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Pareto/NBD model

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4. Results

4.1 Pareto/NBD model

Definir a competência social em termos precisos e exaustivos parece uma empreitada quase impossível. A capacidade social não está definida como um traço pontual da personalidade, mas como um amplo repertório de habilidades sociais que permitem ao indivíduo enfrentar com eficácia situações específicas.

Atualmente, já se sabe que no curso das doenças esquizofrênicas se apresentam com frequência os transtornos mais severos dos comportamentos sociais (KELLY; LAMPARSKI, 1985, apud VOLKER et al., 2001, p.68). Esses transtornos ou aparecem de

forma lenta e discreta ou surgem de forma abrupta e acabam conduzindo “a uma deterioração

das habilidades sociais, do trabalho e das possibilidades de viver independentemente ( critério para o diagnóstico da esquizofrenia segundo o DMS-III; KOEHLER; SASS, 1984) ”. (VOLKER et al., 2001, p.69).

De acordo com Schubart et al.(1986) apud Volker et al.( 2001, p.69), pesquisas recentes com os programas-padrão têm revelado que, dois anos após o início da doença, 40% dos pacientes mostram déficits funcionais graves e 30%, déficits funcionais de média

gravidade nas áreas sociais e pessoais. Evidenciam que “as pessoas esquizofrênicas que não

contam com habilidades sociais não podem ( ou não por muito tempo) viver experiências de interação social e de vínculos interpessoais como reforços positivos ”.

Durante os surtos psicóticos agudos, no transcurso de uma doença esquizofrênica, o comportamento social parece estar abstraído, confuso e sem sentido. Entretanto, após o surto ter passado, os doentes de esquizofrenia têm a possibilidade de funcionar tão bem como antes da crise.

Os resultados de pesquisas em psicologia experimental oferecem uma série de hipóteses fundamentadas acerca de como os transtornos na recepção e no processamento da informação estão influenciados pelo que o indivíduo aprendeu e experimentou no passado e o uso que ele fez dos aprendizados prévios ( RUCKSTUHL, 1981; HARTWICH, 1983; HUBER, 1983 apud VOLKER et al., 2001, p.70). Vejamos alguns exemplos:

As pessoas esquizofrênicas sofrem por uma deteriorada capacidade para

processar e interpretar a expressão emocional (Feinberg etal., 1986; Berndl et al., 1986). Como consequência, muitos contatos sociais são experimentados com temor ou interpretados equivocadamente.

A limitada capacidade para processar a informação recebida dá lugar a uma

incapacidade para enfrentar situações complexas. Tendo em conta que as situações complexas contêm em particular uma ampla faixa de dados recebidos que deverão ser processados, os esquizofrênicos são incapazes de compreender oudominar com eficácia tais complexidades sociais (Lang e Buss, 1965;Rey,1978).

As pessoas esquizofrênicas não podem recorrer a conhecimentos armazenados na

memória a longo prazo quando precisam saber como se comportar em situações sociais. Sua hierarquia de respostas adquiridas se desmorona, ou sua habilidade para

fazer uso de “planos (“configurações mentais“) adquiridos para controlar

aorganização do comportamento está deteriorada ( Shakow, 1962; Shakow e McCormick, 1965;Broen, 1968; Poljakov, 1973; Brenner, 1979). Portanto, elas têm dificuldades na aplicação do que foi aprendido anteriormente a novas situações sociais.

Tudo isso demonstra em que medida os transtornos formais no processamento da informação e na capacidade autônoma para reagir podem interferir tanto no processo de desenvolver uma representação cognitiva das habilidades sociais (aprendizagem) como no processo de sua atualização e utilização. Além disso, esses estudiosos acreditam que intervenções cognitivas adicionais poderiam fazer com que o treinamento em habilidades sociais fosse mais efetivo e útil.

Argumentam ainda que o fato de que as pessoas doentes de esquizofrenia tenham tendências a manifestar maior grau de incapacidade social no transcurso da doença e da hospitalização é, em grande parte, causado por tendências generalizadas de evitação e mecanismos de auto-reforço negativo. Com isso, a incompetência social aumenta porque o

portador tem tendência a desaprender “ as habilidades sociais que uma vez fizeram parte de

seu repertório de comportamentos.

Com isso, observamos que a gravidade e a cronicidade de seus transtornos e a sua capacidade de tolerância ao estresse e as relações socias complexas devem ser questões a se considerar sempre no estudo da esquizofrenia.

3.2 “Linguagem Esquizofrênica”: existe esse cognome?

Reconhece-se no esquizofrênico, segundo Novaes (1996, p. 41), uma outra linguagem; uma linguagem diferente daquela passível de ser controlada, de ser domada. Uma linguagem cheia de delírios e de alucinações, cheia de sentidos incontroláveis que os dizeres de esquizofrênicos insistem em exibir.

Em pessoas esquizofrênicas, conforme Novaes (1996, p.40) afirma, “a linguagem, enquanto instrumento de expressão das „alterações no pensamento e na cognição‟, é tida como comprometida: a expressão, enquanto função, e não o que seria expressado”. Isto é, na esquizofrenia, “a linguagem é um instrumento mal usado, ela não cumpre sua função. Como

então confiar nesse instrumento que está sujeito ao mau uso pelo doente mental?”. Novaes

questiona ainda mais: “Como insistir na busca da „descoberta‟ da causa da doença, se o seu instrumento mais eficaz de investigação está comprometido pelo mau uso”.

A esse respeito, Novaes (1996, p.40-41) se posiciona dizendo que “não se pode esquecer que não é só no diagnóstico das doenças mentais que o dizer desempenha o papel de

instrumento no diagnóstico de doenças.” E acrescenta, mencionando que todas as “consultas

médicas passam pelo que o paciente diz, principalmente pela escuta do médico, uma escuta

orientada para sintomas”. Mas, nos transtornos mentais, “o papel do dizer torna-se mais evidente porque os exames clínicos costumam fornecer poucos subsídios”.

O interessante nisso tudo, é que “o discurso médico, por conseguinte, alça-se a um

estatuto de metalinguagem, naquilo que o que é dito torna-se um objeto de investigação

independente de sua posição discursiva, enquanto médico, e naquilo que o seu discurso”,

ça va sans dire o eleva a uma posição confortavelmente neutra fora da linguagem”. Assim, a “inacessibilidade aos dizeres nas esquizofrenias é o passo adiante na manutenção da estrutura

de poder sobre sentidos incontroláveis que esses dizeres insistem em exibir”.

Novaes argumenta que “na tentativa de se enquadrar um dizer não-compreendido

[...], apaga-se o que é dito, mas mantém-se a diferença”. Fora isso, “ainda precisa ser considerado com relação ao mau uso da linguagem pelo esquizofrênico, a redução do que é dito pelos esquizofrênicos a uma meia dúzia de rótulos que apagam a especificidade da

língua, enquanto estrutura”. A inacessibilidade à linguagem de pessoas com esquizofrenia “é

o passo adiante na manutenção da estrutura de poder sobre sentidos incontroláveis que esses

dizeres insistem em exibir”. (NOVAES, 1996, p. 41).

Com isso, ironiza Novaes (1996, p.41): “o que um esquizofrênico diz não se

distingue do que outro esquizofrênico diz, porque os dizeres são idênticos na sua função única

e exclusiva de indicar” os transtornos mentais. A homogeneização da diferença nos dizeres de pessoas esquizofrênicas “compatibiliza-se com o esquizofrênico-padrão. Assim, vai-se chamar esse „dizer padrão da esquizofrenia‟ de „linguagem esquizofrênica‟”.

A diferença estrutural que marca a posição da linguagem neurótica e psicótica - se é que se pode afirmar que existe - deixa-nos diante da linguagem psicótica numa posição de estranhamento. Nada nos garante que, por trás da aparente desorganização dos sentidos da linguagem na esquizofrenia, não haja uma significação possível, uma outra forma de organização que simplesmente, não somos capazes de perceber. Neurose e psicose são, portanto, duas formas de habitar a linguagem, a capacidade humana de agir, de atuar, de ser.

Classificar a linguagem de psicóticos como comunicação ilógica, sem observar a

história de vida deles e suas “lógicas comunicativas”, só colabora para manter seus discursos

à margem de todo processo de interação, reforçando, cada vez mais, a exclusão social em que eles já vêm mergulhados desde sempre. Acreditando no potencial de interação do homem, e não somente na doença, evidenciamos de grande importância social e linguística estudos que abordem esses temas.

No “estado da arte” sobre os estudos relativos à linguagem de pessoas com

esquizofrenia, é quase consenso na área clínica e na área linguística que essa linguagem tem

um ponto de ruptura, um “estranho modo” de proferir e de escutar os enunciados linguísticos.

E é, exatamente, isso, o que também queremos entender: os fenômenos que causam o estranhamento, os desvios dos dizeres dessas pessoas; e isso só poderá ser feito passo a passo, observando os princípios da língua e dessa linguagem, através de fenômenos tidos como universais.

Sabemos que existem mitos e preconceitos que precisam ser desfeitos: entre eles

que os doentes mentais “não interagem”, “não sabem se comunicar”, “são agressivos” e sempre “impolidos”. Ora, se eles falam - e como falam - existe uma língua, uma linguagem,

uma forma de ação, de interação; há uma mensagem em seus dizeres. Essa mensagem terá um valor, um significado. Até mesmo o silêncio que, tantas vezes também, é presença constante em suas crises psicóticas, principalmente as agudas, é uma forma de comunicação. Também não podemos dizer que a comunicação só acontece quando é intencional, consciente ou bem sucedida ou quando ocorre uma compreensão mútua e transparente.

Acreditamos que, até na área técnica de saúde mental, os dizeres dos psicóticos são ainda excluídos socialmente, mesmo sendo reconhecidos como enunciados de pessoas doentes que podem ser tratadas. Os portadores de transtornos mentais nem sempre são escutados de forma adequada e compreensiva. Questões como cidadania, dignidade moral, qualidade de vida só recentemente têm sido discutidas, principalmente, no bojo da reforma psiquiatra; nem valores humanitários universais, muitas vezes, enunciados em declarações internacionais e nacionais de direito do homem e de dispositivos legais são considerados e respeitados.

Na esquizofrenia, a área médica, a partir da adoção de critérios diagnósticos internacionais, há poucas décadas, tais como a CID (Classificação Internacional de Doenças, editada pela OMS - Organização Mundial de Saúde, atualmente na versão 10 – CID-10) e o DSM (Manual de Estatístico e Diagnóstico, editado pela Associação Psiquiátrica Americana, atualmente na versão DSM-IV), diminuem, entre os psiquiatras, as divergências quanto às principais percepções da linguagem de psicóticos que devam ser consideradas. Isso parece ser importante tanto para efeito de diagnóstico e tratamento quanto para possibilitar pesquisas mais eficazes relacionadas a esse assunto. (LOUZÃ NETO, 1999, p.14).

Esses critérios evidenciam que, na esquizofrenia, o efeito de desvinculação pragmática é menor do que na paranóia e se deve, possivelmente, nessa última à ocorrência interna em torno de um núcleo semântico-pragmático em que existe uma simbolização total de uma verdade inacessível ao interlocutor, devido talvez aos delírios e às alucinações. A presença de várias estruturas delirantes incompletas, a partir de núcleos semânticos e pragmáticos distintos, é responsável, como menciona Novaes (1995, p.02), pelo efeito de muitas significações inconclusas e confusas.

Alguns trabalhos de estudiosos renomados já tentam penetrar nessa temática, intercambiando suas pesquisas com os fundamentos da linguística. Entre esses pesquisadores, podemos citar Andreasen (1982) com o trabalho intitulado There may be a schizophrenic

language, em que ele se posiciona, evidenciando que talvez haja a “linguagem

esquizofrênica” e abordando, mais especificamente, a capacidade intelectual e os problemas

cognitivos e comportamentais específicos e diferenciados desses doentes.

Também Asarnow; Watkins (1982) estudam a Schizophrenic thought discorder: linguistic incompetence or information-processing impairment? Beveridge e Brown (1985) fazem A critique of Hoffman‟s analysis of schizophrenic speech, Hoffman (1984) trabalha com Tree structures, the work of listening, and schizophrenic discourse: a reply to Berevidge and Brown. Ostwald (1978) escreveu sobre os problemas de linguagem e de comunicação de pessoas esquizofrênicas. Louzã Neto (1995, 1999) trata das concepções da esquizofrenia, dos sintomas e da linguagem, assim como também faz Volker (2001).

Todos eles argumentam que a comunicação verbal de esquizofrênicos crônicos e em surto psicótico é alterada (ver, por exemplo, MAHER, 1972; SCHWARTZ, 1978a; SCHWARTZ, 1978b; ANDREASEN, 1979; CHAIKA, 1982; KASERMANN, 1983 e 1986; TRESS et al., 1984; LANIN – KETTERING; HARROW, 1985; GROVE; ANDREASEN, 1985 apud VOLKER 2001). Eles afirmam até que os transtornos da linguagem, tais como pobreza (respostas lacônicas e monossilábicas a perguntas; dificuldades para se expressar espontaneamente etc), discurso rápido demais, frases incompletas, tangencialidade, descarrilamento ou perda do fio condutor, curso da associação regido foneticamente, neologismo, ecolalia etc. são manifestações constantes nos dizeres de esquizofrênicos.

A percepção científica da linguagem de pacientes esquizofrênicos é a de que eles podem estar alterados, tanto na recepção da informação como no processamento dessa linguagem. (KNIGHT, 1984; SÜLLWOLD; HERRLICH, 1990). Na área da recepção de informação está particularmente afetada a atenção seletiva, razão por que os pacientes se distraem facilmente e têm dificuldades para focalizar e para destacar os estímulos irrelevantes, motivo pelo qual são sobrecarregados com a quantidade de informações que recebem. (veja em VOLKER, 2001, MCGHIE; CHAPMAN, 1961; ZUBIN, 1975; KNIGHT E SIMS- KNIGHT, 1980; RIEF, 1987; ZAUNBRECHER et al., 1990).

Esses estudiosos evidenciam que as pessoas esquizofrênicas sentem que a informação irrelevante está permanentemente as confundindo e as distraindo e que já não podem dar sentido ao que percebem e experimentam. (SÜLLWOLD, 1983; KNIGHT, 1984; PERSONS E BARON, 1985 apud VOLKER, 2001).

Silverman (1967), Neale e Cromwell (1968), Asarnow et al. (1978) e Venables (1980), citados também por Volker (2001), pesquisaram os efeitos da atenção seletiva alterada sobre a percepção e o comportamento de pacientes não paranóides crônicos, que manifestam

uma pobre ou escassa adaptação pré-mórbida, tendendo a superestimar a dimensão espacial. O isolamento social é, dessa forma, a consequência dessa falsa estimativa.

Em compensação, em pacientes esquizofrênicos agudos, a atenção seletiva alterada produz uma subestimação da dimensão espacial. Assim, esses pacientes manifestam um comportamento social superexcitado e hiperativo. Embora, esses resultados tenham sido criticados como vagos, eles impulsionaram a um ponto de vista mais amplo da atenção seletiva. Hoje, já se sabe que um transtorno da atenção seletiva pode, sobretudo, influenciar diretamente no pensamento formal (PERSONS; BARON, 1985), nas comunicações e, inclusive, nas experiências emocionais.

Segundo Brenner (1986), em geral, os transtornos das funções cognitivas podem afetar outros planos funcionais superiores, como, por exemplo, a interação social e o desempenho de papéis. Devido às alterações cognitivas, esses estudiosos mencionam que os doentes de esquizofrenia fracassam especialmente nas interações sociais. Entretanto, acreditamos que seria demasiadamente vago pretender explicar o fracasso desses doentes nas interações sociais somente por esse viés. É preciso analisar também os contextos, os entornos que reprimem até suas falas, seus sofrimentos, para se compreender melhor as funções cognitivas e interacionais de pessoas esquizofrênicas.

Feinberg et al (1986) descobriram, em suas pesquisas, que para os doentes esquizofrênicos são estressantes não só a variabilidade e a quantidade de estímulos em situações sociais, mas também a carga emocional (frequentemente alta) que as relações sociais implicam. Essa é a razão, segundo esse pesquisador, pela qual os esquizofrênicos tendem a manifestar transtornos cognitivos mais severos quando enfrentam uma grande quantidade de estresse emocional. (KÄSERMANN, 1983; ANDREASEN, 1990 apud VOLKER, 2001).

A literatura da área específica em transtornos mentais aponta que é típico da esquizofrenia que a gravidade da doença interfira na linguagem. Apresenta-se sempre um aumento das peculiaridades psicopatológicas, principalmente da área da linguagem, quando o doente esquizofrênico está muito comprometido emocionalmente e/ou quando os conteúdos das conversas contêm uma forte carga emocional para ele. (KÄSERMANN, 1983 apud VOLKER, 2001). A literatura difere sobre as causas e consequências desses transtornos e são limitados os trabalhos nessa área que pesquisam especificidades relacionadas, exclusivamente, à estrutura e ao funcionamento linguagem.

Para muitas peculiaridades linguísticas de pacientes esquizofrênicos tem sido feita a seguinte explicação: quanto mais desagradável for o tema da conversa (por exemplo, com os

familiares), maior será o estresse emocional experimentado e mais se elevará o nível de ativação psicofisiológica do paciente. (OEHMAN, 1981 apud VOLKER, 2001). As desordens cognitivas aumentadas pelo estresse emocional e pelas alterações na atenção/percepção têm como consequência uma recepção e um registro de informações equivocadas e incompletas. Por esse motivo, os doentes esquizofrênicos só acabam recebendo mensagens parciais de seus interlocutores e, em decorrência disso, processando equivocadamente essas mensagens, conforme já mencionamos.

Além de tudo que foi dito, as pesquisas recentes mostram que as pessoas esquizofrênicas têm dificuldades de viver experiências de interação social e de vínculos

interpessoais. Tendem, inclusive, a ter uma “deterioração” na capacidade de escutar e de

entender os outros, assim como nas habilidades para se concentrar em um tema de discussão. Esses transtornos de competência comunicativa e interativa dificultam, sem dúvida, o desempenho social dessas pessoas e parecem fazer crer que elas, dependendo do grau de gravidade da doença, não conseguem ser polidas, nem tampouco estabelecer estratégias de polidez para suas interações sociais.

Percebemos, ao longo da experiência de quase dez anos no projeto para pessoas com transtornos mentais da FECLESC e nas rodas de leituras que coordenamos, atualmente, que os doentes mentais jogam com a linguagem e com as máscaras sociais: são, portanto, polidos quando querem ser e com quem querem ser. Não estamos afirmando com isso que não haja um comprometimento na linguagem, na manifestação discursiva e nos dizeres de pessoas esquizofrênicas. Pelo contrário, queremos mostrar que elas são, mesmo em estado crônico, capazes de interagir com seus interlocutores de forma coesa e coerente. Isso se estiverem com vontade.

Novaes (1996, p. 25), com “Os dizeres nas esquizofrenias: uma cartola sem fundo”, faz reflexões em que esse transtorno sai de seu lugar de “doença mental de um

indivíduo” para “uma forma de dizer” de um sujeito. Novaes problematiza, sobretudo, as noções de indivíduo e de sujeito, sustentadas por uma visão em que a linguagem é transparente e o pensamento é por ela representado. Situa a esquizofrenia nos dizeres, como

efeitos de estranhamento que vêm de se estar na diferença, a partir de um “já-estar” na

semelhança.

Problematiza, inclusive, a oposição sentido/não sentido, a partir da instância do real e questiona: se tudo isso é verdade, como supor a interdisciplinaridade entre os fundamentos psiquiátricos e linguísticos se o ponto de partida já se apresenta como uma interrogação sobre o objeto e sua empiria? Qual é a natureza da diferença entre os dizeres de

pessoas “dotadas de razão” e de pessoas com transtornos mentais? “Mas o que garante o poder sobre os sentidos?”.

Novaes vai além, sustentando que os “procedimentos de observação e de controle

sobre o dizer exigem uma condição: a transparência da linguagem.” E acrescenta: “só se pode

controlar o visível e é no que o dizer pode ter de explícito, de literal, de linear, de transparente

que a transparência do comportamento desviante do louco também se tornará visível”. Após enfatizar isso, diz que “o ideal da transparência responde a um objetivo explícito de

compreensão, o que é uma outra forma de poder sobre os sentidos: a não-compreensão é

insuportável porque impede o controle sobre indivíduos”. Desse modo, “a loucura deixa-se entrever nos excessos e nas elipses, enfim na ruptura da linearidade do dizer”. A linguagem, então, “vai preencher e circunscrever o liame médico-jurídico, na medida em que é o lugar

que torna possível a marca da diferença: o louco usa uma linguagem diferente daquela

utilizada pelo médico” - uma linguagem que instrumentaliza a relação supostamente “transparente com o pensamento e sobre a qual se tem controle. Há, enfim, a separação também entre linguagens, e não só de indivíduos”. (NOVAES, 1996, p.17).

A esquizofrenia foi escolhida como foco da nossa pesquisa de doutorado não apenas por ser uma doença de consequências psicológicas e sociais devastadoras, tanto para os portadores quanto para seus familiares, mas também pelo fato de ser uma das doenças mentais que muito se fala e pouco se sabe. Em virtude dessa desinformação, predominante na sociedade e de diversos fatores culturais de ordem secular, inúmeros preconceitos injustificados, tantas vezes, estigmatizam os portadores dessa doença, dificultando até mesmo a compreensão da linguagem de seus portadores.

O estranho disso tudo é que o diagnóstico dessa enfermidade é feito através, geralmente, da linguagem, conforme já ressaltamos, de conversações e de entrevistas semi- estruturadas em que o psiquiatra ou psicólogo procura identificar na fala de seus pacientes muito mais sintomas de doenças mentais do que as causam de seus sofrimentos psíquicos. As perguntas feitas buscam tudo aquilo que possa indicar um estranhamento ou afastamento de um discurso padrão, que por questões semânticas e/ou pragmáticas se tornou irrelevante.

Quase sempre os doentes mentais não estranham suas falas, nem querem deixar de ter interações com os outros que o cercam. Pelo contrário, falam, conversam e, muitas vezes, só calam quando estão sem vontade de interagir - diga-se de passagem, como qualquer dito

“normal” - ou quando estão “reprimidos” pelas ações terapêuticas, pelos medicamentos. Por sinal, para muitas pessoas, é mais fácil utilizar tais ações do que escutar os “devaneios dos insanos”. Essas pessoas, inclusive, familiares, talvez, ainda não tenham percebido que é na

escuta desses devaneios que estivesse uma grande contribuição para o melhor tratamento das doenças mentais e uma melhor compreensão da linguagem humana.

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