3. METODE
3.4 V ARIABLER OG SKALAER
3.4.3 Mediatorvariabler
Os sentimentos apontados pelos respondentes, como resposta à questão“Considerando, de um modo geral, os alunos do curso de Ciências Biológicas da UNESP Botucatu, cite o(s) sentimento(s) mais frequente(s) em relação à homossexualidade/homossexuais.” aparecem no quadro 1, seguidos pelo número de vezes que foram citados. As palavras citadas foram organizadas em quatro categorias: Preconceito explícito, Preconceito implícito, Indicativo de não preconceito e Outros. Não foram observadas diferenças relacionadas ao sexo ou à religião.
Fica notável que a categoria “Preconceito explícito” possui o maior número de citações, sendo que 33 alunos responderam com palavras colocadas nesta categoria, enquanto 15 responderam com sentimentos da categoria “Preconceito implícito” e 28 respostas continham sentimentos que indicam atitudes não preconceituosas (lembramos que o mesmo respondente pode ter citado palavras de categorias distintas). Se analisarmos o número de citações, temos um total de 104 divididas desta forma: 50% das citações na categoria “Preconceito explícito”, 4% na categoria “Preconceito implícito”, 35% na categoria “Indicativo de não preconceito” e 11% na categoria “Outro”.
Quadro 1 – Sentimentos mais freqüentes dos alunos do curso de Ciências Biológicas em relação à homossexualidade, segundo os respondentes. Os números entre parêntesis indicam quantas vezes cada
palavra foi citada.
Preconceito Explícito (52 citações)
Preconceito (18), nojo (4), asco (2), pena (2), raiva (2), repugnância (2), intolerância
(2), não aceitação (1), fobia (1), repulsa (1), desrespeito (1), distanciamento (1), indignação (1), reprova (1), espanto (1), ignorância (1), discriminação (1), medo (1).
Piada (3), brincadeiras (2), zuação (1), boatos (1), acham graça (1), rumores (1).
Preconceito Implícito (4 citações)
Tolerância (2), apatia (1), preconceito implícito (1).
Indicativo de não preconceito (36 citações)
Respeito (11), naturalidade (10), aceitação (5), compreensão (3), abertos ao tema
(2), nada contra (1), não aversão (1), convivem bem (1), não rejeição (1), amizade (1).
Outros
(12 citações) Indiferença (12)
A categoria “Preconceito explícito” foi dividida em dois segmentos: um com palavras que remetem a uma postura preconceituosa através do uso de piadas e brincadeiras; e outro, mais significante (tanto pelo número de palavras quanto pelas suas significações) com as palavras consideradas extremamente preconceituosas (raiva, nojo, asco, repugnância, repulsa). Os dois grupos foram colocados na mesma categoria, pois entende-se que ambos caracterizam a existência de um preconceito explícito.
Consideramos algo alarmante o fato de que 50% das respostas fazem menção a palavras/sentimentos de preconceito explícito, sendo que as palavras que mais apareceram nesta categoria são: preconceito, nojo, asco, pena, raiva, repugnância e intolerância; e a palavra mais citada dentre todas as respostas foi “preconceito”.
Estes dados podem ser analisados de duas formas, seguindo-se a crítica de Abric (2003) à técnica da substituição. Uma das análises possíveis é a de que estes sentimentos negativos em relação à homossexualidade fazem parte da zona muda das representações sociais, ou seja, os respondentes partilham destes sentimentos e isto aparece quando se pede que atribuam os sentimentos aos alunos de modo geral. Outra possível inferência é a de que esta é a impressão que os respondentes têm sobre os alunos do curso de Ciências Biológicas de um modo geral, caracterizando a grande maioria como preconceituosos. As duas possíveis análises também podem ser aplicadas às outras categorias. De qualquer maneira, fica perceptível que os alunos do curso de Ciências Biológicas foram caracterizados, majoritariamente, como preconceituosos pelos respondentes.
A categoria “Preconceito implícito” apresenta palavras que remetem a um preconceito velado. As palavras citadas nesta categoria foram: tolerância, apatia e preconceito implícito. A última indica que, segundo a interpretação de um respondente, os alunos possuem preconceitos que se apresentam de forma velada. Já as outras podem indicar preconceitos implícitos ou apenas certo distanciamento dos alunos frente à homossexualidade, não necessariamente ligado à homofobia, como parece ser o caso da palavra ‘apatia’. Sobre a palavra ‘tolerância’, lembramos a reflexão de Louro (2003, p. 48 apud SOUZA; DINIS, 2010): “[a tolerância] liga-se à condescendência, à permissão, à indulgência – atitudes que são exercidas, quase sempre, por aquele ou aquela que se percebe superior”.
A palavra ‘indiferença’ foi colocada em uma quarta categoria, pois acreditamos que ela não pode ser considerada um indicativo de preconceito, porém também não explicita uma postura de naturalidade frente à homossexualidade. Sabemos que desprezo, frieza e insensibilidade são interpretações possíveis quando se fala em indiferença, mas também a ausência de sentimentos específicos em relação à homossexualidade, o que pode indicar uma postura não preconceituosa dos alunos de Ciências Biológicas, segundo os respondentes.
Por sua vez, a categoria “Indicativo de não preconceito” caracteriza-se por respostas que indicam a ausência de concepções preconceituosas, como: respeito, naturalidade, aceitação. Indicando que 35% dos respondentes acreditam que, de modo geral, os alunos do curso de Ciências Biológicas não possuem uma postura preconceituosa frente à homossexuais/homossexualidade. É possível, também, que os alunos tenham indicado a ausência de preconceito, pois respondiam por um grupo ao qual pertencem, sendo assim, caso indicassem a existência do preconceito, estariam afirmando ser preconceituosos também.
As respostas dadas ao item que perguntava se o respondente considera sua turma preconceituosa em relação à homossexualidade/homossexuais são apresentadas na Tabela 3. Nenhuma diferença foi observada em relação ao sexo ou religião.
Tabela 3 – Número de respostas ‘sim e ‘não’ obtidas no item “Você considera sua turma preconceituosa?”, separadas por turma.
Ano de graduação Sim Não Não
Responderam
3° 3 15 1
4° 5 24 --
5° 3 15 2
Total 11 55 3
As respostas a este item foram bastante controversas, pois apesar da grande maioria dos respondentes (80%) declarar não considerar sua turma preconceituosa, muitos foram os comentários a respeito de preconceitos implícitos ou velados, vindos de respondentes das três turmas.
“Não presencialmente ou descaradamente. ‘Pelas costas’ se portam como sendo [preconceituosos] ao rir ou comentar. Acho que são mais os homens que o são na classe, até por conta da sociedade machista e sexista na qual estamos inseridos.” (H, 3° ano)
“Parcialmente! São comuns comentários machistas e preconceituosos, porém na presença de homossexuais não mostram a mesma reação. Acredito que o ‘preconceito mascarado’ é muito comum em minha turma, ou em parte dela.” (H, 4° ano)
“Acredito que ninguém tenha um preconceito assumido, mas possivelmente um ou outro sinta um desconforto que não deixe transparecer aos demais quando se trata deste assunto.” (M, 4° ano)
“Não, pelo menos não explicitamente.” (M, 3° ano)
“Não posso falar pelas outras pessoas, falo por mim, sabemos muito bem que o preconceito pode estar oculto nas pessoas, e este é o pior tipo.” (M, 3° ano)
Por que então responderam “não”? Este fato talvez possa ser explicado devido à maior proximidade dos respondentes em relação ao grupo pelo qual respondiam (suas turmas). Ao serem perguntados sobre os alunos do curso de Ciências Biológicas de modo geral, 50% das respostas apresentam palavras que remetem à homofobia explícita (agrupadas na categoria “Preconceito explícito”). Este quadro muda quando analisamos a pergunta referente às turmas, um grupo muito mais próximo aos respondentes, o que pode ter levado a maioria (80%) deles a responderem que não consideram sua turma preconceituosa com relação à homossexualidade; mas as muitas respostas apresentam concepções contraditórias com o ‘não’ indicado. (Tabela 4)
Tabela 4 – Comparação das interpretações das respostas referentes aos alunos do curso de Ciências Biológicas, e às turmas.
Interpretação das respostas Alunos de modo
geral Turmas
Indicativo de preconceito 50% 16%
Indicativo de naturalidade 34% 80%
Alguns respondentes, apesar de declararem que a turma não é preconceituosa, ressaltaram a presença de piadas e brincadeiras como forma de preconceito, sendo que este tipo de comentário foi mais observado nos respondentes do 4° ano (formandos de 2012):
“Não, como já disse, sempre há certa ‘zuação’, mas acho que não é de maldade.” (M, 3° ano)
“De modo geral não, mas o preconceito fica explícito por meio de piadas e risadas, valores arcaicos e enraizados na sociedade, mesmo que inconsciente.” (M, 4° ano)
“Não, quando se discute a maioria não apresenta preconceito, mas quando alguém faz uma piada supostamente preconceituosa, a maioria da sala acha graça.” (M, 4° ano)
É preciso ressaltar que a homofobia “aparece, muitas vezes como brincadeira e tiração de sarro, mas é, na verdade, uma prática de humilhação e discriminação” (RIZZATO, 2010, p. 5).
A problemática da ausência da temática da diversidade sexual nos espaços de discussão e convivência da turma também apareceu nas respostas, mostrando que, conforme as idéias discutidas por Bonfim (2009), os cursos de graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas, de modo geral, não se preocupam em incluir este tipo de discussão na formação dos futuros professores.
“Não, mas o assunto não é muito abordado.” (H, 4° ano)
“Considero que ignorar o assunto é uma maneira/forma de preconceito.” (M, 4° ano)
Outro dado contraditório foi a presença de duas respostas, vindas de alunos do 4° ano (formandos 2012) afirmando terem presenciado discussões sobre a homofobia dentro de sala de aula; porém, esta foi a turma em que comentários referentes a brincadeiras como forma de preconceito mais foram citados.
“Não, pelas discussões que já tivemos em sala sobre o assunto, a sala mostrou que aceita bem.” (M, 4° ano)
É possível pensar, portanto, que para alguns licenciandos as brincadeiras e piadas não se configuram como forma de preconceito e seriam ‘aceitáveis’, uma vez que nas discussões a sala não se mostra preconceituosa.
As respostas dos formandos 2011 (5° ano) indicam que a presença de homossexuais na sala de aula se caracteriza como um fator importante para a ‘quebra’ de preconceitos, talvez, indicando acreditarem que a convivência com homossexuais seria um fator que leva à aceitação do outro. Mas estes dados vão de encontro com os 14% desta turma (5° ano) que disseram considerar sua turma preconceituosa.
“Não, a convivência com colegas homossexuais proporciona uma quebra de preconceitos com a sexualidade.” (H, 5° ano)
“Não, minha sala possui homossexuais e ninguém desrespeita.” (H, 5° ano)
15% dos respondentes de todas as turmas consideram sua turma, de modo geral, preconceituosa.
“Sim. Já ouvi muita gente dizendo que não sabe lidar com homossexuais. Como assim? Não sabe lidar com o que? Com um ser humano? É revoltante...” (M, 4° ano)
“Sim! Porque ouvi comentários maldosos de várias pessoas em relação a homossexuais.” (M, 4° ano)
Parece pertinente afirmar que a sensibilização e reflexão sobre questões acerca do preconceito, gênero e diversidade sexual se fazem necessárias aos licenciandos em Ciências Biológicas, pressupondo-se que:
[...] a partir do momento em que é sensibilizado/a na temática e entra em contato com a idéia de gênero e sexualidade como construções sociais, o/a professor/a percebe o processo de exclusão que se vai formando para aqueles/as que desviam dos roteiros de comportamento preestabelecidos para o feminino e o masculino. E, a partir dessa percepção, envolve-se na discussão passando a pensar as questões de gênero e sexualidade por um outro ângulo.(RIZZATO, 2010, p. 7)