa no todo. O que verdadeiramente tudo rege é a imanência de Deus, o que tudo guia é a Sua constante obra criadora. Vemo-nos pelo fato que antes, sem o sabermos, se construiu o olho. Com este e outros sentidos formados do mesmo modo debaixo do estimulo da luta que instrui e seleciona, o homem descobriu depois as leis ópticas, pelas quais, já há tempo, sem que ele as houvesse analisado e compreendido, o seu Olho já funcionava. Assim se ascende para o atual super- concebível, pouco a pouco, com a formação e o aperfeiçoamento do órgão psíquico, e somente este fato poderá permitir, com uma mente mais perfeita, penetrar a sua estrutura e aquele conhecimento que hoje não se alcança. Toda a nossa incompreensão dos últimos problemas é questão de imaturidade biológica.
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Termina por ora a nossa corrida no campo da ciência moderna. Temos comprovado e desenvolvido muitos conceitos sumariamente expostos no começo de A 'Grande Síntese. Reunimos ainda as conclusões filosóficas e místicas do capítulo "Deus e Universo" com as da mais moderna ciência físico-matemática. Assim a nossa concepção da estrutura espiritual do universo concorda com a atômico-dinâmica dos maiores físicos e matemáticos hodiernos. A ordem moral, em que se movem as forças espirituais, funciona em harmonia com a ordem dínâmica-física concebida segundo as últimas teorias da relatividade de Einstein, dos "quanta" de Planck, da física estatística e quantística, do "contínuo" quadridimensional e do espaço-curvo. Aqui vimos como essas teorias se podem desenvolver, no campo filosófico, nas teorias conexas, desenvolvidas na primeira parte de A Grande Síntese, pelas quais o mundo físico-dinâmico é conjugado com o mundo moral. Assim aparece o todo-uno que denominamos monismo.
Tudo isto converge para a demonstração que esse todo-uno é, realmente, um físio-dínamo- psiquismo, o conceito central destes escritos. Estes três modos de ser da mesma substância única são conexos por um transformismo que os muda um no outro, seja um respiro de ida, de involução ou centralização, seja em um inverso respiro de retorno, de evolução ou expansão, que é o atual. Trata-se de uma viagem através de progressivas dimensões, de uma viagem que, em nossa fase, é uma íntima auto-elaboração em que Deus está presente e ativo e pelo que tudo volta a Ele. Hoje o tudo se dirige para o puro pensamento.
A visão da ciência é mais circunscrita. O ponto de vista científico mais ortodoxo é que a entropia do universo aumente e deva aumentar até ao seu valor máximo final. Ela é rapidamente crescente. Mas a ciência pára na atual fase evolutiva que, justamente, enquanto se encaminha para o espírito e representa a reconstrução dessa forma do todo (Deus, pensamento), deve representar a morte da matéria, como a involução representa a morte do espírito Assim, isolada a entropia numa só direção, sem ver o transformismo oposto, não se pode compreender esse transformismo. Foi na precedente inversa fase involutiva que foi concentrada aquela potência que agora se manifesta e que vai gastando-se, nivelando-se como entropia. Ela não é senão um desenvolvimento que, se anula a forma-matéria, cria a forma-espírito, que é o retorno a Deus na ascensão evolutiva atual.
Esse retorno atual explica a técnica da criação, que foi um inverso transformismo equilibrante, psíquico, dinâmico, físico, criação do universo sensível, da forma, por um ato do pensamento puro. Este, a ciência hoje o verifica, ficou em toda parte como emaranhado, revelando-se presente na estrutura íntima da matéria, tanto é verdade que a reduzimos a uma fórmula matemática, uma vez que esta é a representação que mais está perto daquela realidade, que é abstrata. James Jeans, como homem de ciência, diz que o ato da criação é uma materialização do espírito Mas também vários outros cientistas hoje reconhecem que o nosso universo dinâmico-físico pode ser uma formação involutivamente descida na 4.ª dimensão ou "contínuo"
espaço-tempo, da 5.ªdimensão que é a consciência. E o que quer dizer isto, senão o físio -dínamo-psiquismo evolutivo atual, na sua inversa fase criadora? Esta consistiria, justamente, numa emanação do pensamento de Deus, de que, também pela ciência, derivaria toda a formação do nosso universo.
O esquema desse universal transformismo cíclico, em toda parte se reproduz debaixo de nossas vistas, nos casos menores que nos são acessíveis. Em um universo conexo, har mônico e analógico em toda parte, isto é uma prova. Tudo é cíclico no universo, tudo renasce das radiações em que tudo se dissolve. Diz o mesmo James Jeans: "As estrelas atuais se volatilizam em radiações que de novo tomarão consistência, tornando-se matéria". "Assim o nosso universo se pode representar como cíclico, isto é, enquanto numa região ele morre, em outra os produtos de sua morte são capazes de produzir novas vidas".
Eis traçado aqui, no âmbito físico-dinâmico, o inverso respiro criador-evolutivo do universo. A ciência já viu esse traço do dúplice transformismo. Teremos, pois, a formação, primeiro, dos núcleos de matéria no espaço, dinamizados pelo pensamento criador, e depois irradiação dinâmica desses nú cleos altamente dinamizados até o seu esgotamento (entropia), mas em conseqüência, formação de planetas e sobre eles de vida, incumbida da transformação da energia em consciência e pensamento. Assim se cumpre o ciclo de ida e de retorno do ser, de Deus para Deus. Tudo é cíclico e volta ao ponto de partida. Hoje a direção do tornar-se é evolução. Ou avançar ou morrer. A vida está a caminho do espírito.
Porque é cíclico, tudo é curvo no universo. O átomo é esférico como os sistemas planetários. Curvo é o espaço, dimensão do universo físico, que hoje, em fase evolutiva, está em expansão; curvo é o "contínuo" quadridimensional em que, com o espaço, se funde o tempo, dimensão da energia; curvo é o conceito criador-evolutivo, que assim cumpre o ciclo e torna ao ponto de partida. Curvatura universal, expressa pelo universal esquema do ciclo, curvatura de todas as dimensões do ser, em que finito e infinito se fundem. Curvatura expressa pela lei de causalidade, pelo que causa e efeito, efeito e causa, se ligam em cadeia num circuito que se completa, tornando às origens. Esse é o esquema do universo.
Eis a grande e simples idéia que tudo explica e contém. A explicação quanto mais simples, tanto mais é convincente. Nesta, que tudo enquadra e na qual tudo torna a entrar, tem-se maior probabilidade de reencontrar a mais fiel interpretação do verdadeiro. Ela é hoje a mais completa e exau riente. A conclusão deste nosso trajeto, levado a termo com a ciência que caminha para a descoberta de Deus, é que o universo não é uma realidade inconsciente e mecânica, onde reina o acaso, mas que ele é sempre mais como um grande pensamento que sabe melhor do que um grande maquinismo autômato, ignaro de si. Também no universo físico e dinâmico se revela a inteligência e a consciência. Elas regulam tudo através de uma lei perfeita que se distingue das leis humanas, enquanto não sofre exceções e nunca é violada. Ela determina o ser e lhe define as propriedades. No mundo físico, os símbolos matemáticos indicam essa irrevogabilidade absoluta. Na matéria e energia ela é uma regra íntima, tão inserida na essência das causas que está em sua natureza o segui-la, de modo que ela é espontânea, não forçada, é livre e nunca é desobedecida. Enquanto nas leis humanas é a realização que é difícil, aqui é a não realização, que é im possível. Acontece o que deve acontecer, conforme a lei. Entre os mundos involuídos da matéria e energia e os planos mais evoluídos do espírito, há a diferença que essa obediência se torna de inconsciente, consciente; mas a Lei sempre domina, e a vida, ainda através do erro e da dor, serve para ensinar a se tornar consciente, isto é, a segui-la livremente, como o próprio e máximo bem. Ela é o pensamento de Deus, de que tudo depende. O espírito, pois, é universal, porque hoje também para a ciência ele não parece mais um intruso nem mesmo no reino da matéria, mas fundido nela, emergindo evidente das suas profundidades. O espírito que denominamos Deus aparece hoje também para as grandes mentes diretivas da ciência, como o criador e o governador de todo o universo. Tudo isto prova que, hoje, verdadeiramente caminhamos para a nova civilização do espírito.