4. RESULTAT
4.3 H YPOTESETESTING
Apesar de alguns respondentes apresentarem uma postura não-preconceituosa em relação à homossexualidade foram observados elementos de representações heteronormativas e preconceituosas nas respostas a todos os itens do questionário. A homofobia implícita ou velada foi citada pelos licenciandos como frequente e preocupante, apresentando-se ainda, através de suas crenças e concepções explicitadas nas respostas. Além disso, observamos que muitos licenciandos consideram esta temática importante em sua formação, indicando que a ausência de discussões acerca da diversidade sexual e do preconceito leva à falta de preparo e insegurança quanto à prática docente.
Concepções preconceituosas em professores serão apresentadas aos alunos, mesmo que de forma não intencional, promovendo nestes a internalização e naturalização de preconceitos. (BORGES; MEYER, 2008; JOCA, 2011). Lembramos que os “dispositivos do preconceito, mesmo quando superados teoricamente na educação, persistem nas práticas pedagógicas que, pelo pacto do silêncio, negam a existência de hierarquizações sexuais” (TORRES, 2011, p. 28). Entendemos ainda, que não é exclusivamente o professor que promove esta (re) produção do preconceito; vários setores da sociedade participam na manutenção de representações acerca da sexualidade, conforme problematiza Torres (2011, p. 25-26):
As sexualidades têm sido tratadas com base em crenças morais, provenientes de discursos religiosos, científicos, educacionais, entre outros. Essas crenças só serão questionadas quando passarem por um debate fundamentado nos direitos de cidadania. O que deve ser definido ou não como direito sexual, assim como todos os direitos de cidadania, é decidido em disputas e lutas humanas durante a história da sociedade. Esses direitos devem informar educandos/as e educadores/as e servir de orientação para uma educação que os prepare para os direitos de cidadania relacionados à diversidade sexual.
A escola e os professores precisam, portanto, estar comprometidos a promover reflexões e discussões que visem o rompimento e o desvelamento da heteronormatividade e do preconceito, para que os alunos apropriem-se de valores de igualdade e respeito. Afinal, a homofobia é orientada pelo heterossexismo, que está presente nas configurações sociais do ambiente educativo, levando à exclusão da população LGBT e dos seus direitos de cidadania, constituindo um problema grave a ser enfrentado na educação e na democratização da sociedade brasileira (TORRES, 2011).
E este compromisso não deve ser considerado um tema extraclasse ou que foge ao conteúdo, afinal, acreditamos que a promoção dos direitos humanos é um dever do professor.
Entendemos que os temas da sexualidade reduzidos a aulas específicas, orientados de modo a negar a diversidade sexual, contribuem para a negação dos direitos de cidadania e direitos humanos LGBT (BRASIL, 2009a). Conforme aponta Torres (2011) o preconceito atinge toda a comunidade escolar e enquanto ele não for reconhecido como um sistema que regula todas as relações dentro do ambiente escolar, ficaremos procurando a homofobia nos indivíduos.
Seguindo este pensamento, podemos dizer que o preconceito apresenta-se como uma representação social naturalizada no ambiente escolar, não sendo discutida, nem problematizada pelos os agentes da educação.
[os processos de aprendizagem] desenvolvem-se através de interações, de relações interpessoais nas quais valores emoções, sentimentos e formas de comunicação desempenham papel essencial. [...] . Nem sempre temos condições de refletir sobre os preconceitos com os quais atuamos. (GATTI, 1998, p. 11).
A partir destas considerações, é preciso atentar para representações preconceituosas em licenciandos em Ciências Biológicas, uma vez que:
[...] as discussões sobre sexualidade humana encontraram espaço quase que exclusivamente nas aulas de Ciências e Biologia e no trabalho isolado destes/as professores e professoras. A Educação Sexual não constitui uma disciplina especifica, de caráter curricular obrigatório e tornou-se insuficiente quando restrita a estas disciplinas. Fortemente associada ao corpo humano e aos aparelhos
reprodutores, esta educação sexual baseava-se e ainda se baseia, em grande parte, nos conteúdos disponíveis em livros didáticos de Ciências (REIDEL, 2011, p. 31).
É preciso ressaltar que a homofobia aparece, ainda, na ausência de representações da população LGBT nos materiais didáticos e nos currículos da educação (LIONÇO; DINIZ, 2009). Preocupa-nos, portanto, que a temática da sexualidade seja negligenciada nos cursos de licenciatura em Ciências Biológicas (BONFIM, 2009), pois é muito provável que estes professores tenham que tratar destes temas em suas aulas.
O curso de Licenciatura em Ciências Biológicas pesquisado neste estudo, não conta, atualmente, com nenhuma disciplina específica que vise discutir e (re) construir concepções e representações acerca da sexualidade. Como afirma Bonfim (2009, p. 174, 175) “estamos todos na ‘pré-história’ da Educação Sexual e da concepção emancipatória de Sexualidade. Há muitas tarefas históricas e desafios institucionais a serem enfrentados e superados”.
É relevante destacar que o preconceito e a discriminação se relacionam diretamente com o desempenho dos alunos (REIDEL, 2011), pois, quanto maior o índice de preconceito menor o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) (BRASIL, 2009b apud REIDEL, 2011). Conforme indica BRASIL (2009c), alunos homossexuais caracterizam-se como as principais vitimas de práticas discriminatórias, juntamente com negros e pobres; o estudo aponta ainda que alunos, professores e pais de alunos são agentes desta discriminação.
Por acreditar que “através da educação conseguiremos atingir e conquistar direitos
humanos igualitários e respeito às singularidades, bem como a promoção da cidadania” (REIDEL,
2011, p. 34), identificamos cursos de formação inicial de professores como um espaço que deve priorizar a formação de profissionais conscientes e comprometidos com a promoção de valores de igualdade tomando como base os direitos humanos. Afinal, a educação não deve se reduzir à transmissão de conhecimentos formais, pois a escola é um espaço público para a promoção da cidadania (LIONÇO, DINIZ, 2009).
Faz-se necessária, portanto, uma reflexão nas instituições formadoras de professores para o ensino básico, que leve à reformulação dos cursos de licenciatura – principalmente em Ciências Biológicas –, visando incluir disciplinas e/ou conteúdos que abordem a temática da diversidade sexual e dos preconceitos. Assim, esperamos que os licenciandos possam refletir e (re) organizar suas representações acerca da homossexualidade e da homofobia durante a formação inicial, sendo capazes de atuar de maneira emancipatória e transformadora.
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