Ao longo do ano a estagiária acabou por fazer uma caminhada muito pessoal, durante a qual se deparou com muitos desafios, quase diariamente. Estes constituíram uma parte importante da experiência de estágio e permitiram o crescimento enquanto profissional. Frequentemente apareceram situações novas, com as quais a estagiária nunca tinha lidado e que por vezes foram obstáculos.
Em primeiro lugar, há que referir o contacto próximo com a psicodinâmica utilizada frequentemente na CE para abordar os casos. Não que este aspeto fosse uma dificuldade ou limitação, mas representou um abandono da zona de conforto da estagiária e obrigou- a a investigar mais aprofundadamente sobre alguns conceitos complexos. Ainda assim, sem prejuízo dos aportes teóricos essenciais que esta corrente trouxe à sua prática, a aluna crê que é fundamental conhecer diversas teorias e utilizar conceitos de todas elas, conforme se adeque a cada caso. Tal como se justificou a utilização de diferentes métodos de relaxação na intervenção com o grupo, considera-se muito redutor olhar para um caso sob uma só perspetiva teórica. Mais ainda, julga-se preponderante manter-se atualizado nos progressos científicos que vão sendo feitos.
Relativamente à prática propriamente dita, alguns comportamentos em sessão, certas opiniões e desabafos dos pais ou até determinados comentários dos professores das crianças e de outros profissionais da CE criaram algumas vezes situações imprevistas com as quais a estagiária não estava habituada nem convenientemente preparada para lidar. Outras situações inesperadas aconteceram com os próprios casos, tal como foi ilustrado pelos 2 expostos. Para começar, foi um desafio definir objetivos realistas, significativos e
passíveis de serem verificados. Depois, ao longo do ano, foi interessante perceber que, na prática, os sintomas são muitas vezes difusos e por isso os diagnósticos nem sempre são inequívocos. Para além disso, percebeu-se também que os planos terapêuticos são isso mesmo, planos. Estes não devem ser modificados frequentemente, apesar de os profissionais nunca deixarem de se questionar e repensar os casos. Por vezes, os casos não evoluem como previsto, os ritmos para a aquisição de objetivos não são os esperados, as avaliações iniciais não revelam a profundidade do caso ou simplesmente questões e dificuldades inesperadas vão surgindo com o passar das sessões. No caso 1, por exemplo, a evolução foi mais favorável do que esperado inicialmente e foi possível começar as sessões de grupo no mesmo ano letivo. Por outro lado, no caso 2 ocorrerem alguns imprevistos com as avaliações e com a própria evolução da terapia, e foi também necessário adaptar o plano inicial, mas neste caso selecionando apenas alguns objetivos e priorizando-os. Assim, é necessário adequar-se às situações e por vezes é mesmo essencial ter a flexibilidade para mudar de rumo.
Houve, no entanto, situações que, pela sua complexidade ou pelas características da estagiária, se edificaram como dificuldades mais sérias. As principais foram questões relacionadas com a ética, a morte, os contextos e dinâmicas familiares, o desconhecimento acerca da psicomotricidade por parte dos pais e professores, e o volume de casos atendidos.
Relativamente à ética, por vezes não foi fácil encontrar alguns limites. O que dizer ou não aos pais? O que permitir ou não às crianças? Estas foram questões com as quais a estagiária se foi deparando ao longo do ano. Tentou sempre respeitar-se a confidencialidade terapeuta-cliente, apesar de nem sempre ser fácil pois os pais insistem em saber o que os meninos fazem e o que dizem nas sessões.
A morte foi também um assunto um pouco recorrente este ano, com um menino a perder a mãe e dois meninos a perderem avós dos quais eram extremamente próximos. Estas acabaram por ser situações muito complicadas para os pais e avós, que pediram ajuda e conselhos aos técnicos de psicomotricidade. Do ponto de vista emocional, foi bastante duro e a estagiária questionou-se algumas vezes sobre como poderia ajudar crianças que estavam a passar por uma situação tão difícil se ela própria nunca tinha passado por isso. Apesar deste “choque de realidade”, foram situações que acabaram por ser ultrapassadas de uma forma relativamente rápida e positiva, com alguma ajuda dos técnicos e muita capacidade de resiliência das crianças.
Os contextos e as dinâmicas familiares foram igualmente um desafio, por vezes pelas personalidades dos pais, pelas brigas na família ou mesmo pela violência doméstica, outras vezes pelas histórias de vida penosas ou pelos contextos socioeconómicos difíceis. Foi árduo perceber que, na realidade, nem todas as crianças nascem iguais em direitos. E foi difícil lidar com certas situações e perceber a linha entre a nossa função enquanto profissionais e a vontade de nos envolvermos em termos mais pessoais adotando medidas mais drásticas para proteger os menores.
A estagiária deparou-se ainda com o desafio tão comum na nossa profissão: o desconhecimento, e consequente descrédito, da nossa prática, principalmente por parte dos pais e professores. Felizmente esta situação não foi tão recorrente como inicialmente esperava, contudo foi ainda difícil lidar com algumas questões e comentários. Estes fizeram com que tivesse de esclarecer várias vezes a definição de psicomotricidade e de justificar a utilização desta terapia em detrimento de outras, como a psicoterapia por exemplo. Houve também situações em que a família desistiu da terapia por falta de capacidades económicas para as deslocações ou por não acreditar na sua eficácia, o que também entristece toda a equipa de psicomotricidade.
Este desconhecimento da área, aliado a contextos e dinâmicas familiares difíceis, levou ainda a níveis de assiduidade muito baixos em alguns casos e a dificuldades em fazer avaliações completas às crianças (como ilustrado pelo estudo de caso 2), o que também dificultou bastante o trabalho da estagiária.
Por último, aponta-se o volume de casos acompanhados como uma limitação. É certo que do ponto de vista da estagiária o horário permitia algum tempo livre, o que foi um ponto positivo já que possibilitava organizar assuntos mais burocráticos. No entanto, tendo em conta o número de casos encaminhados para a equipa de psicomotricidade, considera-se que seria mais proveitoso aumentar o número de horas de intervenção. Isto porque, para atender a todos os pedidos de encaminhamento, alguns grupos eram por vezes maiores do que o ideal e as sessões eram reduzidas a 30 minutos, o que acaba por comprometer os progressos das crianças.
Apesar de tudo, considera-se que as dificuldades e limitações não foram muitas e sobretudo não condicionaram negativamente a experiência da estagiária, pelo contrário foram as necessárias para proporcionar o crescimento esperado com esta experiência. Pensa-se que isto se deve à história da psicomotricidade na CE e também ao apoio moral constante dos orientadores de estágio, colegas e de toda a equipa de profissionais da clínica.
Posto isto, fala-se de seguida acerca das atividades complementares de formação como parte integrante da prática profissional da estagiária.