E.F.A.: solteira, mora com seu companheiro, tem 27 anos. Nasceu em Natal moradora da Zona Norte - Favela da África. Tem um filho, é analfabeta e no momento da entrevista, estava desempregada.
Origem familiar
A vida de E. sempre foi de muita pobreza: toda a sua família é pobre e ela vive sem nenhuma assistência. É a mais velha de um família com nove filhos. Não
lembra quase nada da infância: “só muito trabalho e muita fome ... e pobre tem o que contar? Pobre é pior do que cachorro, tem bicho que vive melhor que nós”. Quando foi entrevistada ela morava havia três anos com uma pessoa e tinha um filho com dois anos. Atualmente estava sem trabalhar, mas já havia trabalhado de empregada doméstica. Depois do filho, ficara mais difícil conseguir emprego. Da casa dos seus pais, não tinha boas lembranças: só dificuldades, falta de emprego; o que conseguiam era de biscate. Nenhum dos irmãos freqüentou a escola. E., durante algum um tempo, pensou em estudar, mas depois desistiu. Ela fala dos pais com ressentimento:
Meu pai nunca foi de ligar muito pra família e mãe não tinha muita saúde. A gente tinha que se virar mesmo. Se aparecesse uma pessoa boa, a gente comia. Na maior parte das vezes, ficava com fome mesmo.
No discurso de E., o conteúdo central é a pobreza, a falta de assistência, a falta de perspectiva. É muito freqüente, nos depoimentos dos moradores periféricos, aparecer a derrota do indivíduo diante da pobreza. São pessoas que não encontram forças para lutar contra aquilo que lhes parece estar destinado - e se posicionam a partir do lugar de abandonados, de esquecidos, cujo destino está dependendo de um Outro que até agora não olhou por eles, mas que é esperado. Essa seria, portanto, a posição subjetiva de E. , frente ao Outro.
Projeto de vida
Há uma ausência de projeto para o futuro: os anseios são por pequenos acertos da ordem do dia-a-dia, e numa perspectiva individual, não articulada ao coletivo. Desse modo, o projeto ordenador de E. é pautado no pragmatismo. Sua vida se ordena na conquista da subsistência. O voto flutua ao sabor daquilo que vai sendo codificado como saídas para esses problemas:
O que eu mais queria era uma creche pra botar meu filho, médico no posto, energia, que aqui não tem, só de gato, água encanada [...]. O que o político precisa fazer é olhar a situação da gente [...]. Se eles, que têm condições de fazer, não faz, imagine nós [...]. As outras coisas quem tem de mudar são só eles mesmos; a gente tem de cuidar é pra não morrer de fome.
A relação de E. com a comunidade é quase inexistente: não existe uma concepção de organização, um movimento que possa impulsionar por melhores condições de vida:
Ninguém daqui nem bem se conhece, tanto faz ter vizinho como não ter. Às vezes era melhor que não tivesse [...]. Porque tem uns que só querem bagunça, é só beber e perturbar os outros [...]. Meu marido sai pra pastorar carro e eu fico com o menino. Às vezes tem o que comer, às vezes eu fico esperando meu marido chegar com alguma coisa. O dia é só disso mesmo.
Fica perceptível, na fala de E., a inexistência da idéia de coletividade, da noção do que possa ser a esfera pública: se ela existe é para um outro, ela mesma não se inclui aí, isso não lhe diz respeito. A sua vida, para mudar, depende estritamente de um outro que a ampare. É como se o Outro constituinte desse sujeito fosse muito precário, efêmero, e isso desencadeasse um tipo de desligamento daquilo que representa a alteridade, o externo.
Relação com a política
A política é importante quando eles prometem e cumprem, mas prometer e não cumprir eu não acho importante não [...]. Eles têm que fazer o que é certo: se é pra fazer isso, então vamos fazer. O povo não sai de casa, deixa tudo que tá fazendo e vai votar? Depois eles esquecem da pessoa, esquece daqueles que deram o voto de confiança. [...] Os políticos são assim: prometem que vai fazer e a gente não vê nada, só promessa [...]. No dia da eleição sempre voto, mas o político tem que fazer o que é certo [...]. Eles vêm aqui querer ganhar a gente com um sacolão, isso e aquilo; eu recebo porque sou pobre e preciso e posso até votar nesses, porque pior é os que nem olha pra gente, os que nem chegam aqui, que aqui é um canto que ninguém nem sabe que existe.
A relação que E. mantém com a política nos faz supor que o ato de votar é uma questão de estar a serviço de um outro que poderá olhar por ela. É como se fosse um favor, um esforço que ela faz para ver se esse outro realiza algo que ela tanto espera. Ela tem a noção de que votar num candidato por causa de um sacolão não é a melhor das opções, mas alguém em quem ela pudesse acreditar não chega até o seu lugar, um lugar que, se ninguém sabe que existe, não pode permitir a efetividade de alguma ação, a realização daquilo que ela precisa. Mais justo, portanto, que ela vote em quem está mais perto, aquele que minimamente lhe dá
algum acolhimento. É difícil a lógica do voto, dentro de tal contexto, poder ser engendrada de outra forma.
Escolhas eleitorais
Eu acho que voto errado, porque, quando a gente dá um voto a um deles, a gente tem de conhecer eles melhor, entender dessas coisas que a gente não entende. Eu não procuro saber quem é, eu acho que meu voto é tipo assim de esporte [...] Eu voto em quem toca meu coração mesmo: eu boto na minha cabeça de ir votar naquele candidato e vou embora, se ele faça, se ele não faça; ninguém faz mesmo! [...]. Teve um candidato que eu gostei muito dele, mas ele não ganhou, foi aquele que disputou com Vilma (Fernando Freire). Eu gostei dele porque era o leite; depois o pão acabou, só tem leite. [...] Quando eu vou votar é porque eu vejo eles assim prometendo que vai fazer uma creche, fazer os postos de saúde. Teve um candidato desses que disse que quando se elegesse ia construir uma creche pra botar os filhos das mulheres daqui. Cadê? até hoje e nada. Mas eu voto assim pra vê se eles vão fazer. nós damos o voto de confiança. [...] Eu gostei de Vilma do tempo em que ela foi prefeita: ela calçou a rua, eu acho ela muito boa [...]. Eu votei no Lula porque eu disse assim: “Não tenho mais em quem votar eu vou votar no Lula”. Ele dizia: “Vou fazer isso, vou fazer aquilo”, que ia ajudar aos mais pobres. Todo mundo só dizia isso. Aí eu disse:” Homem que ele faça, que ele não faça, eu vou votar é nele”. [...] Agora, se ele faz é pro lado de lá, aqui não; aqui em Natal, eu não vejo nada que ele faz. Pra falar a verdade, nenhum presta, tudo só faz prometer [...]. Só Vilma Maia é que fez alguma coisa: a urbanização da praia da Redinha, agora tá uma maravilha, agora tá uma praia de um ser humano, antigamente parecia uma favela [...]. A televisão é mais por diversão mesmo, a gente fica olhando aquela confusão de vai-não- vai. Eu acho bom quando tem briga pelo meio; quando é aquela coisa morna, só conversa fora, eu não gosto. Debate é bom: fica aquela disputa de ver o candidato mais forte, que ganha dos outros [...]. A opinião dos outros influencia: se eu não conheço um candidato e chega um conhecido dizendo que o candidato é bom eu acredito; é melhor do que acreditar nos da televisão [...]. Quando o candidato vem na casa da gente, ou sempre dá uma coisa ou outra é melhor do que os que não vêm nem aqui.
Alguns aspectos devem ser ressaltados, pois permitem certas inferências. Notamos que existe uma articulação entre uma percepção precária e desiludida da própria história e um desligamento das questões coletivas. Isso se observa na ausência de projetos de vida que incluam a sociedade como um todo. O desdobramento de uma tal perspectiva são escolhas eleitorais permeadas de expectativas, que não permitem uma inclusão do sujeito nesse processo. O que se evidencia é a espera por um “salvador”, aquele que tiraria as pessoas do seu lugar de abandonado. Portanto o candidato que melhor sinalizar essa perspectiva poderá
obter o voto delas. Há uma aparente contradição na fala de E. quando ela diz que vota por esporte [...], ou vota em quem toca seu coração e a passagem em que diz que vota em quem promete algumas saídas para o enfrentamento do seu cotidiano. Na verdade podemos entender que a população, por não acreditar nas promessas do político, acaba votando descomprometida de qualquer responsabilidade com a escolha.
Toda a análise do depoimento de E. reforça a nossa tese de que o substrato subjetivo das escolhas eleitorais pode ser justificado pelo estado de desamparo, que, para essa parcela da população, aparece de forma mais radical, tendo em vista a impossibilidade de projetos alternativos que se contraponham à ausência do poder público.