L.C.N.: solteira, mora com o companheiro, tem 25 anos. Nasceu em Extremóz, e é moradora da favela do Maruim-Rocas-RN. Tem três filhos, é alfabetizada e no momento da pesquisa estava desempregada.
Origem familiar
L. veio para Natal em 2001, em busca de uma alternativa face às dificuldades que estava enfrentando. O pai gostava de beber, mas era o único que levava dinheiro para casa. Veio a falecer de cirrose e, por conta disso, houve uma dispersão da família. L. era a terceira de uma família com oito filhos, dos quais dois foram entregues para adoção. L. não gosta de lembrar da infância, porque o pai provocava muitos transtornos em casa. O pai não gostava que os filhos estudassem e a mãe só fazia o que ele queria, por medo. L.é tida como a mais responsável da sua casa: preocupa-se com todos. No momento da entrevista, ela não era casada, mas morava com uma pessoa fazia seis anos e tinha três filhos: o mais velho tinha cinco anos e o mais novo 1ano.
Em seu depoimento, L. considera que até aquele momento sua vida não mudou muita coisa:
Sempre esperei por dias melhores, mas nunca que veio. Se é Deus quem quer assim, que seja feita a vontade dele [...]. Eu, da minha parte, já me conformei, mas tenho um irmão que é muito revoltado. A maior parte da minha família é um povo esquentado. Eu vim embora por isso também, tava vendo a hora um morrer. Viemos aqui pra essa favela pois foi onde disseram que a gente podia conseguir onde ficar.Tem uma pessoa que a gente conhece que mora por aqui, mas já vamos embora de novo. Aqui não tá dando certo, tudo é distante demais.
A história de L. sinaliza uma falta de perspectiva: ela não vê possibilidade de mudança para as condições em que vive. Veio para Natal procurando melhorias e não encontrou. A marca da sua história é essa impossibilidade de encontrar um lugar para viver sossegada: anda errante, à procura de um lugar onde viver melhor. É isso que parece ordenar a sua vida, a própria falta de ordem. A sua posição subjetiva se esboça precariamente. Frente ao Outro, se coloca como dependente, à espera de alguém que resolva por ela as precariedades da sua existência.
Projeto de vida
Tudo que eu queria nessa vida era um lugar pra ficar no meu sossego e um emprego pra poder cuidar da minha família, mas tá muito difícil, cada dia piorando mais. Com quem vou deixar os meninos. Isso parece o inferno, não tem ninguém por nós. Até Deus parece que esqueceu da gente. A senhora não pode ajudar a gente? Esse é outro depoimento em que aparece o desalento dessa parcela da população em relação a um projeto de vida que envolva mudanças na coletividade. A vida de L. se reduz unicamente a uma luta pela sobrevivência, à espera por alguém que venha salvá-la da miséria intransponível na qual se encontra.
Relação com a comunidade
L. relata que não tem nenhuma relação com a comunidade onde mora e não sabe o que poderia fazer para melhorá-la:
A gente não consegue ajeitar nem nossa vida que dirá a dos outros [...]. Aqui cada um vive na sua, a gente tem até raiva um dos outros. Só tem uma que ajuda, mas o restante não liga de nada, não faz o que é de todo mundo, eu nem me lembro disso [...]. Assim mesmo, quem faz, é tido como besta por aqui; eu não ligo é pra nada.
A concepção de uma organização comunitária não existe. É mais provável que haja algum tipo de desvalorização daqueles que não conquistaram um “lugar ao
sol”. Isso evidencia a representação que o eleitor dessa parcela da população tem de si mesmo e do outro que, como ele, não foi premiado com um destino diferente. Ele é o deserdado, aquele que foi abandonado pelo Pai, pelos políticos, por Deus, por todos aqueles que representam a exterioridade, o Mundo.
Relação com a política
O político só procura a gente quando é época de pedir voto; depois que passam as eleições esquece se existe algum eleitor, não se importa com a maneira como a gente vive [...]. Esse problema é mais com a gente, né? Eu creio que quem é do nível deles, eles dão mais atenção, agora os que mais precisam e os que mais necessitam da ajuda deles, quando eleito, eles esquecem. Agora quando volta a eleição, ele vem novamente procurar, eu creio que é assim. A gente só é importante no dia do voto, e nessa bagunça ninguém conhece ninguém de futuro. Mas se algum ajudar a gente um pouco a gente ajuda também, agora pensar que todo mundo é besta, isso não!
Fica evidente que, em relação à política, L.segue com a mesma posição que vem estabelecendo diante da vida: espera que alguém venha tirá-la da situação em que está; sente-se preterida e certamente culpada pelo que lhe reservou o destino. Deprecia o seu lugar na sociedade, de modo que o político não pode também valorizá-la, não recebendo, portanto, a sua atenção. Sabe o que está acontecendo, que não está votando certo, reconhece que não é manipulada pelo político, mas, como não conhece nenhum candidato, vota naquele que lhe dá alguma coisa.
Escolhas eleitorais
Eu escolho pensando em mudar, pra ver se um que vem, numa primeira oportunidade, se vai fazer alguma coisa melhor, se não vai seguir o exemplo dos outros [...]. Até agora nenhum político fez nada. Acho que não venho escolhendo certo, só pode. Eu preciso ouvir a opinião de alguém pra poder escolher, porque até agora, nada ... A gente ouve assim eles dizerem que vai fazer certas coisas que a gente gosta e a gente tem que acreditar... Eu acho mais fácil escolher quando é aquele que vai dando logo alguma coisa, deveria ter eleição todo mês [...], eu sei que não tá certo, mas quem é que a gente vai escolher? Não tem um filho de Deus pra ajudar nisso [...]. A gente fica aqui nesse fim de mundo que ninguém nem sabe se existe. [...] Quando é o caso de vereador a gente às vezes vota porque é assim da família, por conhecer aquela pessoa, e ela pode dar mais fácil alguma ajuda; os outros é pela televisão mesmo. Se a gente simpatiza com alguma coisa que ele diz, se tá falando a verdade [...].
A gente sabe quando uma pessoa é sincera e a que é falsa. Dessa vez eu votei em Garotinho: é evangélico, já fez muita coisa pelo pobre lá no Rio, vai aumentar o salário mínimo, os outros eu não lembro o nome [...]. A parte que eu gosto na televisão é os debates, só isso mesmo.
Se prestarmos atenção ao fio que conduz todo o discurso de L., fica evidente, aqui também, um projeto ordenador, da ordem da subsistência, sem articulação com a dimensão social mais ampla, diferente do que observamos em alguns depoimentos dos líderes comunitários. À dimensão do desamparo não se contrapõe uma construção que estabilize a sua vida e que funcione como anteparo para o sujeito. Dessa forma L. fica inteiramente dependente das iniciativas políticas, criando-se um círculo vicioso que vai da espera ao abandono, isso indefinidamente. Esse é mais um discurso que nos permite apontar a dimensão do desamparo como estando implicado nas escolhas eleitorais.