4. Results
4.2 XGboost
A Análise da Conversação trabalha com material empírico, considerando detalhes entonacionais, paralinguísticos e outros, transcrevendo conversações reais que são fornecidas aos analistas pelos interlocutores das conversas, através de livros protocolos ou de gravações em fitas cassetes ou em fitas de vídeos. Essas conversas são arquivadas para posterior seleção e análise. Durante as gravações, é importante que o analista esteja inserido no contexto conversacional ou, caso isso não seja possível, que “alguém, sumariamente orientado, possa anotar com clareza todos os recursos paralinguísticos e supra-segmentais tão
importantes na organização do texto conversacional”. (TEIXEIRA, 2001, p.67).
Nossa amostra foi selecionada, durante o ano de 2009 e 2010, após aprovação do COMEPE, através do diagnóstico de esquizofrenia dado pelos psiquiatras do hospital e pela anuência dos doentes dessa enfermidade, internados no Myra Y Lopez, em participar da nossa pesquisa. Noventa transcrições constituíram o corpus de nosso estudo que teve como variável a situação surto crônico e moderado, sem levar em conta idade, sexo ou até mesmo a classe social de quem tinha produzido essas conversas. Antes dessa seleção, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2010, aplicamos testes de cognição, de conceitualização e de categorização de violência.
4.3 Tipos de procedimentos
A metodologia adotada foi, portanto, dividida em momentos interligados. No primeiro momento, aprofundamos as referências teóricas relativas à Análise da Conversação,
à Esquizofrenia, ao Fenômeno da Polidez e da Metáfora. No segundo momento, aplicamos alguns testes sobre diferenciação cognitiva, tais como os exercícios com cartões, sistemas conceituais verbais (hierarquias conceituais, sinônimos, antônimos, definições de palavras, cartões com figuras, cartões com vocábulos, palavras com diferentes significados, segundo o contexto) e estratégias de busca. Além desses experimentos, baseada nos estudos de Rosch (ex-HEIDER, 1971, 1972), realizamos exercícios com outras categorias perceptuais, tais como FORMAS E CORES, assim como não perceptuais ou semânticas como FRUTA, VEÍCULO, AVE etc.
Esses experimentos foram aplicados no Hospital Myra Y Lopes, em janeiro e fevereiro de 2010, inicialmente para um grupo de quatro, depois de seis pacientes esquizofrênicos crônicos e posteriormente de cinquenta (vinte e cinco crônicos e vinte e cinco moderados). Seguimos, nos exercícios com cartões, o exemplo de Volker (2001, p.57) em que os participantes do grupo recebiam determinado número deles que se distinguiam por diferentes características (números, cores, formas) e lhes era solicitado, por exemplo, que separassem os cartões vermelhos com um número de dois algarismos. Aqueles que estavam perto podiam olhar se o colega ao seu lado fazia a atividade corretamente. Esse tipo de experimento pressupõe um mínimo de interação verbal entre os participantes. Essa interação,
muitas vezes, se torna difícil para “pacientes esquizofrênicos muito crônicos que, com
frequência, têm grande temor perante qualquer interação social nova, não familiar para eles”. (VOLKER, 2001, p.57).
Com os experimentos com outras categorias perceptuais e não perceptuais ou semânticas, os doentes de esquizofrenia não podiam consultar as atividades dos colegas. Esse tipo de experimento não pressupõe interação verbal entre os participantes e possibilita, nos fundamentos da semântica de Lakoff (1987), ao assimilar a discussão sobre a natureza do significado àquela sobre a natureza dos conceitos e do processo de categorização, que os sujeitos de nosso estudo pudessem trabalhar individualmente a sua noção de categoria sem interferências de seus colegas.
Durante e após esses testes de cognição, de conceitualização e de categorização de violência, além das conversas gravadas em outros dias entre os portadores de esquizofrenia, pessoas de seu convívio, pesquisadores, técnicos e/ou médicos especialistas em saúde mental, transcrevemos as conversas com ajuda de bolsistas da Universidade Estadual do Ceará e da Faculdade Estácio do Ceará (antes denominada Faculdade Integrada do Ceará). Tentamos, através da observação, acompanhar as conversas desenvolvidas nos momentos citados.
O terceiro momento foi dedicado à seleção e à análise dessas gravações. Os dados coletados em conversas foram primeiramente analisados e interpretados isoladamente para somente depois serem analisados e interpretados comparativamente, levando em conta as variáveis: conversas ordinárias (produzidas nos pátios do hospital) e conversas em consultas médicas ou a relação de poder e diatanciamento social. Consideramos detalhes não apenas verbais, mas entonacionais e paralinguísticos que apareceram nas transcrições de vídeo. Seguimos o sistema ortográfico e adotamos, nessas transcrições, uma adaptação dos sinais relacionados por Marcuschi (1991), Koch (1997), transcritos a seguir, baseados nos estudos de Schegloff; Jefferson e Sacks (1974) entre outros.
As conversas, durante as consultas médicas, foram gravadas por um médico responsável pela integridade dos pacientes. Esse médico foi também um supervisor clínico do material produzido e transcrito.
4.4 Normas para transcrição de conversação
Marcuschi (1991), em consonância com os estudiosos da Análise da Conversação, argumenta que o sistema sugerido para a transcrição é eminentemente o ortográfico, seguindo a escrita-padrão e considerando a produção real e a variação linguística do indivíduo. Para ele, algumas palavras ou expressões são usadas de modo diferente do padrão, devendo assim ser escritas como tiverem sido pronunciadas. Utilizamos, nesta tese, um quadro adaptado e extraído de Castilho; Preti (1986) e adotado por Koch (1977) em Teixeira (2001), com as normas mais frequentes para uma transcrição.
Desse quadro, fizemos uso para normatizar as transcrições da tese, juntamente com as novas convenções para as transcrições dos dados das sessões do Centro de Convivência de Afásicos – CCA, estabelecidos durante o 1º semestre de 1996, através de várias reuniões entre a equipe de transcrição, a coordenação do Projeto e a responsável pela organização do Banco de Dados da UNICAMP. (TEIXEIRA, 2001).
Preferimos manter a transcrição tal qual está nas dissertações de Picardi (1997) e de Brito (2005). Por isso, em nossa tese, aparecerão exemplos transcritos de forma diferenciada. Vejamos, pois, o quadro adaptado:
Quadro 1 - Símbolos para Transcrição de Conversações
OCORRÊNCIAS SINAIS
Incompreensão de palavras ou segmentos ((incompreensível))
Hipótese do que se ouviu (hipótese)
Truncamento (havendo homografia, usa-se acento indicativo da tônica e/ou
timbre). /
Entoação enfática Maiúsculas
Alongamento de vogal ou consoante (como r, s) :: podendo aumentar para ::: ou mais
Silabação -
Interrogação ?
Pausa (para as pausas além de mais de 1.5 segundos, indica-se o tempo). (+) ou (2,5)
Comentários descritivos do transcritor ((minúsculas)).
Comentários que quebram a sequência temática da exposição, desvio
temático. ----
Superposição, simultaneidade de vozes. [simultaneidade de vozes] Indicação de que a fala foi tomada ou interrompida em determinado ponto.
Não no seu início. (...)
Citações literais, reproduções de discurso direto ou leituras de textos, durante
a gravação. "
Fonte: Adaptado pela autora, com pequenas modificações das regras extraídas de Castilho; Preti (1986), de Koch (1997) e de Marcuschi (1991, p.10).
Seguindo essas normas, fizemos as transcrições, adotando também:
1. Espaço simples, porém dando dois espaços entre um turno e outro;
2. As iniciais dos interlocutores pesquisadores foram feitas em negrito, sendo a primeira letra “I” de interlocutor em maiúsculo e em negrito, seguido das duas iniciais do nome desses interlocutores em minúsculo e em negrito também. Exemplo: I la;
3. As iniciais dos sujeitos da pesquisa contiveram duas iniciais de um nome hipotético para eles, em letra maiúscula e em negrito;
4. Quando o interlocutor era um médico psiquiatra, para preservar a identidade dele (uma vez que o universo de psiquiatras no Ceará é pequeno e se colocássemos as iniciais, como fizemos no mestrado, acabaríamos identificando esses profissionais. O que não é necessário neste estudo.), usamos a letra P de psiquiatra, em negrito, seguida de um número atribuído aleatoriamente para identificá-lo. Esse número será arquivado para identificar sempre o mesmo psiquiatra. Exemplo: P1, P2, P3 etc.; 5. As hesitações devem ser marcadas por reticências;
8. Inserir cabeçalho contendo as seguintes informações: Pesquisa de Doutorado UFC (PDUFC) – data – página. Exemplo: – PDUFC 19/09/2009 – p.01 (TEIXEIRA, 2001; adaptado de KOCH, 1997);
9. As transcrições dos trabalhos de Picardi, Teixeira e Brito seguiram o padrão que foi anexado aos textos originais. Não modificamos os dados apresentados nas dissertações de mestrado;
10. Nos experimentos realizados, respeitamos a escrita dos pacientes. Não fizemos revisões das falhas de escrita de acordo com as convenções ortográficas de Língua Portuguesa.
É válido mencionarmos que, assim como indicou Marcuschi (1991, p.13), o uso de reticências no início e no final de uma transcrição indica que se está transcrevendo apenas um trecho.
5 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
Estranho, fora do comum, desusado, singular, esquisito, extravagante, excêntrico, misterioso, enigmático, anormal; todas essas acepções travestem os dizeres nas esquizofrenias, mas apenas a última acepção parece pesar mais na designação dos efeitos provocados em seus ouvintes e leitores na Psiquiatria, na Psicologia e, até, no senso comum. (NOVAES, 1996, p.76).
Historicamente e culturalmente, as pessoas com transtornos mentais foram concebidas como incapazes de interagir socialmente. Elas foram presas em uma rede rigorosa de valores que as isolaram do convívio social e da interação humana. (TEIXEIRA, 2001). E se não bastasse os preconceitos, os estigmas e o isolamento social, até hoje ainda existe uma dificuldade de compreensão dos dizeres e da forma de interagir dessas pessoas. Há realmente uma forte tendência para condenar esse tipo de transtorno ao silêncio, em nome da defesa da
suposta “razão”.
Como bem disse Novaes (1996, p. 18), citando Foucault, “o assentamento da loucura na estrutura, no jogo de exclusão, foi precedido de um movimento simbólico de reciprocidade na relação entre a razão (o signo do centro da estrutura, o signo da continuidade) e a loucura (o signo da ruptura)”. Essa razão respaldou, inclusive, a justiça e a medicina para tirarem do convívio social as pessoas com transtornos mentais e isolá-las de sua comunidade, de sua família, dificultando suas interações sociais e aumentando o preconceito.
Os loucos ao terem, segundo Foucault (1991, p. 9), uma existência facilmente errante, facilitaram de certa forma a exclusão social e a realização dos fatos relatados nas naves romanescas ou satíricas. Como foi o caso da Narrenschiff, a Nau dos Loucos, única que teve existência real ao deslizar ao longo dos rios levando uma carga insana de uma cidade para outra. Essas cidades escorraçavam os loucos estrangeiros de seus muros e eles eram entregues aos marinheiros que se encarregavam de livrar a cidade dessa maldição.
Mas, paradoxalmente, essas pessoas teimavam em retornar às suas cidades. Não
era fácil a “medida geral de expurgo que as municipalidades fazem incidir sobre os loucos em estado de vagabundagem” (FOUCAULT, 1991, p. 9). Com efeito, o problema do isolamento
dos loucos não era tão simples. Eles, mesmo sendo jogados na prisão, “terra santa onde a
loucura esperava sua libertação”, nunca foram totalmente silenciados. “Teimavam em conversar”, em não se calar e, mesmo sendo estigmatizados como indivíduos insanos,
dificuldades de encontrar interlocutores dispostos a manter uma conversa centrada com eles.
(TEIXEIRA, 2001, p.70-71).
Em nossa pesquisa, quisemos agir de forma diferenciada de tudo isso: conversar, escutar os dizeres, as histórias de vidas e, até mesmo, as lamentações dos “loucos” foram ações verdadeiras e motivadoras, sem preconceitos e sem estigmas sociais. Essa motivação que temos em conversar com os portadores de sofrimento psíquico foi percebida por M.P., um dos sujeitos da nossa pesquisa e paciente do Hospital Mira y Lopez:
Ila: oi (+) M.P.
M.P.: oi (++) que prazer imenso (++) falar contigo (++) adoro falar com você (++) você é a pessoa mais maravilhosa do mundo (++) mais LINDA (++) é linda (++) assim como o Dr. C. e o A. é o médico das conversas você também é a pessoa das conversas.
Ila: que coisa linda você acabou de dizer
M.P.: quando eu vou lá ao Dr.C. (++) a mamãe quer saber tudo (++) TUDO (++)
mais eu não conto nada (++) nadinha (++) aí ela pergunta o tempo todo (++) tu falou de doença tal (++) de doença tal com o Dr.C. (++) falou que não está dormindo direito (++) falou que está inquieta (++) eu fico de boca fechada (++) coloco um cadeado na minha boca pra não ser grosseira com ela (++) faço de conta que (++) não estou escutando nada (++) aí ela fica com mais raiva de mim (++) mas é melhor ficar de bico calado (++) do que falar besteira (+) né?
Ila: talvez
M.P.: mamãe (++) eu digo (++) ELE É MÉDICO DE CONVERSA (++) o Dr. C. é meu amigo (++) eu adoro (++) adoro (++) adoro (++) ele (+) ele não é médico de doença é só médico de conversa (++) se o mundo se acabar eu ainda vou com ele (++) pra qualquer lugar (++) eu gosto dele como amigo num é como homem (++) não (++) eu sou pura (++) tem gente que está cheia de pecados (++) eu tenho o corpo santo (++) não sou louca (++) nunca fui (++) o Dr. C. me escuta (++) me entende (++) ele é o único que me escuta (+) que me compreende (++) os outros só me julgam
O trecho acima revela a sensibilidade e o sofrimento de uma pessoa doente de esquizofrenia, capaz de expressar a importância da relação de comunicação, de interação social e de escuta na sua vida cotidiana. Na verdade, é preciso ter sensibilidade e ver além da doença para poder interagir com pessoas com transtornos mentais. É preciso realmente compreender que o doente mental é um cidadão e que o transtorno esquizofrênico, apesar de ser uma doença desafiadora, tanto para técnicos em saúde mental como para pesquisadores de outras áreas, é uma doença passível de uma ação terapêutica e de intervenções nos vários aspectos interrelacionais dos portadores desse transtorno.
Diante dessa complexidade, interagir socialmente com pessoas portadoras de esquizofrenia foi o ponto forte do nosso estudo que teve início no Projeto de Alfabetização de Pessoas com Transtornos Mentais da Faculdade de História, Ciências e Letras do Sertão
Central da Universidade Estadual do Ceará em Convênio com o CAPS de Quixadá, do qual trazemos alguns exemplos:
Ila: a I. mandou esse suco para vocês (++) tem bolo também (++). D.S.: eu adoro bolo (++) e suco.
Ila: ela lembrou de vocês? D.S.: é::: é:: ela é BOA (+) né? Ila: ah
D.S.: ela é boa (+) pena que o bichim dela morreu (+) Deus devia ter visto a
bondade dela (+) não devia ter deixado o filhim dela morrer (++) né? (++) ela e a F. num esquece de nós.
Ila: é (+++) vem M.S., D.S., J.A., P.S. (+++) venham tomar o suco (++) o marido da
I. tem que levar a jarra (++)
J.A.: vamos gente (++) vamos pessoal que o home tem que ir trabalhar Ila: D.S. (+) entrega a jarra ao marido dela (++) vai lá (+)
D.S.: tu num vai lavar a jarra? (++) não é educado entregar ao homem a vasilha suja
(++) EU (++) e::u vou lavar (++) tá?
Ila: tá certo (++) obrigada (++) D.S.
Ao se preocupar em devolver a vasilha limpa ao marido de I., D.S., doente de esquizofrenia, um dos alunos do Projeto de Educação Especial, revela um ato de polidez e mostra a sua face de pessoa preocupada em agradar o outro, em ser eficiente, educado, cortês.
Outro trecho interessante e pertinente ao que almejamos pesquisar foi quando
D.S. falou:
D.S.: Ila (++) na tua casa não tem (++) TEM pé de goiaba (+) de cajá (+) de manga
ou de graviola? (++) tem?
Ila: o quê?
D.S.: na tua casa (++) lá na tua casa (+) tem pé de goiaba (+) de cajá (+) de manga
ou de graviola? (+) os menino tava falano que:: (+) que eles tão enjoados de suco de acerola?
Ila: ah é::: ((risos))
D.S.: é (+) eles (+) os meninos (+) disseram que não querem mais merendar suco de
acerola (+) as outras coisas que você traz para merendar eles gostam (++) a pipoca é boa (+++) a tapioca também (+) o bolo (+) tudo é bom (++) TUDO (++) o suco de acerola também é bom (+) mas os meninos falaram pra mim que estão enjoados dele.
Constatamos, nessa passagem, que, ao reclamar para Ila do suco de acerola que ela levava diariamente para eles merendarem, D.S. se excluiu, possivelmente para ser polido,
do grupo dos alunos, dizendo: “eles (+) os meninos (+) disseram que não querem mais merendar suco de acerola (+)”, preservando a sua face de amigo da professora – pesquisadora – e, ao mesmo tempo, se revelando uma pessoa educada e amigo de seus colegas.
Usou, ao invés do imperativo, a estratégia de polidez de forma off-record para não ser tão explícito, grosseiro, rude. Construiu o trecho de forma implícita, sutil: “na tua casa não
que não se conformando e temendo não ser compreendido por Ila, acrescentou, dessa vez de forma on-record, os enunciados que seguem. É válido acrescentarmos que ele, mesmo construindo os enunciados claramente, continuou sem se incluir no grupo dos que estavam reclamando:
D.S.: é (+) eles (+) os meninos (+) disseram que não querem mais merendar suco de
acerola (+) as outras coisas que você traz para merendar eles gostam (++) a pipoca é boa (+++) a tapioca também (+) O BOLO (+) tudo é bom (++) TUDO (++) o suco de acerola também é bom (+) mas os meninos falaram pra mim que estão enjoados dele.
Outra marca de polidez que podemos identificar na conversa acima é a
impersonalização que D.S. dá aos seus enunciados ao reclamar das inúmeras vezes que os meninos (e ele, é claro) tiveram que tomar suco de acerola. A atribuição dessa ação de reclamar foi conferida aos seus amigos. Ele se tornou apenas um porta voz dessa mensagem. Em outras palavras, por mais que D.S. seja mensageiro de atos ameaçadores de faces, soube perfeitamente utilizar recursos como esses como uma estratégia de preservar ou reparar possíveis danos causados às faces dos envolvidos.
O interessante no trecho acima é que D.S. minimiza a reclamação, para não ser
indelicado, ao construir o enunciado “as outras coisas que você traz para merendar eles
gostam (++) a pipoca é boa (+++) a tapioca também (+) o bolo (+) tudo é bom (++) TUDO (++) o suco de acerola também é bom (+) mas os meninos falaram pra mim que estão
enjoados dele”. Aqui observamos mais uma vez o poder de jogar com as palavras para minimizar a ordem e ser polido: “não traga mais suco de acerola para a merenda, estamos enjoados desse suco”.
Os exemplos acima podem ser figurados na assertiva propagada pela literatura
sobre a polidez lingüística, a qual mostra que qualquer “agente racional” procurará prevenir
os atos ameaçadores de face ou introduzirá certas estratégias para minimizar a ameaça e, para tanto, ele levará em consideração o peso relativo de pelo menos três intenções: i) o desejo de comunicar o conteúdo de um ato ameaçador de face; ii) o desejo de ser eficiente; iii) o desejo de manter a face de seu interlocutor em algum grau (cf. BROWN; LEVINSON, ANO, p.68).
O transtorno mental, que se apresenta nesta pesquisa através da esquizofrenia, saiu, conforme cita Novaes (1995), de seu lugar tradicional de doença de um indivíduo para uma forma de dizer de um sujeito que tem dizeres com efeitos de estranhamento. Os efeitos de estranhamento nos colocam diante de um funcionamento da língua que nos fez querer entender a estrutura conversacional de pessoas com sofrimentos psíquicos.
Acreditamos que os esquizofrênicos, dependendo do nível de gravidade da doença, não são totalmente alienados aos acontecimentos e às significações ideológicas, nem aos eventos sociais e culturais. Achamos que eles são polidos (quando querem ser) e, como cita Kasper (1990, p.200), que as estratégias e modos de polidez não são dotados de polidez
de valor absoluto, apesar de a polidez ser um fenômeno “universal”.
Defendemos que muitas das funções pré-mórbidas permanecem inalteradas no curso dos surtos esquizofrênicos. Dizendo de outra forma, se a pessoa é educada, cortez, ela conseguirá, mesmo em crise psicótica, manter essas características quase sempre preservadas. Se ela é rude, grosseira, a doença será uma forma de tornar ainda mais evidentes essas caracterísiticas.
Ao iniciarmos este estudo de tese, questionamo-nos se poderíamos afirmar que,
apesar de os doentes de esquizofrenia, em surto psicótico, terem “alterações cognitivas e alterações da relação com a realidade” (apontadas pelos estudos da área técnica em Saúde
Mental) eles, em geral, não perdiam a capacidade de utilizar estratégias de polidez linguística. Questionamos também se os estudos sobre as questões transculturais, de gêneros, entre outras,
evidenciaram que a polidez linguística era um fenômeno “universal”, apesar de as estratégias
serem diferenciadas de cultura para cultura, de gênero para gênero, de indivíduo para indivíduo, será que existe uma diferença na utilização de estratégias de polidez por pessoas doentes de esquizofrenia?
Com esse questionamento, chegamos às seguintes análises e discussões dos dados coletados.