O primeiro dia de aulas ao 8º A foi um pouco conturbado. Existiram alguns imprevistos nos primeiros vinte minutos da aula, o que se deveu sobretudo à dificuldade de passagem nos corredores da escola, à gestão dos recursos e ao espaço da sala de aula (figuras 16 e 17).
Figuras 16 e 17– A sala de aula onde lecionámos à turma 8º A.
A falta de espaço na sala de aula faz com que não haja lugar para colocar o projetor, a não ser na mesa dos alunos, e o computador teve de ficar na minha mesa de professora. O facto de daqueles terem de aproximar as suas mesas umas das outras na primeira fila, dificultou a nossa circulação na sala. Constatar estas dificuldades no primeiro dia foi importante, pois permite-nos pensar em soluções para os próximos dias.
A aula foi iniciada com a nossa apresentação, a confirmação das presenças e informámos os alunos sobre os temas que iriam ser abordados nas nossas aulas. Para introduzir o tema da Distribuição da População Mundial, interrogámos a turma sobre as questões que deveriam ser esclarecidas no estudo do tema. Ficámos surpresos com a quantidade de alunos (cerca de sete) que se voluntariaram para responder. Porém, existiu alguma dificuldade na formulação das questões. Os “palpites” dos alunos
90 estavam longe do pretendido. As suas observações estavam relacionadas com o tema anterior - Evolução da População Mundial.
Lançámos a primeira questão - Como se distribui a população mundial? -, uma pista de orientação dos alunos para as próximas questões. O Telmo referiu que gostava de saber o número de pessoas por continente. Uma aluna acrescentou que podemos questionar onde há mais população ou menos população. Salientaram dois aspetos importantes, a localização e a quantidade de população. Estas intervenções dirigiram- nos para a próxima questão: Onde se localizam as áreas com mais população e com menos população?
Enunciámos depois a seguinte questão: Quais os fatores que explicam a distribuição da população mundial? Não pretendíamos que os alunos apresentassem as questões exatamente como planeámos. Apenas tínhamos a intenção de os colocar a pensar sobre o novo tema e suscitar a curiosidade para as respostas às questões.
Na execução das tarefas, os alunos demoravam muito tempo, não por dificuldade em acompanhar o ritmo da aula, mas por estarem sempre na conversa. Enquanto circulávamos pela sala, íamos alertando os discentes distraídos, mas sem efeito, por não sabermos o nome de maior parte dos alunos. Por isso, utilizámos também a
comunicação não-verbal. A certa altura, alguns alunos até chamavam a atenção uns dos
outros, dizendo: “Olha a professora, cala-te!”. Apesar do burburinho frequente, consideramos que, na generalidade, o clima de sala de aula é agradável e na realização das tarefas os alunos são solidários uns com os outros, partilhando saberes e dificuldades.
A atividade de preenchimento do mapa revelou algumas surpresas. A sua correção teve a colaboração dos três alunos do estudo de caso, o Mário, o Renato e o Tomás15, que foram chamados para apresentar os seus mapas em frente à turma. Nas
grandes concentrações populacionais, os três alunos indicaram sobretudo os países e
regiões que eles consideravam como os mais populosos do mundo. Relembramos que pretendíamos a indicação de grandes regiões mundiais e não países, estando informação explícita na folha do exercício. O Mário referiu a América do Norte, a China e a Índia. O Telmo e o Renato referiram vários países, entre os quais também a China e a Índia.
Projetámos o mapa-mundo que destacava as grandes concentrações
populacionais (figura 18), para que os alunos confrontassem com os seus mapas.
15Como o Rodolfo estava a faltar, tivemos que substituí-lo pelo Tomás, outro dos alunos considerado
91 Mesmo ao observarem a localização dos focos populacionais no mapa, os alunos manifestaram dificuldades na identificação do nome das regiões, o que revela insuficiências no conhecimento dos pontos cardeais e colaterais. Por exemplo, quando apontámos para a Ásia Meridional, os alunos proferiram Ásia Oriental.
Figura 18 – Slide de exploração das grandes concentrações populacionais e dos grandes vazios humanos.
Em relação à localização dos desertos quentes, o Mário foi o mais preciso, apesar de apenas ter indicado o Norte de África. O Renato fez referência a África e o Telmo à América. Nas áreas de alta montanha, o Renato mencionou o Canadá, o José o noroeste dos EUA e o Telmo o norte da América e a Europa central. Apercebemo-nos que estavam a tentar localizar as Montanhas Rochosas, mas não conseguiram proferir a sua designação.
O Mário também localizou a cordilheira dos Himalaias na Ásia meridional. Na localização das regiões polares apenas o Renato e o Telmo mencionaram o norte do Canadá, e nas florestas húmidas equatoriais os três alunos referiram-se a América do Sul.
92 Nesta atividade, destacou-se o Mário com a melhor prestação. Apesar de ser um aluno de desempenho mais fraco16, foi aquele que esteve mais próximo do mapa correto. Sempre que o José acertava nas respostas, a turma aplaudia entusiasticamente. Pareciam surpreendidos com a participação do José, este sorria e demonstrava bastante agrado pelo reforço positivo.
O rendimento do Telmo e do Renato foi razoável. Revelaram ter uma boa noção da localização das grandes concentrações populacionais e dos elementos físicos, todavia manifestaram insuficiências no conhecimento dos pontos cardeais e colaterais, bem como na designação dos elementos físicos. À medida que os três alunos localizavam os elementos físicos, fomos pedindo à turma que mencionasse a designação dos mesmos. Demonstraram apenas conhecer o deserto do Saara e a floresta da amazónia.
A segunda parte da aula foi dedicada à discussão de conceitos. O facto de alguns alunos serem muito participativos e interessados permitiu aproveitar as suas respostas para a construção das definições, tornando a atividade muito mais enriquecedora. O David foi um desses alunos. Pedimos-lhe para definir população total/absoluta, e o aluno apresentou a seguinte definição: “número de pessoas que existe num determinado espaço e tempo”. Pareceu-nos que o conceito de densidade populacional ficou um pouco confuso para os alunos, apesar de lhes termos mostrado a fórmula de cálculo.
O aluno mais participativo foi, claramente, o Vítor. Apesar do manifesto interesse, nota-se alguma impulsividade nas respostas. Mal fazíamos uma questão, o aluno respondia imediatamente em seguida, fazendo afirmações um pouco sem sentido, sobretudo no início da aula. A partir de certa altura, começou a ponderar mais sobre o que responder, por isso as suas observações foram melhor conseguidas. Por vezes, outros alunos tinham a mesma atitude do Vítor, mas com menos frequência.
Por também existirem vários alunos (sobretudo raparigas) que não tomavam iniciativa em participar, tivemos de particularizar as intervenções.
Não houve a possibilidade de se implementar algumas atividades planificadas, incluindo o sumário, por falta de tempo, por isso deixámo-las para a próxima aula e prosseguimos para a explicação do trabalho de casa. Fornecemos algumas indicações básicas de como retirar os valores de densidade populacional do site do Instituto Nacional de Estatística (INE). O objetivo era retirar esses valores para duas cidades de
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Note-se que não pretendemos rotular os alunos como melhores ou piores. Os termos utilizados não têm um sentido pejorativo, apenas servem para distinguirmos os alunos, de modo a compreendermos como ocorre a sua aprendizagem.
93 Portugal continental, uma do litoral e outra do interior do continente. Ficámos na dúvida se os alunos tinham percebido o trabalho de casa, porque no final da aula eles estavam mais interessados em sair do que prestar atenção, o que é normal acontecer.
Apesar de algumas dificuldades sentidas na gestão dos recursos, do espaço, dos comportamentos e da voz, consideramos que, do ponto de vista da exploração das ideias prévias e das tarefas formativas foi bem conseguido. Alguns alunos foram uma surpresa e outros revelaram mais dificuldades que, obviamente serão tidas em consideração.
Na reunião depois da aula, a Dra. Iracema assumiu que o facto de não se ter implementado todas as atividades planeadas, não é algo necessariamente negativo. Segundo a mesma, o tempo foi bem aproveitado, exceto no final, na explicação do TPC. A professora cooperante não achou que os alunos estivessem agitados. Na sua opinião, as conversas que surgiam entre eles são naturais e próprias do ambiente saudável de uma turma. É difícil mantê-los quietos e calados, mas quando foi preciso conseguimos assumir a autoridade na sala de aula. Contudo, a professora acrescentou que tenho de diversificar mais a entoação da voz e gerir melhor os recursos.
A docente destacou que foi muito positivo terem sido clarificadas as questões- chave do estudo do tema, que correspondem igualmente às grandes questões da Geografia: Onde? Como? Porquê? Salientou também a importância de se ter aproveitado constantemente as ideias dos alunos, para construir os conceitos no quadro, com o registo no caderno diário.